Ela agita um véu
incendiado, os braços erguidos ao céu dançam no ar como convite à rebeldia. É a
imagem congelada de uma jovem de cerca vinte anos apenas, morta pela política
moral de seu país pouco tempo depois.
Uma mulher negra
empurra um carrinho no supermercado, apenas de calcinha e sutiã. Ela
resolveu tirar a roupa em ato de repúdio e protesto por ser seguida e observada
por um segurança durante todo o tempo de suas compras.
Entre estas duas
pontas, a primeira no Irã (jovens que exigem liberdade continuam a ser mortas
ou encarceradas e torturadas) e a segunda no Brasil (uma mulher é morta a cada
seis horas – mulheres negras são mais agredidas) são denunciados diferentes graus de
violência contra a mulher. Atrás de incontáveis e permanentes agressões, em
lugares tão distantes, há uma história com origem comum.
O desfio é desnudar o gerador de
violência invisível a olhos desatentos, e que funciona sem interrupção em todas
as sociedades do mundo globalizado, mostrando-se em gestos e comportamentos no
cotidiano das pessoas comuns, principalmente contra a mulher. Um sistema que
potencializa a morte e se alimenta do medo e da negação.
O dramático é que as raízes da
violência, em especial contra as mulheres, continuam fortes apesar do avanço na conquista
de seus direitos. Em algumas sociedades, parece que não saímos dos tempos da
caça às bruxas e da fogueira. A imposição do ocultamento do corpo da mulher e
seu banimento de qualquer direito mostra o ápice desta perseguição. Atos individuais alienados,
dissociados do conhecimento sobre a formação das diferentes sociedades, levam ao
comportamento coletivo continuamente obsessivo contra as mulheres, em diferentes graus e de diferentes
formas, atualizando-as permanentemente.
Silvia Federici, em seu livro Calibã
e a Bruxa, nos mostra que “as mulheres sempre foram tratadas como seres
socialmente inferiores, exploradas de modo similar às formas de escravidão”. Em
cada período histórico existem características próprias, mas é na transição pra
o capitalismo que devemos compreender as origens da situação atual para
ultrapassar a dicotomia gênero e classe. Através de dados históricos, a autora
comprova que a opressão da mulher não é uma questão puramente cultural, mas
está enraizada nas relações de classe.
Para Federici, pensar a violência que
ocorre hoje contra as mulheres deve ser feita sob o entendimento da exploração
dos trabalhadores (categoria à qual elas fazem parte) sob o capitalismo. Aqui
está situado o gerador comum de violência com vestimentas diversas em cada
cultura. Um sistema que se baseia no individualismo e na meritocracia, culpando
o próprio explorado por suas derrotas: todos os que ficam às margens
(descendentes de escravos africanos, imigrantes deslocados pela globalização,
sujeitos das colônias europeias e, com lugar de destaque, mulheres). Nesta
engrenagem é preciso ocultar o fundamento do sistema, a necessidade de uma
massa de trabalhadores à disposição para serem explorados – com lugar de
destaque para a mulher como reprodutora de força de trabalho e sempre à
disposição segundo as regras do mercado – hoje globalizado – estabelecidas por
ele. A história comprovou que a essência do capitalismo é oferecer ilusões de liberdade
e prosperidade para todos, mas só alcançadas por poucos. Ilusões mascaradas de
verdades para que possam ser engolidas e aceitas. Federici nos demonstra que é “impossível
associar o capitalismo com qualquer forma de libertação ou atribuir a
longevidade do sistema à sua capacidade de satisfazer necessidades humanas.” As
crises cíclicas mostram que essa satisfação nunca vai ocorrer. O capitalismo se
reinventa a cada crise, mantendo os mesmos males, dentre os quais dificultando
a participação da mulher em todas as instâncias da sociedade em igualdade de
condições com o homem.
Este cenário só pode realizar-se com a
força e a violência, porque a resistência das trabalhadoras e dos trabalhadores
sempre existiu, e a situação só não é pior por causa desta resistência. A
história das lutas das trabalhadoras e dos trabalhadores é longa. Ela sofreu
muitos apagamentos, especialmente a voz das mulheres. É preciso conhecê-la. Por
isso, recuperar esta história, compreender os tortuosos caminhos para chegar
onde chegamos na atualidade e, fundamentalmente, o lugar das mulheres neste
caminho, é primordial para avançar rumo a uma sociedade equânime em qualquer
cultura.