Acabo vendo alguma
notícia na primeira hora da manhã e minha indignação desperta. Mas não consigo traduzir
este sentimento, que me faz muito mal, numa reação prática aos horrores que
estão acontecendo no mundo. A última notícia “o Ocidente joga sujo com a Palestina”.
Joga sujo quer dizer que não faz o que deveria para acabar com o genocídio que
está acontecendo lá. Vemos em tempo real matarem, matarem, matarem. E
continuamos a viver nosso cotidiano, comemos, dormimos, damos risadas. É
preciso fazer isso, não temos poder de interferir, nós, simples cidadãs e
cidadãos de qualquer parte do mundo. Isto é terrível. Alguns dizem que isto
sempre aconteceu, muitas vezes sem que soubéssemos. E não é a única guerra em
curso. E que outros genocídios já aconteceram. E que temos nossas próprias
guerras nas periferias de nossas cidades. E a nossa vida não se alterou, ou é
de alguma forma alterada apenas eventualmente. Certo, mas saber e ver em tempo
real é bem outra coisa.
Pergunto-me de que
adianta ler uma considerável quantidade de análises, entender porque chegamos a
isso, de poder me posicionar conscientemente e ter empatia pelo sofrimento
alheio. O sentimento mais poderoso que emerge é o da impotência diante da
barbárie a que chegou a humanidade. É terrível ser testemunha do horror de que são
capazes nossos semelhantes, lá ou aqui, à revelia das conquistas das ciências e
da capacidade de entendimento do que nos cerca no planeta e no universo.
Somos testemunha
da ínfima presença do ser humano, num minúsculo planeta girando num canto de
uma das bilhões de galáxias, e de sua tremenda capacidade letal, com a qual
poderá nos levar à autodestruição. Tudo isso mostra já estarmos vivendo a
distopia anunciada pela literatura nas últimas décadas. Ela vem sendo
alimentada aos poucos, por isso mesmo não percebida por muitos, para desespero
de quem tem acompanhado o crescimento dos seus tentáculos.
Então, para não
sucumbir ao desamparo, procuro avidamente me conectar aos gritos de milhares de
pessoas pelas ruas de incontáveis cidades, às vozes que não se cansam de exigir
justiça seja onde for e um cessar das hostilidades nos lugares mais esquecidos.
Procuro ouvir as canções, os poemas, os discursos, as histórias, e lembrar os pequenos
gestos cotidianos de solidariedade, e os milhões de palavras lançadas nas redes
de comunicação, criando narrativas que se contrapõem a quem está cego de ódio e
de poder.
Há poucas horas
encerrou-se o 74º Festival de Sanremo, seis noites de entretenimento com
audiência recorde na Itália e no mundo. Um festival enraizado na cultura do
país, jovens cantores ao lado de ícones da música italiana. Letras que expressam
as relações afetivas com suas dores, contradições e os anseios individuais, outras
com reflexões de cunho social. No conjunto, um espetáculo para reverenciar a
música italiana na capacidade de se recriar através das novas gerações. Ao
final de sua apresentação, o jovem Ghali, cuja letra tem implícita uma crítica
social, reafirmou o que havia dito na noite anterior: Stop ao genocídio,
sendo fortemente aplaudido e desaprovado por alguns no dia posterior. Pode ser pouco, prefiro acreditar que a semente
do inconformismo está germinando na geração que nos substitui. Vi naquela
manifestação um sinal de esperança, um ar fresco e perfumado a nos convidar para
ocupar espaços e fazer o que for possível do jeito de cada um. Em qualquer
lugar, em qualquer tempo.
O meu gesto é somar-me
a Ghali e fazer eco às suas palavras. E às de tantos outros que as disseram
antes dele e continuarão a fazê-lo.