Dia 14 de março de 2018,
foram assassinados a vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes,
quando retornavam para casa. 2202 dias foram necessários para que os mandantes
fossem denunciados. É impactante a entrevista com a assessora de Mariellle, Fernanda
Chaves, sobrevivente ao assassinato deles. Foi preciso ter o governo atual para
que isso acontecesse, declarou ela, ao relembrar os comportamentos estranhos da
polícia civil e da polícia militar do Rio de Janeiro já no atendimento ao caso.
Como
cidadã comum, acompanhei o caso de longe e, muitas vezes, repostei a pergunta
que a jornalista Eliane Brum fez diariamente
durante estes anos nas redes sociais: Quem mandou matar Marielle?
O jornalismo foi
fundamental, ao menos o jornalismo investigativo comprometido com a verdade dos
fatos. Sabe-se que a os principais meios de comunicação do país desde sempre
estão ao lado do poder e, se não sonegam a verdade, muitas vezes a deturpam.
Quem faz a diferença é a imprensa alternativa, graças a ela chegamos aos
mandantes, os quais serão julgados de acordo com as leis do país.
No entanto, outro ponto
foi destacado ao longo das análises sobre o caso Marielle. É o fato de que o
seu assassinato está enraizado na história do país e, especificamente, do Rio
de Janeiro e na formação das milícias que estão promiscuamente conectadas nas
instituições públicas, polícia, Câmara de Vereadores, Assembleia Legislativa, ou
seja, no próprio Estado. Por sua vez, a história local tem os seus antecedentes
num terreno fértil adubado no período da ditadura, de onde emergem sujeitos
implicados no assassinato de Marielle.
Por isso a memória é
fundamental e, se muitos desmandos e muitos crimes estão acontecendo hoje, é
justamente por ignorar esta memória. Na medida que nossa história não foi
passada a limpo, na medida em que criminosos ainda não foram punidos, não
podemos ultrapassar o círculo viciosos de crime/impunidade. A história se
repetirá.
O caso Marielle, tal como
está sendo encaminhado agora, é um alento para que a história não se repita,
para que a memória seja preservada, protegida e acessada pelas gerações que se
sucedem. O perigo está justamente em não preservá-la. Se o Governo Federal
optou por não dar maior visibilidade à data dos 60 anos do Golpe de 1964 –
imaginamos possíveis motivos – a sociedade civil e, principalmente o jornalismo
comprometido com a democracia não está se calando. Felizmente.
Destaco o documentário “1964: Uma Ferida Aberta na Democracia”
do excelente trabalho investigativo e educativo do ICL – Instituto Conhecimento
Liberta. Ali é lembrado um período tenebroso que precisa ser exorcizado, porque
bate nos nossos calcanhares periodicamente e, sobretudo, nos cutuca com a dor
de quem sofreu a tortura no próprio corpo e continua viva ainda hoje, sentindo
os perigos do retorno daquele período. O horror que pode ser dito em algumas de
suas palavras, o corpo torturado pode ficar verde ou azul.
Tortura nunca mais. Sem anistia.