Há algum tempo, como seguidamente costuma me acontecer,
acordei com uma necessidade de enxergar o mundo como deveria ser. Esquecer como
ele é, uma trégua para acumular energias. Um mundo em que todas as pessoas
pudessem viver dignamente com o fruto de seu trabalho, e em que a empatia
predominasse. Cansada de saber que o modo de viver atual, nas diversas formas e
no mundo todo, favorece a produção de subjetividades individualistas, egoístas,
alienadas e, muitas vezes, perversas. Uma máquina produtiva e incansável que se
auto-alimenta.
Era mais um dia quente além do
suportável, precisei voltar à farmácia, porque me venderam o remédio errado no
dia anterior. Fui na primeira parte da manhã, perto de casa, mas mesmo assim,
voltei tão suada que precisei trocar toda a roupa. Banho tomado, vestido limpo
e leve, tomo uma água gelada, ligo o ventilador – ainda não precisa ligar o ar
condicionado – e vou descansar numa poltrona com o livro que ainda não
terminei. Agradeço por essas comodidades.
Livro aberto, não leio. Sinto
conforto e gratidão, como constantemente faço, quando paro e penso em meu lugar
no mundo. Meus filhos e suas famílias estão bem, enfrentando seus desafios e seguindo
a vida. Eu estou saudável. Vacinada com a quarta dose contra a covid e também
contra a gripe. Tenho acesso a médicos e exames, sou bem atendida. Vivo num
apartamento confortável. Posso tomar um banho quando quiser, a água não falta.
Posso escapar do calor ligando aparelhos. Posso alimentar-me com produtos
orgânicos. Tenho amigos que os produzem e uma feirinha próxima. Tenho amigas e
amigos queridos. Adoro ler e o faço como quero, recuperando o tempo em que não
o podia fazer, por excesso de trabalho durante grande parte de minha vida.
Perco-me nas ideias que antecipam os acontecimentos,
as invenções, as transformações. Então, volto a pensar no que eu gostaria de
ver, o mundo ser tocado por pincéis mágicos surgidos do desejo de todos aqueles
que compartilham a mesma visão de mundo. A ideia dos pinceis surge da caixa de minha neta que ela guarda na prateleira da sala.
Os pincéis começam seu trabalho pela recuperação das
florestas, despoluição dos rios, dos lagos e dos mares, e todos estarão a
postos para mantê-los protegidos. Assim, a temperatura para de aumentar, e as
geleiras retornam à sua magnitude, e os extremos climáticos deixam de ser
usuais. E a Terra é, enfim, tutelada como merece.
Depois, os pincéis seguirão produzindo casas coloridas
e ajardinadas para todos numa harmoniosa configuração de verde e de
construções; escola e praças para esportes; nunca mais vai faltar água, nem
luz; as cidades terão ônibus confortáveis, e reduzido fluxo de carros
particulares; os moradores de rua não existirão; todas as crianças estarão na
escola e os pais trabalharão tranquilos; as poucas cadeias terão uma estrutura nas
quais os detentos podem recuperar-se; os policiais terão formação para atuar
com justiça; os hospitais atenderão a todos igualmente; estarão disseminadas
escolas de artes com vagas para quantos queiram desenvolver sua capacidade de
criação; casas de espetáculos e cinemas estarão à mão de todos; as fábricas de
armas serão desmontadas e substituídas por outras onde será produzido tudo o que
pode dar conforto à população; as universidades estarão a serviço das ciências
para que a sociedade viva cada vez melhor e em paz.
Alguém pode dizer que minha fantasia é ingênua, que
isto é bobagem, que os homens sempre foram diferentes e problemáticos, e nunca
vai mudar.
Realmente a história da humanidade é uma história de
guerras.
No entanto, se olharmos núcleos esquecidos ou
ocultados, encontraremos experiências de vida solidária em todos os cantos de
nosso planeta e em todos os tempos. Se nos determos apenas em um dos exemplos da
história do nosso país, ainda temos os indígenas nas nossas matas que vivem da
terra e se curam através dela sem a agredir. Sobreviventes de uma ferocidade
contra eles que não terminou, mas está sendo enfrentada graças ao novo governo.
Eles são um exemplo de vida em harmonia com a natureza. Tratar da questão
indígena é tratar da questão fundamental de sobrevivência da humanidade. Não se
trata de voltar para trás, trata-se de não nos autodestruirmos em nome do
progresso. O progresso deveria servir a humanidade, não devorá-la. O progresso
deveria estar a serviço de pincéis mágicos.
Voltando aos pincéis, penso que eles terão que
carregar nas cores e, ainda, solicitar ajuda extra ao pintar os centros de poder
para que eles se esvaziem da força de controle e exploração, para que eles
acreditem em outros caminhos possíveis. Serão necessários pontos vibrantes de
energia luminosa para lhe absorver a negatividade e transmutar o
individualismo. E uma vigilância permanente por todas as cores existentes.
Então a viagem mágica de minha imaginação terá
oferecido as condições para que todos possam ser gratos à vida na sua própria
maneira, porque a realidade não será madrasta, mas mãe generosa. Os pincéis,
então poderão descansar, porque o colorido virá de dentro de cada ser humano.