terça-feira, 31 de outubro de 2023

Banir a indiferença

 

Assisti à entrevista on-line de diversos jornalistas sobre o atual conflito entre Israel e a Faixa de Gaza no programa Casa Italia da RAI. Todos representantes de alguns dos maiores jornais italianos. Todos falaram sobre a situação de Israel. Dois ou três dias haviam se passado desde o ataque do Hamas. Não se pode dizer que suas análises não fossem verdadeiras. A chacina do grupo terrorista Hamas, o sofrimento da população israelense, as consequências sobre o modo de viver em Tel-Aviv e nas colônias espalhadas pelo território de Israel, a angústia sobre a situação as pessoas reféns do Hamas, o direito de o Estado de Israel se defender atacando a Faixa de Gaza.

Eu fui ouvindo as manifestações de pesar, embora mantivessem uma expressão facial próxima da neutralidade. Fui ouvindo e esperando que completassem suas palavras com algo referente à população palestina. Fui ouvindo aquelas vozes até o fim. A entrevista terminou, o programa passou para novo quadro e as pessoas que vivem na Faixa de Gaza sequer foram citadas. O povo palestino não foi citado sequer uma vez. O assunto só transcorreu sobre a ação terrível do Hamas, sobre o Estado de Israel e o sofrimento do povo israelense. Senti uma tristeza infinita por todos os seres humanos que estão sofrendo com a explosão do conflito, desliguei o televisor.

Nos noticiários do mundo todo, a voz de Israel predominava. Hamas era sinônimo de Palestina, a palavra povo era uma abstração. Quando invocadas, Hamas e Palestina, era para dizer que ninguém era inocente por lá. Uma forma de justificar os ataques indiscriminados de Israel em resposta ao ataque do Hamas.

É preciso lembrar que daquela faixa de terra, nenhum civil pode sair de lá há décadas, Israel não permite. Segundo palavras do governo, é uma questão de defesa.

Numa das notícias, ouvi o relato de um jornalista que esteve em Gaza. Ele perguntava a algumas pessoas sobre os muros construídos para separar os dois povos. Ninguém queria responder, então um senhor lhe disse que muitos jovens se envergonhavam, porque haviam ajudado a construí-los por falta de outro trabalho. Isto me fez pensar que muitos jovens poderiam ter sido atraídos para as fileiras do Hamas por falta de perspectiva. Quem nasce ali, não sai, fica ali até morrer. E a população é predominantemente jovem. Pensei também nos jovens de nossas periferias que são atraídos pelo tráfico por não terem outra alternativa no lugar onde nasceram e do qual não conseguem sair. Os muros daqui são de outra natureza, mas tão danosos quanto os de lá.

Passados alguns dias mais, e com a morte de milhares de civis palestinos, dentre os quais a maioria mulheres e crianças, vozes pelo mundo todo têm se manifestado contra as ações do exército israelense sobre uma população que não tem para onde fugir.

Não me cabe uma análise sobre a atual situação e a história daquela região com a instalação do Estado de Israel. Há inúmeras narrativas que buscam se ater aos fatos e à maior fidelidade e honestidade para com a verdade.

Como mulher que tem filhos e netos, fico imaginando a dor que grita por lá, ou silencia por falta de força para se expressar. É a mesma dor de todas as mulheres do mundo, sobretudo israelense e palestinas neste momento, sem esquecer todas as outras guerras que acontecem ao mesmo tempo. Como ser humano, assisto impotente à morte da humanidade que poderia estar vivendo e criando vida.

A indignação cresce a cada momento que esta matança continua. Além dos civis, sabemos quantas vidas de jovens combatentes (não importa qualquer lado) também estão sendo sacrificadas. E os que voltarão à vida cotidiana depois desta guerra terminar (de um jeito ou de outro ela vai terminar), haverá de ter seu preço no coração e mente de cada um, nenhum deles sairá impune. Como viverão junto a suas famílias depois do que tiveram que fazer e do que viram e foram cúmplices? A história é plena de relatos e de silêncios (por incapacidade de falar) dos que sobreviveram e voltaram. E este preço não será pago com o dinheiro ganho pelos donos das fábricas de armas (há cálculos obscenos neste sentido. Sempre há.). E os que os mandaram para matar estão no centro do poder, a reparo do conflito. Estes é que deveriam ser punidos. Rima com banidos. Infelizmente não acontece.

Por isso, evitar conflitos inúteis onde estivermos poderia ser uma colaboração para apaziguar nossos microcosmos. E, nos momentos de impotência, ao menos gritar nossa indignação contra qualquer guerra. Acredito que a indiferença deve ser banida, ela é uma ferramenta que acaba ferindo a nós mesmos de uma forma ou de outra, quer aceitemos ou não, porque somos capilares desde mesmo organismo vivo que é a Terra. Nenhum ser humano é uma ilha, só não vê quem não quer.

 

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

O Caetano chegou

 

            O Caetano chegou.

As notícias da cidade, do país e do mundo me angustiam e tomam conta de mim e impedem a reflexão necessária para sentar e escrever. É como se os horrores que ocorrem me sugassem e me mantivessem ligada a eles por tentáculos. Um vício do qual não se consegue livrar-se.

Quem me ajudou na disciplina para usar o teclado foi a lembrança do Caetano. O último dos cinco netos. Ele chegou há poucos dias com a promessa de novos laços de afeto, aliás, já criados desde o primeiro colo com o temor que sua fragilidade de recém-nascido inspirou. Ou melhor, desde ter ouvido as batidas de seu coração, quando ainda uma pequena semente no útero de sua mãe. Gravação compartilhada na tela do computador dada a distância entre os pais (João Pessoa) e onde me encontro (Porto Alegre). Meu coração respondeu acelerando e meus olhos úmidos brilharam. O mundo inteiro brilhou naquele momento. E brilhou com mais intensidade no quarto do hospital onde fui vê-lo nas suas primeiras horas de vida. E continuou brilhando em todos os subsequentes dias em que pude estar com ele. Foram horas de ternura e encantamento, segurando-o no colo ou vendo os cuidados que os pais tiveram desde o início, num aprendizado que lhes exigiu muita paciência e dedicação. Assisti a cenas amorosas que nenhuma palavra me seria suficiente para descrever. Hoje, já de volta à minha casa, a figura do Caetano, Caê é seu apelido, me aparece a cada vez que paro o que estou fazendo. Muitas vezes ele se intromete entre meus pensamentos. Vejo os olhos quase sempre fechados, ainda dorme muito, quando os abre parecem perscrutar o entorno, boca bem desenhada, bochechas rosadas, pele lisa (aveludada dizia minha mãe), nariz bem delineado, uma fina camada de cabelos castanhos cobre sua cabeça, mãos que se abrem e fecham conforme os espasmos que fazem também as pernas se alongarem e se encolherem em sincronia. O pequeno corpo está reconhecendo outro espaço e se adaptando a ele. A respiração ritmada ergue e recolhe a barriga, os braços para cima ao lado da cabeça e as mãos abertas mostram que ele está bem, um “sorriso” aparece naquele rosto, visto sério na primeira foto ainda protegido no ventre materno. Quando nasceu já o conhecíamos. A amorosidade dos pais transmutou-se das palavras com as quais falavam sobre ele e para ele durante a gestação aos gestos de acolhimento e cuidados com que foi recebido. Cenas belíssimas que mereciam ser eternizadas em pinturas. E repetidas no decorrer dos dias. E quando estas imagens não surgem, eu vou procurá-las no celular.

Estes quadros despertam sentimentos conhecidos e guardados desde o primeiro nascimento, mas só possíveis diante de um novo. É a vida a me presentear mais uma vez com o que há de mais precioso. Eu senti novamente que tinha tudo, nada me faltava, e estava no lugar que queria estar. Uma plenitude só possível diante da renovação com a vinda de mais um neto. Desta vez o Caetano. É uma bênção poder viver esta experiência pela quinta vez.

Já vivi a maior parte de minha existência, não sei quanto vou poder acompanhar a caminhada dos netos neste mundo com tantos temores e desafios. Especialmente do Caetano que mora longe e é o recém chegado.

Meu coração se apazigua pelo fato de meus netos terem pais que os protegem e os encaminham no sentido de crescerem fortes e íntegros, para que possam ver o outro com empatia e para estar ao lado de quem trabalha para um mundo melhor do que é hoje. Por isso, sou imensamente grata à vida através de meus filhos, minha filha, minhas noras e meu genro por toda esta ampliação da família.

No plano da humanidade, só posso invocar que as forças do bem e da paz possam se fortalecer e se espraiar por todos os continentes. Então, minha felicidade teria outra dimensão.