Terminei a releitura de As Memórias de Adriano onde
acompanhei as viagens do imperador pelo vasto território romano do final do
séc. I à primeira metade do séc. II. Nestas viagens, Marguerite Yourcenar fala
pela voz dele. As reflexões abrangem os acontecimentos daquele tempo, as guerras,
as disputas pelo poder; os entrelaçamentos da cultura romana com a grega que a
antecedeu, mas continuava viva; as formas de convivência com os povos
conquistados da Europa, da Ásia e do norte da África. Foi um repassar os
pensamentos daquela época, suas visões de mundo, suas glórias, suas incertezas,
seus sentimentos, seus desejos, seus valores. Dois mil anos depois, as querelas
particulares e públicas não diferem do que vemos hoje. Elas apenas se manifestavam
com as roupagens de seu estágio histórico. Muito do que acontece hoje mostra
que a humanidade se desenvolveu cientificamente, mas não colheu seus frutos
para viver em paz, continua a alimentar as disputas entre povos. Grupos no
poder continuam a usar os mesmos motivos para guerrear com armas cada vez mais
modernas e sofisticadas. Continuam a matar. E o poder continua predominantemente
com os homens.
Ontem, vi a
notícia que a Primeira Ministra da Escócia renunciou ao cargo por não aguentar
as pressões políticas. O mesmo motivo que pouco tempo atrás a Primeira Ministra
da Nova Zelândia utilizou para também renunciar. Ambas com ampla aprovação de
seu eleitorado. Será um sinal de incompatibilidade entre o feminino, com tudo o
que ele representa, e a máquina de poder? Há uma vasta literatura a respeito.
Temos um mundo que
pode propiciar modos de vida com confortos fantásticos, doenças podem ser
prevenidas e curadas, avançamos enormemente no conhecimento de nós mesmos e do
universo, conseguimos produzir alimentos em larga escala. Mas tudo isso não é
para todos. E, ainda, criamos novas doenças; os abusos de uns sobre outros, especialmente
sobre os mais frágeis, estão disseminados nas famílias e nos lugares mais marginalizados;
ainda existe o trabalho escravo; milhões de pessoas passam fome e sede, sequer
sabem ler e escrever, vivem à margem de todo progresso da humanidade. Uma equação
ainda não resolvida. Sabemos disso desde sempre.
Mesmo assim, há poucos
dias um líder europeu afirmou que é preciso aumentar a produção de armas para ajudar
a Ucrânia. Enquanto isso o país continua a ser bombardeado em todo o seu
território. E não se vê frutificar a diplomacia. A disposição de vencer essa
guerra é reafirmada todo o dia por Ucrânia e Rússia. Os milhares de mortos
civis e de jovens soldados, não têm rosto. E nem falamos nas outras guerras que
existem pelo mundo.
Há que escolher
outra equação.
No Brasil, está sendo
colocando a nu o que já sabíamos que o governo anterior estava fazendo. O
horror no interior da Amazônia está sendo tratado com urgência. Muitas outras
frentes estão sendo abraçadas. Um trabalho que exige muitos esforços e muito
tempo. E há muita gente ligada ao passado – não só do governo anterior, mas do
tempo da ditadura – que age contra esses esforços. Para quem não está no governo
e deseja um mundo equânime precisa encontrar a própria forma de colaborar. Há
muitas maneiras, cada um precisa encontrar a sua. É urgente fazê-lo.
Há vozes corajosas
e competentes espalhadas pelos país que desconstroem diuturnamente o mundo
paralelo de negação da realidade. Uma forma é somar-se a elas e dizer a própria
palavra para multiplicá-las. É como aplicar um antibiótico à infecção que se
apoderou do país. A dose deve ser forte o necessário e por um tempo longo,
porque ela se espalhou por todo o território. O tratamento será longo e ninguém
está fora.
Tomara que mais e
mais mentes se somem nesta caminhada. Não há fim para ela, mudam apenas os
caminhantes.