terça-feira, 14 de maio de 2024

A medida da água


A palavra se escondeu de mim nestes últimos longos dias. Ela voltou há pouco e está me ajudando a elaborar o que está acontecendo e a dor imensa que causa.

Há quem se cerque de um ou mais animais de estimação dentro do apartamento. Há quem prefira se cercar de plantas. Estou no segundo caso.

Gosto de olhá-las todo o dia, tirar as folhas secas, ver quando aparece alguma flor, no caso das violetas e orquídeas, ou quando aparecem as folhas novas e o verde muda de tonalidade à medida que cresce. E vejo elas se virarem para a luz da janela. Nem todas eu sei o nome, nem todas querem a mesma quantidade de água, o que fiz antigamente e perdi algumas delas. As violetas precisam de umidade, mas menos que outra planta parecida com elas, com ramos que se esparramam e descem do vaso. Tenho uma folhagem com desenhos lindos que parecem feitos por um artista, disseram-me que é planta do mato, quer a terra sempre úmida, suas folhas se juntam num feixe vertical à noite e se abrem com a luz do dia. Lindo de ver o movimento das plantas. E as espadas de são Jorge (tenho outras parecidas, com outro nome), também precisam de bastante água, elas seguem sempre na vertical independente do lugar onde estejam. Precisa dar bem menos água para as orquídeas. E para os cactos nem se fala (ainda não consegui acertar, já afoguei alguns deles). Depois de ter dado água demais para minha zamioculca, e depois de ver mais de um broto definhar, aprendi que ela precisa de pouca água, até menos que as orquídeas. Custei a dosar a água necessária para cada espécie.

Nos dias que estamos vivendo, a água está presente em cada momento, diante dos olhos, nas preocupações, na falta, nos pesadelos. Ela nos faz repensar o passado e nos empurra a planejar o futuro. Vivemos um presente que joga a conta dos nossos erros. Quando muitos de nós ficaram sem água potável e, alguns como nós, só precisaram racionar, recolhi água da chuva para as minhas plantas. A ironia de termos água por todo o lado, chuva forte e incessante, rios transbordando e sem ou pouca água na torneira.

Aprendi no ensaio e erro. Deveria ter buscado informações para aguar corretamente minhas plantas. Por descuido, por achar que sabia, por ignorar informações (algumas não lhes dei importância), enfim, negligência com algo que sempre afirmei gostar muito. Depois de bastante tempo, talvez meses, vejo dois brotos no vaso da zamioculca. Um deles no mesmo lugar do outro que não deixei crescer. Fui acariciá-los de leve, com cuidado, senti sua superfície lisa e fria de folha. Agradeci sua vinda. Lembrei os que foram atingidos e lhes desejei também renascer mais fortes.

Estes instantes em que escrevo, os primeiros durante os quais consigo chegar ao teclado, são um bálsamo à dor pelos amigos atingidos e à de todos os que tiveram a perda de alguém ou de coisas materiais. Um mundo de horror diante de olhos impotentes que sequer podiam transformá-lo em palavras.

Estou na torcida para que os que estão no poder tratem do sofrimento de todos com o cuidado de seres delicados e frágeis que precisam de alguma forma renascer como brotos no terreno social. Ressalto “no poder”, porque há milhares de voluntários que fazem o que podem, desde os primeiros momentos, para ajudar os que precisam independente de erros dos outros. Trabalham movidos pela sensibilidade diante da dor do outro.

Há uma chuva de narrativas, não só de gotas de água, sobre a ação humana desastrosa com nossas matas e rios. E não é de agora. Não foi por falta de aviso de cientistas e estudiosos da natureza próxima e distante. A palavra foi teimosa e  circulou por inúmeros espaços e ao longo do tempo e não lhe deram ouvidos.

Por tudo isso, agora o perigo está na falta de seriedade e transparência de quem foi surdo aos apelos da ciência. Como farão a aplicação dos recursos que estão chegando de todos os lados? Não há mais lugar para a surdez e cegueira diante da realidade, nem para ensaio e erro, nem para maracutaias.