segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Faíscas e escrita


     Quando me disponho a escrever no primeiro tempo da manhã – sempre foi o mais produtivo – e venho para o computador, minha mente mostra-se vazia. Branco da tela, olhos fixos, um espaço milimétrico entre ponta dos dedos e letras do teclado que retornam mudas ao meu olhar, poucos segundos, às vezes uma centelha, e os toques acontecem, se consigo recuperar sentimentos do dia anterior e gostaria de ter registrado, mas acreditei ter deixado escapar. Então as imagens surgem e se transformam em palavras.

 Isto é uma recorrência. Já pensei em usar escrita à mão para prender aquelas que chamo de faíscas do cérebro, ideias emersas por causa de uma imagem, um cheiro ou um toque de mãos. Colher o instante. Não é a mesma coisa que recuperá-las algum tempo depois, ou no dia posterior.  Muitas se perdem. Espalhar cadernos pela sala, cozinha, quarto, seria um artifício para retê-las, como faço com copos de água para me lembrar de tomá-la, porque quase nunca sinto sede. No caso das faíscas, é ter sede, mas não ter o copo de água ao alcance. A escrita não rende quando me disponho a começá-la sem ter sido movida por algum sentimento urgente que necessita mostrar-se, sair de dentro de mim, expor-se para continuar a existir. É não ter sede naquele momento.

Por outro lado, gosto da imagem de contrações que fazem surgir estas faíscas, pensamentos emersos no meio das mais diversas tarefas cotidianas, lavar pratos, fechar uma porta que range, ouvir um carro que passa pela rua, cometer lapsos nas falas, elas cortam os afazeres na corrida do dia a dia. Contrações geram nascimentos. Imagino nascimentos perdidos por não haver o seu registro. Vale agarrar o que contrações e faíscas produzem constantemente, sinal de potência, de que algo está nelas querendo se manifestar.

Lembrar a recorrência de ignorar muitos dos pensamentos ou sensações que surgem de repente, e que poderiam frutificar em escritos, me leva à fala de Pepe Mujica ao expressar seu conceito de liberdade “sou livre quando faço as coisas que gosto de fazer”. O que tem a ver liberdade com a escrita? Só posso exercer a liberdade quando posso prestar atenção às minhas necessidades e não àquelas criadas pelo modo de viver em busca interminável do último modelo de qualquer objeto que possuo, fonte de insatisfação contínua porque sempre haverá um novo modelo. Sou livre quando largo qualquer necessidade que o mundo me impõe e escrevo.

Quando consigo começar a escrever, seja lá o que for, entro num mundo que me afasta de atribulações, mesmo que as palavras falem sobre elas, porque as encaro e as uso como quero, queixo-me, xingo, amo, odeio, desabafo sem censura, estou no comando. É isto, escrever é estar no comando, pode ser um tema prazeroso ou angustiante, mas sempre será algo sobre o qual decido, ao menos o começo do caminho. Num segundo momento a própria escrita me leva a seguir, a me aventurar em caminhos desconhecidos que não sei onde vão me levar. Este é um poder que fortalece e empurra para seguir. Não é um plano, é cheio de obstáculos, mas grávido de promessas de superação. Algumas promessas podem não se concretizar, mas vale seguir e criar. Este é o sentido que dou às palavras de Pepe Mujica sobre fazer o que se gosta. Gosto não é uma questão de leveza e de satisfação superficial, mas conexão com a capacidade de fazer algo que dá sentido ao que se faz e ao estar no mundo.

Escrever é uma forma de estar enraizado no mundo, produzindo diferentes mundos.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Quando o corpo fala

 

A história começou com um resfriado sem febre, de apenas dois ou três dias.  O resfriado emendou uma tosse que me fez penar durante cerca de três semanas, resistindo a xarope, chás e antialérgico. Esta é uma recorrência ao longo da vida. Tratada devidamente por acupuntura muito tempo atrás, ela sumiu por anos e voltou a se manifestar em épocas recentes de instabilidade política. Eu não me dava conta do quanto me atingiam aquelas situações, do quanto a tristeza havia se entranhado e me paralisava. A tosse veio me dizer. De lá para cá, aprendi que alergias e a persistente tosse vêm me avisar alguma coisa que não quero ou não consigo olhar.

Nos últimos meses, a trégua vivida com a eleição de um Presidente que procura defender os interesses da população mais excluída é ameaçada, e a tosse, depois de quase um mês, transformou-se em infecção das vias respiratórias. Depois de tomar antibiótico, coisa que não fazia há tantos anos que nem lembro, veio uma virose que me derrubou em uma noite e um dia. A recuperação foi lenta, meu corpo custou a se reerguer. Tudo somado, passaram-se cerca de dois meses. A tosse persistiu, a tristeza também, e eu voltei à acupuntura, paralela ao antialérgico. Ao final de três meses, larguei o antialérgico. Continuo com a acupuntura.

Ao mesmo tempo, vivi o período trágico na cidade. A enchente devastadora, cujos danos poderiam ter sido numa escala bem menor se o poder público tivesse tratado do sistema de prevenção. Os terríveis acontecimentos povoaram meu cotidiano de uma forma muito dura ao ver as imagens de destruição pelas águas e o desespero das pessoas. Nada me atingiu fisicamente. Nada faltou na minha rua. A luz não foi cortada, a água não faltou, nem sequer a internet. No meu micro mundo, tudo continuou igual. Tudo acontecia à distância, algumas zonas poderiam ser atingidas por uma caminhada, outras longínquas, no entanto, todas próximas pelas notícias cotidianas.

A natureza mostrou sua força e respondeu aos maus tratos sofridos pela ação do homem, mas pior foi a população negar as causas e os responsáveis. Um mundo distópico foi se desenhando com o correr dos dias. Os culpados, fazendo-se de vítimas. Os donativos chegando de pessoas e organizações do país e do mundo, sendo vistos como a única fonte de ajuda. Pontes e estradas sendo reconstruídas, helicópteros salvando vidas, verbas emergenciais para as famílias, débitos municipais e estaduais sendo revistos, verbas federais para a reconstrução de estados e municípios ignoradas. E tantos outros acontecimentos foram negados. Pelo contrário, acusações mentirosas. Enfim, uma teia pegajosa de falsidades indiferente ao sofrimento de centenas de milhares de pessoas. Não adiantaram denúncias da má administração municipal e de suas responsabilidades. Durante a campanha eleitoral para prefeito e vereadores, que mostrava desde o início como as mentiras eram aceitas, uma sensação de impotência foi se instalando. Eu sem energia para qualquer atividade. O mesmo prefeito foi reeleito. Seguimos nas mãos de quem causou males à cidade, seguiremos nos mesmos rumos nos próximos quatro anos. O negativismo e as mentiras nas redes sociais venceram.  Tudo me atingiu de tal forma, que meu corpo falou. Foi outro fator que me levou aos dois meses de doença.

Paralisei junto com minha tristeza. A conversa que ouvi hoje me reavivou as razões. A entrevista com a Fernanda Torre sobre a sua atuação no filme Ainda estou aqui foi daquelas que abrem respiradouros, que ajudam a entender sentimentos adormecidos em algum canto dentro de ti, que te cutucam, mas que não consegues conversar com eles, olhar para eles e assumir sua enormidade. Ou são olhados de esguelha com medo deles. Ou é o próprio medo que lhes joga sombras. Das diferentes falas acerca de sua atuação no filme e sobre a personagem que ela representou – Eunice Paiva, esposa do Deputado Rubens Paiva –, sobre a história do terror do Estado naquela época, sobre a necessidade de continuar a falar sobre o que ocorreu, porque os responsáveis diretos foram identificados, mas não punidos, Fernanda fez a distinção entre tristeza e dor. Traduzi sua fala com minhas palavras. A tristeza é egoísta, sozinha, chora a si mesma, ela está dentro de corpo e o faz adoecer, nem sempre com uma doença grave, mas com resfriado, alergia, virose. Um adoecer em etapas. A tristeza manifesta-se na solidão, introspectiva, represa sentimentos, não leva à ação. Por isso ela adoece o corpo. Enquanto a dor olha para fora, empurra a agir diante do acontecimento que maltrata, há empatia pelo outro. O filme mostra a dor de Eunice Paiva e de seus filhos, mostra sua luta pela verdade e pela justiça durante décadas sem nunca desistir. Entendi que a diferença está na ação, na busca por caminhos para enfrentá-la apesar dos obstáculos encontrados. Seguir lutando.

Por um período, desisti. Nenhuma ação que me fizesse sentir estar lutando como sempre fiz ao longo da vida. Uma tristeza sem fim acompanhou-me ininterruptamente e me isolou. Nenhuma palavra publicada. E veio a entrevista que sacudiu meu estado de torpor.

Ainda não sei como posso agir, além do que estou conseguindo fazer. No entanto, a compreensão dos meus sentimentos implodiu a inércia. Assistir à entrevista foi tão valioso quanto uma sessão de terapia. A arte e a escuta da palavra fizeram-me voltar novamente ao auxílio da escrita.

 

 

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Gangorra

 

Balanço na gangorra de acreditar que ainda podemos enfrentar os horrores do mundo através da palavra e, em seguida, cair no desânimo de ver tantas palavras serem gritadas sem serem ouvidas. Estamos no movimento de descida na gangorra.

Lembro seguidamente de uma afirmação de Marx (ao menos é o que guardei como se fosse dele) que se a observação da realidade fosse suficiente para compreendê-la, não haveria necessidade da ciência. A ciência precisa da palavra.

No entanto, hoje, estou tão impregnada de palavras nas teorias sobre os horrores que vejo acontecer perto e longe de mim que preciso ausentar-me para respirar.

Preciso distanciar-me para poder acessar o mundo da criação, da imaginação, da liberdade de exploração de outros mundos possíveis. Outro mundo de palavras. Coisas fantásticas foram imaginadas e registradas na literatura antes que pudessem ser materializadas. Não foi assim ao longo da história? Não foi Leonardo da Vinci que imaginou protótipo de avião séculos antes que o homem pudesse construí-lo? Infelizmente ele projetou também artefatos de guerra. Não foi Júlio Verne que viajou ao fundo do mar com a sua história, muito antes que alguém acreditasse ser possível a construção do primeiro submarino?

A trégua é pequena. A literatura me traz outras palavras em Admirável Mundo Novo onde Huxley antecipou experiências para domínio de cérebro humano. E Mary Shelley que nos presenteou com a construção da figura disforme de Frankenstein? George Orwell com 1984, alertava para o perigo que rondava o mundo livre, inspirado nas sociedades dominadas pelo então “comunismo”. Tantos outros. Mais recente é o Conto de Aia de Margaret Atwood a nos mostrar um mundo terrível com suas raízes plantadas no nosso cotidiano capitalista, quando o “comunismo” já deixou de existir. E volto à crueldade que certos países exercem sobre outros, e não existem palavras e argumentos que os bloqueiem. São emitidos discursos horrorosos em sua defesa. A realidade supera qualquer narrativa literária.

A palavra cooptada e vulgarizada de tal forma a serviço de grandes conglomerados econômicos, que temos cada vez mais dificuldade em discernir a realidade dos fatos das narrativas mentirosas e distorcidas. Sempre a palavra. Sem ELA como podemos buscar caminhos para enfrentar o poder de morte que está se mostrando tão potente hoje no mundo? É ela que continua a constituir-se em núcleos de resistência dos mais diversos cantos do planeta.

No livro Ecologia de Joana Bértholo, o caminho para a subjugação do ser humano será através da mercantilização de sua fala. Numa narrativa densa sobre a construção do último patamar de uma sociedade distópica, ela nos apresenta as diferentes etapas em que o ser humano vai aceitando comprar a quantidade de palavras que vai usar, ao final, a opção estará em diferentes pacotes mensais tal como uma assinatura de celular ou de internet. Quem tem mais dinheiro pode falar mais, a requalificação eterna das classes sociais. Para tanto foi necessário eliminar todas as milhares linguagens do mundo, porque o ser humano tentou escapar utilizando outras palavras não conhecidas do sistema, mas identificadas e absorvidas paulatinamente. A diversidade foi transformada em unicidade, sem vias de escape.

Parece que o tempo que estamos vivendo oferece considerável número de sinais a dar razão a esta narrativa de Bértholo. Tomo apenas o exemplo das redes sociais. A redução das palavras em siglas, a criação e simplificação de termos, a substituição cada vez maior de palavras por emojis, o aumento da incapacidade de utilizar argumentos na defesa de um ponto de vista, a dificuldade cada vez maior de interpretar um texto, ou seja, uma disfunção cognitiva assustadora. Tudo parece ser um terreno adubado e fértil para a produção da sociedade de linguagem e pensamento único de Bértholo.

A narrativa termina com uma das personagens escolhendo uma palavra para título de um livro resgatado de um tempo quando ela era criança e sabia ter sido escrito por uma tia já falecida. Todas as palavras que ela escolhia eram muito caras, a encarregada do acervo sugeriu-lhe a palavra Ecologia por ser a mais barata, em desuso há muito tempo. Curiosa como sempre foi, a personagem busca saber o que representa aquele termo recolocado no Território de Significação Fertilizado. Lá ela encontra, dentre outros significados completamente diversos do qual conhecemos hoje, Ecologia = o Estudo dos Ecos.

Busquei ajuda para me erguer na gangorra, não encontrei. A diversidade de linguagens ainda existe.

 

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Do vermelho ao verde


Meu quase sonho foi colorido na noite que passou. Sabia estar deitada sobre meu braço esquerdo como sempre, mas só meu corpo estava lá. Bolas vermelhas pulavam sem parar em meio a outras cores que apareciam e despareciam em redemoinhos ao redor e centro de meu corpo. Aquele movimento embalava-me, dava-me prazer. Muito prazer. Falava-me alguma coisa, e eu prometia lembrar o que estava vendo e sentindo para que pudesse escrever quando acordasse. Não sei quanto durou aquele estado. Eu tinha certeza de que desta vez eu conseguiria lembrar, tal era a sensação de domínio sobre o que estava vendo e sentindo. Acordada, não soube se fora sonho, ou imaginação, naquele limiar entre dormir e acordar. Um falso domínio. Certo é lembrar-me das bolas vermelhas e que elas queriam me dizer alguma coisa. Certo é que ainda tinha resquícios daquela tremura poderosa e inominável no meu peito e na minha barriga, e a certeza da policromia que se perdeu, com o convite para lembrar e decifrar sua mensagem. Não sabia por onde começar. Ainda mais num tempo de muitos sobressaltos com os acontecimentos políticos no país. Pensei em buscar informações sobre cores e seus significados, mas temi distanciar-me daqueles momentos, certamente ligados a meu inconsciente. Estaria negando os horrores que vejo todo o dia e produzindo um mundo paralelo para sobreviver? Concentrei-me no pedaço de lembrança. Bolas vermelhas. Vermelho, é um símbolo com o qual me sinto ligada hoje em dia, principalmente político, esquerda, luta de classes, guerras, resistências, empatia pelos marginalizados, luta pela vida. Não traz prazer, antes, um desafio, um apelo a agir.  Nem sempre foi assim, raramente vesti uma camiseta vermelha, certamente nenhum vestido, nenhuma saia. Nunca me perguntei os motivos, mesmo sabendo que o vermelho dava cor ao meu rosto, como me diziam. Lembro da combinação do roxo com o cinza claro, tive um conjunto de saia e casaco na minha juventude, chamava-se tailleur, hoje não ouço mais esta palavra, hoje fala-se conjunto, ou uma denominação mais atual, e o comprimento da saia justa não mais cobria o joelho, a nova moda merecia fofocas, críticas – o joelho era uma parte menos bonita do corpo feminino – e aplausos pela liberação da mulher, conceito possível naquela época, sem antever as microssaias atuais. O verde também, em outro tailleur. Aquelas roupas me deixavam elegante. É isto, relaciono essas cores com elegância e com um futuro e sonhos a se realizarem. Hoje eu não tenho qualquer peça roxa. Mas possuo sempre roupas verdes com tonalidades diversas. Lamento o confisco que parte da sociedade fez da associação verde/amarelo. Além das roupas, o verde me é fundamental, ligado à Amazônia, à Mata Atlântica, às araucárias, às árvores decepadas na cidade nos últimos tempos, todas ameaçadas, necessidade de preservá-las, cobertura de vegetação a risco nos cinco continentes e próximo a um ponto de não retorno. Sinto necessidade de uma caminhada em meio ao frescor e cheiro de mato. Fico perguntando se meus netos terão esta experiência no futuro. Amo o rosa do ipê roxo – sei que não havia rosa no sonho –, ele se destaca no meio das matas, vejo um exemplar da minha área de serviço e temo por ele, a cada ano está com sua copa reduzida, deve ser pelo confinamento entre três edifícios, livre apenas em frente à calçada, o que me permite vê-lo. Antes havia somente pequenos sobrados naquela rua. Gosto das flores vermelhas do flamboyant em dezembro, no pátio do edifício no lado sul do meu, no meio das folhas que lhe servem de moldura verde, uma copa exuberante que vem diminuindo depois de contínuas podas radicais. Amo a pitangueira que se cobre de pequenas flores brancas e deixa a calçada atapetada quando elas caem, faz-me sentir num jardim mesmo numa rua completamente tomada por edifícios. Encanta-me olhar a buganvília que se curva com elegância sobre a grade na frente do nosso edifício, oferecendo suas flores fúcsia. Branco e fúcsia serão cores desaparecidas do meu sonho?

Em todo esse passeio por onde o olhar alcança de minhas janelas, é o verde com suas incontáveis tonalidades e brilhos que se oferece todo o dia. Não há qualquer vermelho. Alguns juncos ainda sobraram no fundo da casa lindeira, junto a um abacateiro e a uma alta e frondosa árvore, cujo nome desconheço, amaldiçoada por alguns moradores, porque foi pouso de morcegos robustos vindos de outras paragens depois da última enchente. Pequenos  aparelhos com emissão de som insuportável àqueles seres voláteis foram colocados no muro, eles sumiram e a árvore foi salva.

Junto aos outros terrenos vizinhos ainda sobram espécies variadas que receberam a companhia de palmeiras ornamentais do novo edifício, uma moda dos últimos tempos na cidade. A imagem desta ilha de vegetação próxima, no meio do bairro, faz-me agradecer viver ali. Abasteço-me diariamente destas imagens-trégua entre paredões de prédios cada vez mais altos. Poderia fazer um álbum de copas varridas e dobradas pelo vento, lavadas por chuvas calmas ou agressivas, dizendo-me como está o tempo lá fora. E nos dias de sol, reflexos de luminosidade em mosaico de folhas lembram sua proteção fiel contra o calor que se anuncia mais forte ano após ano.

Volto ao meu quase sonho e vejo como o vermelho me levou ao verde. Um passeio em livre associação. Ocorre-me que o vermelho conseguiu escapulir à censura da vigília, mas é o verde que me chamou e me acalmou.  Ainda não estou satisfeita com meu percurso, sinto que faltou alguma coisa. Esta falta talvez seja preenchida no próximo sono. Ou não. Talvez, esta falta seja aquela que me faz sonhar e escrever apesar de tudo, um caminho com a palavra escrita a me ajudar na produção de sentidos, onde mora a minha singularidade. O que diriam Freud ou Lacan? Encerrado o tempo de hoje, continuamos na próxima sessão.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Calçadas

 

Eu os via juntos nos últimos tempos e cheguei a me perguntar como se conheceram. O certo é que viviam como um casal, com seus momentos de gentileza e outros em discussões ferozes. Nunca, porém, os vi rindo. Eu continuo a passar seguidamente pelo ponto onde ficavam, um lugar próximo de onde moro. Estranhava quando não os encontrava um dia ou outro.

            A mulher estava ali desde sempre, não lembro daquele lugar sem a presença dela, era parte da rua como as árvores, o muro do clube, o poste de luz da calçada. O homem surgiu um dia e ficou com ela.  Comiam e dormiam na companhia um do outro, nem olhavam para os transeuntes. Raramente falavam com alguém. Ou melhor, raramente alguém falava com eles. Eu nunca tentei falar com eles, embora tenha pensado nisso várias vezes, eu não sabia o que lhe dizer.

            Tinham horários para chegar naquele espaço que inicialmente fora somente dela. Sempre na manhã tardia. Ficava a pergunta de onde viriam. À noite também não eram vistos por ali.

Ela, gorda, cabelos pretos, poucos dentes, voz esganiçada. Ele, também, cabelo escuro, mas branqueando, barba cortada de tempos em tempos, como os cabelos. Apesar dos trapos podia-se ver uma boa estrutura do corpo, braços bem feitos, feições regulares, até bonitas. Ela acusava uma deterioração maior nos traços e no corpo. Poderia também ter sido uma mulher atraente, se tivesse acesso ao uso de uma das estéticas do bairro em vez do trato nas ruas. Ambos, com pele clara sob as camadas de sujeira, exalavam um cheiro denso e insuportável que se derramava ao redor deles. Talvez, por isso, raros eram os que se acercavam ou cruzavam o próprio olhar com os pares de olhos que riscavam o espaço sem destino, quando cessavam as conversas ou brigas. Os pedestres costumavam se afastar para a beirada da calçada ou junto ao meio fio, quando se aproximavam de onde eles estavam. Eu também, apesar de sentir culpa por contrariar minha empatia pelos desafortunados das ruas e conhecer o que produz sua existência.

Por um breve tempo não foram vistos.

Um dia, ele voltou, mas não mais no mesmo canto com ela. Junto às grades que ladeavam o espaço ajardinado em frente ao edifício, grande quantidade de trouxas, restos de tecidos, plásticos e objetos que saíam de um carrinho de supermercado e se espalhavam pela calçada. Ele no meio, desgrenhado e imundo, deitado sobre um pedaço de colchão e coberto por trapos. Ao fundo do espaço gradeado, na fachada do prédio os dizeres Banco 24 Horas.

Ela retornou ao lugar de sempre no mesmo dia. Sentada, pernas encolhidas e cobertas por saia longa e de cor próxima ao cinza, apenas um dos braços cobertos pela blusa rota. Voltou a ficar ali, junto ao muro que lhe servia de encosto. Ela e suas trouxas encardidas, com o olhar vazio e a boca desdentada, enquanto carros e pedestres passavam à sua frente. Acima de sua cabeça, palavras que se sobressaíam a desenhos indecifráveis e esmaecidos: Jesus te libertará.

Depois de algum tempo, ambos desapareceram. Quando passo por ali sempre lembro deles e de minhas contradições.

 

Observação: Esta crônica incorporou sugestões do grupo de escrita sob a coordenação de Caroline Joanello e Júlia Dantas nas quintas feiras pela manhã.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Por onde recomeçar?


Estou recebendo jatos de informações sobre o atual momento no nosso Estado, dominada por um sentimento duplo de atração e repulsa, vence a atração, como numa relação tóxica. E minha mente pulula sobre o que ouço, e não consigo me concentrar para escrever. Não encontro um foco, como foi o caso da enchente. Escrevi crônicas sobre o horror que nos assaltou, em tudo podia encontrar motivo para esperar uma mudança de rumo, para uma aprendizagem com o que estava acontecendo. Parece que isso esgotou minha vontade de palavras, porque esta realidade continua a preocupar, ela está longe de estar resolvida, sequer bem encaminhada. Pelas notícias veiculadas, o governo municipal e o estadual mostram a mesma direção, não mudaram sua visão, nem suas decisões, ou seja, não incorporaram qualquer aprendizagem. Todo cidadão consciente teme pelo futuro de nossa cidade e de nosso Estado. Desanimo. Talvez seja este sentimento que barre minha vontade de escrever. A indignação me faz agir. O desamino me encolhe, os pensamentos não se organizam e ocupo o lugar de espera. Lembro da espera de Godot, uma espera interminável. Triste, muito triste. Prefiro-me indignada, mas a indignação não canalizada para realizar alguma coisa já me fez adoecer. Desculpo-me, mas não acredito em minhas desculpas. Coloco-me dúvidas sobre a validade de escrever sobre um tema ou outro, sobre o que interessaria para o leitor o que vai na minha cabeça. Salta-me a lembrança de um trecho do livro de Amós Oz onde escreve sobre a diferença entre origem e começo que Edward A. Said distingue. Para este, origem é da ordem do divino, enquanto começo está ligado ao retroceder para começar de novo, é conexão entre o familiar e algo novo. Justamente aí está o ponto, o familiar que está no poder não aponta para um recomeço? Não vejo o poder público olhar para o que foi feito até aqui, o que nos é familiar, para recomeçar e corrigir para um novo futuro. A situação que continuamos a viver em nossa cidade e no Estado é termos certas zonas, como sempre as mais desfavorecidas, ainda sem seus problemas sequer terem sido encaminhados. Desabrigados são expulsos de ocupações. Para dar o salto para o novo precisa retroceder, como diz Said, e é justamente isso que muitos denunciam não acontecer por parte de quem nos governa. O familiar para esses, não são as causas apontadas pela ciência e pelos ambientalistas, mas seus interesses, o que impede de criar um novo caminho, um recomeço. Os orçamentos continuam os mesmos, as leis contra a preservação da natureza permanecem, as propostas que contemplam mudanças de rumos são recusadas. Oferecem paliativos, remendos.

Ao olhar o que está acontecendo em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, não consigo escrever sobre algo novo, sobre um recomeço, só posso desejar e apostar na força de quem batalha nos legislativos – embora minorias – e na sociedade civil, de quem denuncia e não se rende. Ali podem estar as sementes de algo que ainda não se vislumbra. Por isso, é urgente que as próximas eleições sejam levados nos representar os que defendem uma agenda de novos rumos de governança.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Águas de maio


Na noite que passou coletei uma bacia de água da chuva no terraço do edifício. Não queria que minhas plantas secassem, mas usar a água da torneira não era uma opção. De jeito nenhum. Enquanto despejo água nos vasos, ouço a chuva que não para, o gotejar é intenso, sei que novas ruas estão sendo invadidas pelas águas. A estação de tratamento de água à qual pertence meu bairro foi também tomada pela enchente, temos que racionar a que está na caixa do condomínio, não se sabe quando voltaremos a ser reabastecidos. Isto eu escrevi há cerca de um mês atrás.

As águas foram enchendo os rios, ultrapassaram as margens, encheram as ruas, inundaram as casas, grande parte do Estado ficou submerso. A enchente superou todas as já ocorridas, inclusive a de 1941 na capital. Centenas de milhares de pessoas foram desalojadas, muitas sem saber para onde ir.   

Ouvir a chuva sempre me deu prazer. Este prazer foi sumindo pelos estragos que ela está causando, o medo foi ocupando seu lugar. O som da chuva nas janelas era música, agora é anúncio de dor, e passo a desejar que se acalme e se vá logo.

Quando eu era jovem, os temporais eram esporádicos, um descontrole eventual da natureza. Mais tarde, como professora de geografia, eu explicava que temporal e granizo na primavera no nosso Estado tinham repercussão na colheita da uva no verão, porque era época de  surgimento e de crescimento dos seus cachos. O grau de açúcar da uva, dependia da insolação e da quantidade de chuva, quando os cachos estavam amadurecendo. O que eu falaria hoje? Como enfrentam tudo isso os agricultores? Há muito tempo somos avisados de que chegaríamos a isso, a essa normalidade de excessos de chuva. Eu explicava como se originavam os ventos alísio e contra-alísios, o mecanismo de seus movimentos. Um mecanismo que funcionava regularmente nas zonas tropicais e subtropicais, o avanço ou estacionamento de massas de ar de alta ou baixa pressão poderiam alterar o funcionamento do sistema com diferenças bruscas de temperatura, ocorrência de vendavais, de temporais, de granizo. Eram ocasionais em determinadas épocas. Agora os desajustes tornaram-se a normalidade.

Quantas vezes tomamos banho de chuva em brincadeiras gostosas. E a cena em Cantando na Chuva? E a delícia de Chuvas de Março na voz de Tom e Elis?  E em Rain da Madonna? Em quantas outras letras de músicas e poemas a chuva nos remete a caminhos criativos e a sensações. Quantas narrativas existem sendo a chuva moldura de sentimentos.

No festival de Sanremo em 2023, Mr. Rain chega a finalista com sua música Super-herói, que não fala de chuva, mas o cantor declara só conseguir escrever quando chove. Imagino o clima pródigo de criações que envolve o cantor tendo a chuva como estúdio.

Há muito tempo nos chegaram os avisos da natureza, agora ela cansou de avisar e, a cada previsão de chuva, os perigos se concretizam. Infelizmente, prevalecerão os sobressaltos para alguns e os sofrimentos para outros as fontes de criação, enquanto não produzirmos formas de consertar o que estragamos. Outra moldura para nossos escritos.

Maio é um mês de outono, ficará na história de Porto Alegre e da maior parte do nosso Estado como mês trágico. Já não há estações, nem épocas de chuva e de estiagem, mas períodos de enchentes e de secas. Até agora o negacionismo prevaleceu, tomara que ele seja enfrentado sem mais protelações, e que ouçamos as vozes mais sofridas com o último colapso para começarmos um novo modo de viver, não apenas mudarmos algo aqui e ali para ficar tudo como está.

Enquanto isso nos embalamos e nos inspiramos nos versos: É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma / É um belo horizonte, é uma febre terçã / São as águas de março fechando o verão / É a promessa de vida no teu coração.

 

terça-feira, 14 de maio de 2024

A medida da água


A palavra se escondeu de mim nestes últimos longos dias. Ela voltou há pouco e está me ajudando a elaborar o que está acontecendo e a dor imensa que causa.

Há quem se cerque de um ou mais animais de estimação dentro do apartamento. Há quem prefira se cercar de plantas. Estou no segundo caso.

Gosto de olhá-las todo o dia, tirar as folhas secas, ver quando aparece alguma flor, no caso das violetas e orquídeas, ou quando aparecem as folhas novas e o verde muda de tonalidade à medida que cresce. E vejo elas se virarem para a luz da janela. Nem todas eu sei o nome, nem todas querem a mesma quantidade de água, o que fiz antigamente e perdi algumas delas. As violetas precisam de umidade, mas menos que outra planta parecida com elas, com ramos que se esparramam e descem do vaso. Tenho uma folhagem com desenhos lindos que parecem feitos por um artista, disseram-me que é planta do mato, quer a terra sempre úmida, suas folhas se juntam num feixe vertical à noite e se abrem com a luz do dia. Lindo de ver o movimento das plantas. E as espadas de são Jorge (tenho outras parecidas, com outro nome), também precisam de bastante água, elas seguem sempre na vertical independente do lugar onde estejam. Precisa dar bem menos água para as orquídeas. E para os cactos nem se fala (ainda não consegui acertar, já afoguei alguns deles). Depois de ter dado água demais para minha zamioculca, e depois de ver mais de um broto definhar, aprendi que ela precisa de pouca água, até menos que as orquídeas. Custei a dosar a água necessária para cada espécie.

Nos dias que estamos vivendo, a água está presente em cada momento, diante dos olhos, nas preocupações, na falta, nos pesadelos. Ela nos faz repensar o passado e nos empurra a planejar o futuro. Vivemos um presente que joga a conta dos nossos erros. Quando muitos de nós ficaram sem água potável e, alguns como nós, só precisaram racionar, recolhi água da chuva para as minhas plantas. A ironia de termos água por todo o lado, chuva forte e incessante, rios transbordando e sem ou pouca água na torneira.

Aprendi no ensaio e erro. Deveria ter buscado informações para aguar corretamente minhas plantas. Por descuido, por achar que sabia, por ignorar informações (algumas não lhes dei importância), enfim, negligência com algo que sempre afirmei gostar muito. Depois de bastante tempo, talvez meses, vejo dois brotos no vaso da zamioculca. Um deles no mesmo lugar do outro que não deixei crescer. Fui acariciá-los de leve, com cuidado, senti sua superfície lisa e fria de folha. Agradeci sua vinda. Lembrei os que foram atingidos e lhes desejei também renascer mais fortes.

Estes instantes em que escrevo, os primeiros durante os quais consigo chegar ao teclado, são um bálsamo à dor pelos amigos atingidos e à de todos os que tiveram a perda de alguém ou de coisas materiais. Um mundo de horror diante de olhos impotentes que sequer podiam transformá-lo em palavras.

Estou na torcida para que os que estão no poder tratem do sofrimento de todos com o cuidado de seres delicados e frágeis que precisam de alguma forma renascer como brotos no terreno social. Ressalto “no poder”, porque há milhares de voluntários que fazem o que podem, desde os primeiros momentos, para ajudar os que precisam independente de erros dos outros. Trabalham movidos pela sensibilidade diante da dor do outro.

Há uma chuva de narrativas, não só de gotas de água, sobre a ação humana desastrosa com nossas matas e rios. E não é de agora. Não foi por falta de aviso de cientistas e estudiosos da natureza próxima e distante. A palavra foi teimosa e  circulou por inúmeros espaços e ao longo do tempo e não lhe deram ouvidos.

Por tudo isso, agora o perigo está na falta de seriedade e transparência de quem foi surdo aos apelos da ciência. Como farão a aplicação dos recursos que estão chegando de todos os lados? Não há mais lugar para a surdez e cegueira diante da realidade, nem para ensaio e erro, nem para maracutaias.

 

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Os números falam

 

Há alguns dias fui fazer exames de sangue na primeira hora da manhã. No retorno, após tomar café, liguei o computador como faço pela manhã quase diariamente.

Desejei escrever sobre minha dificuldade de colocar fora papéis. Foi a pequena tira que me lembrou disso. Nela foi escrito o número fornecido pela farmácia da qual sou cliente e me oferece desconto no exame de vitamina D. O meu plano de saúde não dá direito, e é um exame caro. Todo o ano, saio do laboratório e entro na farmácia ao lado, peço o número que comprova ser cliente, enquanto a atendente do laboratório me aguarda. No ano passado resolvi poupar a anotação e guardei o pequeno papel numa das repartições da carteira onde normalmente coloco cartão de crédito, identidade, algumas notas e moedas.

Desta vez, ao me apresentar ao balcão para o trâmite necessário aos exames, tirei também o papelzinho já amarelado pelo tempo. Fiquei surpresa, porque a atendente me disse que já não precisava dele, agora ela o acessaria através do cpf. Ao meu olhar de surpresa, ela gentilmente me disse que o usaria já que eu o tinha comigo. Feito isso eu voltei a dobrá-lo e recolocá-lo no seu antigo lugar. Em casa, pensei em jogar no lixo seco o papelzinho amarelado, não serve mais, mas acabei por colocá-lo aberto na frente do monitor. Fiquei olhando para ele, os números serviriam para algo mais que o desconto do laboratório? Poderia eu identificar um significado útil para a minha vida? Seria um indicador da numerologia para o meu futuro (já bem mais encurtado)? É um número grande, conto 16 algarismos, tem o número 7 com o qual simpatizo; o número 21 dia do meu nascimento; o número 3 o símbolo cristão da Trindade; o 14 ano do início da primeira guerra mundial no século XX (hoje seriam várias datas para essa guerra mundial em pedaços do séc. XXI); o 60 que marca o início de ser idoso (li que querem alterar para 65 diante da expectativa de vida atual,); imagino que a lei vai passar, o número 65 também está contemplado aqui; 23 é a idade com a qual casei; com 36 anos tive meu último filho.

Poderia eu fazer uma leitura da realidade atual, ou mesmo do futuro, através da leitura das inúmeras composições que podem emergir deste enorme número à minha frente? A fixação nele lembrou-me a resistência em jogá-lo fora, tipo um bilhete de loteria que compramos num momento qualquer, mas não acreditamos na própria sorte, mas o guardamos mesmo assim. O bilhete terá sua confirmação ou não. Este extenso número está sendo um convite à reflexão, à fuga do terremoto de notícias que já me fez adoecer. Este papel está me oferecendo algo sem precisar de sorteio.

A fileira de números no papelzinho marcado pelas dobras continua a me chamar, e composições se alternam numa coreografia ditada pelo meu olhar. Agora são pares que se sobressaem, mas eles se escolhem aleatoriamente – não só pela proximidade na fileira que uma caneta registrou –, e a variação cresce. O número 6 junta-se ao 4 e me lança o ano da ditadura; mas o quatro é instável e se aproxima do 5 para que eu lembre a morte de Getúlio em 54. Neste ponto, desisto. Não quero continuar neste caminho que está se tornando obsessivo em lembranças dolorosas. Esta recusa me fez parar e alisar o papelzinho. Dali, sobressaiu-se o 8, justo ele, escondido numa das dobras. O símbolo da vitória e da prosperidade, perdido no meio de tantos outros.  Sei também que significa a energia que une Terra e Universo, energia que não se esgota e leva ao infinito.

Precisou uma dobra num pequeno pedaço de papel para voltar a me lembrar da infinitesimal partícula que o ser humano ocupa na vastidão das incontáveis galáxias. Mesmo que eu guarde todos os papéis que passam por minhas mãos, nada vai ter importância. O que vale é lembrar o que somos no cosmos que habitamos por ínfimas frações de tempo. E todas as guerras poderiam desaparecer se evitássemos as guerras individuais que as geram. Ou seja, voltar às origens, ao número 8. Pelas previsões dos cientistas não nos sobra muito tempo.

 

 

 

Então, penso que este pequeno papel com este enorme número cumpriu sua função de lembrar o passado, mas também o lugar que ocupamos. É ali que estarão as energias para enfrentar os acontecimentos que nos jogam no desânimo e na impotência. É preciso se concentrar no número 8 e procurá-lo, quando escondido, é ali que poderão ser encontradas alternativas.

 

 

 

 

 

Paro uns instantes e detenho-me a olhar o pequeno desenho que me transporta para outros momentos e lugares, para outras dobras da minha vida. Vejo a necessidade de olhar para o que usualmente não faço. Talvez por isso eu tenha dificuldade de colocar papeis fora. Talvez eles estejam a me dizer para olhar o que tenho resistência em ver e em fazer. Uma resistência a me segurar entranhada na Terra e me impeça de olhar o Universo

 

 

 

quarta-feira, 27 de março de 2024

A tortura tem cor

 

Dia 14 de março de 2018, foram assassinados a vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, quando retornavam para casa. 2202 dias foram necessários para que os mandantes fossem denunciados. É impactante a entrevista com a assessora de Mariellle, Fernanda Chaves, sobrevivente ao assassinato deles. Foi preciso ter o governo atual para que isso acontecesse, declarou ela, ao relembrar os comportamentos estranhos da polícia civil e da polícia militar do Rio de Janeiro já no atendimento ao caso.

            Como cidadã comum, acompanhei o caso de longe e, muitas vezes, repostei a pergunta que a jornalista Eliane Brum fez diariamente  durante estes anos nas redes sociais: Quem mandou matar Marielle?

O jornalismo foi fundamental, ao menos o jornalismo investigativo comprometido com a verdade dos fatos. Sabe-se que a os principais meios de comunicação do país desde sempre estão ao lado do poder e, se não sonegam a verdade, muitas vezes a deturpam. Quem faz a diferença é a imprensa alternativa, graças a ela chegamos aos mandantes, os quais serão julgados de acordo com as leis do país.

No entanto, outro ponto foi destacado ao longo das análises sobre o caso Marielle. É o fato de que o seu assassinato está enraizado na história do país e, especificamente, do Rio de Janeiro e na formação das milícias que estão promiscuamente conectadas nas instituições públicas, polícia, Câmara de Vereadores, Assembleia Legislativa, ou seja, no próprio Estado. Por sua vez, a história local tem os seus antecedentes num terreno fértil adubado no período da ditadura, de onde emergem sujeitos implicados no assassinato de Marielle.

Por isso a memória é fundamental e, se muitos desmandos e muitos crimes estão acontecendo hoje, é justamente por ignorar esta memória. Na medida que nossa história não foi passada a limpo, na medida em que criminosos ainda não foram punidos, não podemos ultrapassar o círculo viciosos de crime/impunidade. A história se repetirá.

O caso Marielle, tal como está sendo encaminhado agora, é um alento para que a história não se repita, para que a memória seja preservada, protegida e acessada pelas gerações que se sucedem. O perigo está justamente em não preservá-la. Se o Governo Federal optou por não dar maior visibilidade à data dos 60 anos do Golpe de 1964 – imaginamos possíveis motivos – a sociedade civil e, principalmente o jornalismo comprometido com a democracia não está se calando. Felizmente.

Destaco o documentário “1964: Uma Ferida Aberta na Democracia” do excelente trabalho investigativo e educativo do ICL – Instituto Conhecimento Liberta. Ali é lembrado um período tenebroso que precisa ser exorcizado, porque bate nos nossos calcanhares periodicamente e, sobretudo, nos cutuca com a dor de quem sofreu a tortura no próprio corpo e continua viva ainda hoje, sentindo os perigos do retorno daquele período. O horror que pode ser dito em algumas de suas palavras, o corpo torturado pode ficar verde ou azul.

Tortura nunca mais. Sem anistia.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Ecos às palavras

 

Acabo vendo alguma notícia na primeira hora da manhã e minha indignação desperta. Mas não consigo traduzir este sentimento, que me faz muito mal, numa reação prática aos horrores que estão acontecendo no mundo. A última notícia “o Ocidente joga sujo com a Palestina”. Joga sujo quer dizer que não faz o que deveria para acabar com o genocídio que está acontecendo lá. Vemos em tempo real matarem, matarem, matarem. E continuamos a viver nosso cotidiano, comemos, dormimos, damos risadas. É preciso fazer isso, não temos poder de interferir, nós, simples cidadãs e cidadãos de qualquer parte do mundo. Isto é terrível. Alguns dizem que isto sempre aconteceu, muitas vezes sem que soubéssemos. E não é a única guerra em curso. E que outros genocídios já aconteceram. E que temos nossas próprias guerras nas periferias de nossas cidades. E a nossa vida não se alterou, ou é de alguma forma alterada apenas eventualmente. Certo, mas saber e ver em tempo real é bem outra coisa.

Pergunto-me de que adianta ler uma considerável quantidade de análises, entender porque chegamos a isso, de poder me posicionar conscientemente e ter empatia pelo sofrimento alheio. O sentimento mais poderoso que emerge é o da impotência diante da barbárie a que chegou a humanidade. É terrível ser testemunha do horror de que são capazes nossos semelhantes, lá ou aqui, à revelia das conquistas das ciências e da capacidade de entendimento do que nos cerca no planeta e no universo.

Somos testemunha da ínfima presença do ser humano, num minúsculo planeta girando num canto de uma das bilhões de galáxias, e de sua tremenda capacidade letal, com a qual poderá nos levar à autodestruição. Tudo isso mostra já estarmos vivendo a distopia anunciada pela literatura nas últimas décadas. Ela vem sendo alimentada aos poucos, por isso mesmo não percebida por muitos, para desespero de quem tem acompanhado o crescimento dos seus tentáculos.

Então, para não sucumbir ao desamparo, procuro avidamente me conectar aos gritos de milhares de pessoas pelas ruas de incontáveis cidades, às vozes que não se cansam de exigir justiça seja onde for e um cessar das hostilidades nos lugares mais esquecidos. Procuro ouvir as canções, os poemas, os discursos, as histórias, e lembrar os pequenos gestos cotidianos de solidariedade, e os milhões de palavras lançadas nas redes de comunicação, criando narrativas que se contrapõem a quem está cego de ódio e de poder.

Há poucas horas encerrou-se o 74º Festival de Sanremo, seis noites de entretenimento com audiência recorde na Itália e no mundo. Um festival enraizado na cultura do país, jovens cantores ao lado de ícones da música italiana. Letras que expressam as relações afetivas com suas dores, contradições e os anseios individuais, outras com reflexões de cunho social. No conjunto, um espetáculo para reverenciar a música italiana na capacidade de se recriar através das novas gerações. Ao final de sua apresentação, o jovem Ghali, cuja letra tem implícita uma crítica social, reafirmou o que havia dito na noite anterior: Stop ao genocídio, sendo fortemente aplaudido e desaprovado por alguns no dia posterior.  Pode ser pouco, prefiro acreditar que a semente do inconformismo está germinando na geração que nos substitui. Vi naquela manifestação um sinal de esperança, um ar fresco e perfumado a nos convidar para ocupar espaços e fazer o que for possível do jeito de cada um. Em qualquer lugar, em qualquer tempo.

O meu gesto é somar-me a Ghali e fazer eco às suas palavras. E às de tantos outros que as disseram antes dele e continuarão a fazê-lo.