quarta-feira, 27 de março de 2024

A tortura tem cor

 

Dia 14 de março de 2018, foram assassinados a vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, quando retornavam para casa. 2202 dias foram necessários para que os mandantes fossem denunciados. É impactante a entrevista com a assessora de Mariellle, Fernanda Chaves, sobrevivente ao assassinato deles. Foi preciso ter o governo atual para que isso acontecesse, declarou ela, ao relembrar os comportamentos estranhos da polícia civil e da polícia militar do Rio de Janeiro já no atendimento ao caso.

            Como cidadã comum, acompanhei o caso de longe e, muitas vezes, repostei a pergunta que a jornalista Eliane Brum fez diariamente  durante estes anos nas redes sociais: Quem mandou matar Marielle?

O jornalismo foi fundamental, ao menos o jornalismo investigativo comprometido com a verdade dos fatos. Sabe-se que a os principais meios de comunicação do país desde sempre estão ao lado do poder e, se não sonegam a verdade, muitas vezes a deturpam. Quem faz a diferença é a imprensa alternativa, graças a ela chegamos aos mandantes, os quais serão julgados de acordo com as leis do país.

No entanto, outro ponto foi destacado ao longo das análises sobre o caso Marielle. É o fato de que o seu assassinato está enraizado na história do país e, especificamente, do Rio de Janeiro e na formação das milícias que estão promiscuamente conectadas nas instituições públicas, polícia, Câmara de Vereadores, Assembleia Legislativa, ou seja, no próprio Estado. Por sua vez, a história local tem os seus antecedentes num terreno fértil adubado no período da ditadura, de onde emergem sujeitos implicados no assassinato de Marielle.

Por isso a memória é fundamental e, se muitos desmandos e muitos crimes estão acontecendo hoje, é justamente por ignorar esta memória. Na medida que nossa história não foi passada a limpo, na medida em que criminosos ainda não foram punidos, não podemos ultrapassar o círculo viciosos de crime/impunidade. A história se repetirá.

O caso Marielle, tal como está sendo encaminhado agora, é um alento para que a história não se repita, para que a memória seja preservada, protegida e acessada pelas gerações que se sucedem. O perigo está justamente em não preservá-la. Se o Governo Federal optou por não dar maior visibilidade à data dos 60 anos do Golpe de 1964 – imaginamos possíveis motivos – a sociedade civil e, principalmente o jornalismo comprometido com a democracia não está se calando. Felizmente.

Destaco o documentário “1964: Uma Ferida Aberta na Democracia” do excelente trabalho investigativo e educativo do ICL – Instituto Conhecimento Liberta. Ali é lembrado um período tenebroso que precisa ser exorcizado, porque bate nos nossos calcanhares periodicamente e, sobretudo, nos cutuca com a dor de quem sofreu a tortura no próprio corpo e continua viva ainda hoje, sentindo os perigos do retorno daquele período. O horror que pode ser dito em algumas de suas palavras, o corpo torturado pode ficar verde ou azul.

Tortura nunca mais. Sem anistia.