Há uma imagem que não me sai da cabeça. Um policial dá um tabefe na cara
de um morador de rua, e a colega mulher observa e ri. O homem mal conseguia se
manter de pé, possivelmente alcoolizado, e não ofereceu qualquer resistência à
ação de retirada dos policiais, mesmo assim foi agredido. A policial olha para
ele no chão, sendo arrastado pelos braços como um saco qualquer, e ri.
Ficaria chocada se esse riso estivesse na cara de um colega dela, um
policial homem, mas me agrediu muito mais por ser uma policial mulher. Cena
repugnante. Face do poder sádico. Relembro os movimentos em defesa da igualdade
de gênero. Será isso a igualdade que se quer? Igualdade exercer poder sobre o
outro de forma cruel? Igualdade para mim é de direitos, de possibilidades de
criação, de trabalho, de estabelecer relações de afetos.
Valho-me da sabedoria oriental para
refletir sobre os sentimentos e os pensamentos que constituem nossa humanidade.
Em cada ser humano temos energias que não dizem respeito a sexo, mas ao modo de
se comportar. Nosso “yin” – mais emocional, criativo, calmo e reflexivo – diz
respeito ao feminino, e “yang” – robusto, forte, expansivo e executivo – diz
respeito ao masculino. O desequilíbrio de nosso “yin” e “yang” nos faz perder a
noção de viver em harmonia e respeito e nos torna seres com os mais diversos
desvios de conduta, agressões e mal feitos.
O comportamento dos policiais mostra
um total desequilíbrio de energias. A energia proveniente da força é absoluta,
ignorando qualquer resquício de reflexão. Poderia ser diferente numa sociedade que trata predominantemente das consequências da
violência que existe? Onde as causas são desprezadas e, portanto, põe-se em
movimento uma ininterrupta geração de mais violência?
É nesta engrenagem que a mulher busca igualdade de gênero? Ao invés de
por em movimento suas energias de reflexão, criatividade e emoção, rende-se às
energias de força e execução. Ao tentar igualar-se ao homem, ela acaba
perdendo-se como ele, num redemoinho de desequilíbrio destruidor.
A igualdade de gênero está longe de ser alcançada. O número de feminicídios
é permanente no país e no mundo. Há apenas
formas diferentes do que foi ao longo de séculos. É certo que tivemos avanços,
a sociedade já não queima mulheres em praça pública (embora a lapidação ainda
exista e explicada em numa mesquita em Londres há poucos dias), mas são
agredidas, subjugadas, mortas dentro de casa por companheiros violentos. Como
alguém disse, não é questão de existirem alguns homens doentes, é a
continuidade da ideia de que o homem tem a posse da mulher e, portanto, pode
matá-la. É a prevalência da força que está nas diferentes narrativas aceitas
como “naturais” e defendidas como inócuas. Brincadeiras, anedotas,
mercantilização do corpo feminino, ditos populares que acabam construindo o
senso comum de que a mulher é culpada pelos ataques sofridos.
Volto ao olhar da policial militar. É o olhar do escárnio sobre o outro.
Desta vez no olhar de uma mulher. Recupero a afirmação de Silvia Federici em
Calibã e a Bruxa “...a guerra e o saque em escala global e a degradação das
mulheres são condições necessárias para a existência do capitalismo em qualquer
época.” Já não basta a degradação pelo
consumismo sem limites, disseminado em todas as camadas sociais, é preciso
degradar seu pensamento.
No olhar da policial está uma variante de dominação, a da degradação das
mulheres através da cooptação de seu coração e mente. A energia emocional,
reflexiva e criativa sendo preterida para dar lugar à força que aparentemente
oferece uma imagem de igualdade. Mas é preciso mascarar o real interesse do
sistema capitalista. Ele o faz com sua capacidade de sempre se reinventar,
oferecendo uma pseudo igualdade de gênero.