segunda-feira, 15 de abril de 2024

Os números falam

 

Há alguns dias fui fazer exames de sangue na primeira hora da manhã. No retorno, após tomar café, liguei o computador como faço pela manhã quase diariamente.

Desejei escrever sobre minha dificuldade de colocar fora papéis. Foi a pequena tira que me lembrou disso. Nela foi escrito o número fornecido pela farmácia da qual sou cliente e me oferece desconto no exame de vitamina D. O meu plano de saúde não dá direito, e é um exame caro. Todo o ano, saio do laboratório e entro na farmácia ao lado, peço o número que comprova ser cliente, enquanto a atendente do laboratório me aguarda. No ano passado resolvi poupar a anotação e guardei o pequeno papel numa das repartições da carteira onde normalmente coloco cartão de crédito, identidade, algumas notas e moedas.

Desta vez, ao me apresentar ao balcão para o trâmite necessário aos exames, tirei também o papelzinho já amarelado pelo tempo. Fiquei surpresa, porque a atendente me disse que já não precisava dele, agora ela o acessaria através do cpf. Ao meu olhar de surpresa, ela gentilmente me disse que o usaria já que eu o tinha comigo. Feito isso eu voltei a dobrá-lo e recolocá-lo no seu antigo lugar. Em casa, pensei em jogar no lixo seco o papelzinho amarelado, não serve mais, mas acabei por colocá-lo aberto na frente do monitor. Fiquei olhando para ele, os números serviriam para algo mais que o desconto do laboratório? Poderia eu identificar um significado útil para a minha vida? Seria um indicador da numerologia para o meu futuro (já bem mais encurtado)? É um número grande, conto 16 algarismos, tem o número 7 com o qual simpatizo; o número 21 dia do meu nascimento; o número 3 o símbolo cristão da Trindade; o 14 ano do início da primeira guerra mundial no século XX (hoje seriam várias datas para essa guerra mundial em pedaços do séc. XXI); o 60 que marca o início de ser idoso (li que querem alterar para 65 diante da expectativa de vida atual,); imagino que a lei vai passar, o número 65 também está contemplado aqui; 23 é a idade com a qual casei; com 36 anos tive meu último filho.

Poderia eu fazer uma leitura da realidade atual, ou mesmo do futuro, através da leitura das inúmeras composições que podem emergir deste enorme número à minha frente? A fixação nele lembrou-me a resistência em jogá-lo fora, tipo um bilhete de loteria que compramos num momento qualquer, mas não acreditamos na própria sorte, mas o guardamos mesmo assim. O bilhete terá sua confirmação ou não. Este extenso número está sendo um convite à reflexão, à fuga do terremoto de notícias que já me fez adoecer. Este papel está me oferecendo algo sem precisar de sorteio.

A fileira de números no papelzinho marcado pelas dobras continua a me chamar, e composições se alternam numa coreografia ditada pelo meu olhar. Agora são pares que se sobressaem, mas eles se escolhem aleatoriamente – não só pela proximidade na fileira que uma caneta registrou –, e a variação cresce. O número 6 junta-se ao 4 e me lança o ano da ditadura; mas o quatro é instável e se aproxima do 5 para que eu lembre a morte de Getúlio em 54. Neste ponto, desisto. Não quero continuar neste caminho que está se tornando obsessivo em lembranças dolorosas. Esta recusa me fez parar e alisar o papelzinho. Dali, sobressaiu-se o 8, justo ele, escondido numa das dobras. O símbolo da vitória e da prosperidade, perdido no meio de tantos outros.  Sei também que significa a energia que une Terra e Universo, energia que não se esgota e leva ao infinito.

Precisou uma dobra num pequeno pedaço de papel para voltar a me lembrar da infinitesimal partícula que o ser humano ocupa na vastidão das incontáveis galáxias. Mesmo que eu guarde todos os papéis que passam por minhas mãos, nada vai ter importância. O que vale é lembrar o que somos no cosmos que habitamos por ínfimas frações de tempo. E todas as guerras poderiam desaparecer se evitássemos as guerras individuais que as geram. Ou seja, voltar às origens, ao número 8. Pelas previsões dos cientistas não nos sobra muito tempo.

 

 

 

Então, penso que este pequeno papel com este enorme número cumpriu sua função de lembrar o passado, mas também o lugar que ocupamos. É ali que estarão as energias para enfrentar os acontecimentos que nos jogam no desânimo e na impotência. É preciso se concentrar no número 8 e procurá-lo, quando escondido, é ali que poderão ser encontradas alternativas.

 

 

 

 

 

Paro uns instantes e detenho-me a olhar o pequeno desenho que me transporta para outros momentos e lugares, para outras dobras da minha vida. Vejo a necessidade de olhar para o que usualmente não faço. Talvez por isso eu tenha dificuldade de colocar papeis fora. Talvez eles estejam a me dizer para olhar o que tenho resistência em ver e em fazer. Uma resistência a me segurar entranhada na Terra e me impeça de olhar o Universo