quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Mudam apenas os caminhantes

 

 

Terminei  a releitura de As Memórias de Adriano onde acompanhei as viagens do imperador pelo vasto território romano do final do séc. I à primeira metade do séc. II. Nestas viagens, Marguerite Yourcenar fala pela voz dele. As reflexões abrangem os acontecimentos daquele tempo, as guerras, as disputas pelo poder; os entrelaçamentos da cultura romana com a grega que a antecedeu, mas continuava viva; as formas de convivência com os povos conquistados da Europa, da Ásia e do norte da África. Foi um repassar os pensamentos daquela época, suas visões de mundo, suas glórias, suas incertezas, seus sentimentos, seus desejos, seus valores. Dois mil anos depois, as querelas particulares e públicas não diferem do que vemos hoje. Elas apenas se manifestavam com as roupagens de seu estágio histórico. Muito do que acontece hoje mostra que a humanidade se desenvolveu cientificamente, mas não colheu seus frutos para viver em paz, continua a alimentar as disputas entre povos. Grupos no poder continuam a usar os mesmos motivos para guerrear com armas cada vez mais modernas e sofisticadas. Continuam a matar. E o poder continua predominantemente com os homens.

Ontem, vi a notícia que a Primeira Ministra da Escócia renunciou ao cargo por não aguentar as pressões políticas. O mesmo motivo que pouco tempo atrás a Primeira Ministra da Nova Zelândia utilizou para também renunciar. Ambas com ampla aprovação de seu eleitorado. Será um sinal de incompatibilidade entre o feminino, com tudo o que ele representa, e a máquina de poder? Há uma vasta literatura a respeito.

Temos um mundo que pode propiciar modos de vida com confortos fantásticos, doenças podem ser prevenidas e curadas, avançamos enormemente no conhecimento de nós mesmos e do universo, conseguimos produzir alimentos em larga escala. Mas tudo isso não é para todos. E, ainda, criamos novas doenças; os abusos de uns sobre outros, especialmente sobre os mais frágeis, estão disseminados nas famílias e nos lugares mais marginalizados; ainda existe o trabalho escravo; milhões de pessoas passam fome e sede, sequer sabem ler e escrever, vivem à margem de todo progresso da humanidade. Uma equação ainda não resolvida. Sabemos disso desde sempre.

Mesmo assim, há poucos dias um líder europeu afirmou que é preciso aumentar a produção de armas para ajudar a Ucrânia. Enquanto isso o país continua a ser bombardeado em todo o seu território. E não se vê frutificar a diplomacia. A disposição de vencer essa guerra é reafirmada todo o dia por Ucrânia e Rússia. Os milhares de mortos civis e de jovens soldados, não têm rosto. E nem falamos nas outras guerras que existem pelo mundo.

Há que escolher outra equação.

No Brasil, está sendo colocando a nu o que já sabíamos que o governo anterior estava fazendo. O horror no interior da Amazônia está sendo tratado com urgência. Muitas outras frentes estão sendo abraçadas. Um trabalho que exige muitos esforços e muito tempo. E há muita gente ligada ao passado – não só do governo anterior, mas do tempo da ditadura – que age contra esses esforços. Para quem não está no governo e deseja um mundo equânime precisa encontrar a própria forma de colaborar. Há muitas maneiras, cada um precisa encontrar a sua. É urgente fazê-lo.

Há vozes corajosas e competentes espalhadas pelos país que desconstroem diuturnamente o mundo paralelo de negação da realidade. Uma forma é somar-se a elas e dizer a própria palavra para multiplicá-las. É como aplicar um antibiótico à infecção que se apoderou do país. A dose deve ser forte o necessário e por um tempo longo, porque ela se espalhou por todo o território. O tratamento será longo e ninguém está fora.

Tomara que mais e mais mentes se somem nesta caminhada. Não há fim para ela, mudam apenas os caminhantes.