A vitória de
Lula assemelha-se a um conto de fadas. Um final feliz. Os bruxos maus foram
expulsos.
Muitos me dirão
calma lá, o governo recém começou, o país está sem dinheiro, o patrimônio
público foi depredado, as instituições foram exauridas, há milhões que torcem
para que dê errado, o mercado espera a sua vez para dar o bote, o congresso não
é confiável, há tudo para ser reconstruído. A própria “esquerda” critica
algumas escolhas para os ministérios. Dizem que é por ser, ela mesma, muito
crítica. A lista de temores e obstáculos é muito grande. Os bruxos não
morreram, estão à solta.
Continuo a
sentir uma leveza que não sentia há anos.
Contrariamente
àquilo que suportei – eu e milhões de brasileiros – desde o golpe contra a
Dilma, o dia amanhece sem sustos. Fomos Sísifos, empurrando um saco de notícias
ruins, de maldades cometidas pelo governo que se foi, de seguidores fanáticos
replicando crueldades, de ameaças visíveis e mascaradas. Não quero falar dos
horrores já barrados. Agora não. Li várias pessoas terem o mesmo sentimento.
Continuo a me
encontrar saboreando uma paz há muito esquecida.
O ápice do
terror instalado no país quatro anos atrás deu-se no processo da eleição. Tudo
o que podiam fazer os antigos inquilinos da Alvorada colocaram em prática para
ganhar as eleições. Utilizaram a máquina do governo a pressionar, a chantagear
e a comprar votos. Tudo bem documentado pela imprensa. E perderam. Ainda assim,
alguns setores que votaram no Lula, acharam que deveríamos ter ganhado no
primeiro turno, que a diferença foi pequena, que merecíamos mais. Tudo foi
analisado. Foi comprovado que a vitória foi grandiosa, inequívoca e estrondosa.
A resistência e a luta por justiça e por um país melhor foram gigantes.
Continuo a me
alimentar do que significa ter ganhado essas eleições para o país e para o
mundo.
Preciso da paz,
da serenidade, da crença que vale a pena lutar, da alegria de milhões de
brasileiros irradiada com a posse de Lula e com os rituais que nos mandaram a
mensagem de um país vivo e de um governo que lutará para reconstruir o que destruíram.
Continuo a me
envolver nas imagens e discursos de algumas mulheres e de alguns homens
escolhidos para dirigir os Ministérios.
A poucos dias de
governo, e os analistas “do nosso lado” já apontaram a necessidade de demitir
ministros. Mas não quero me envolver nesta discussão. Estou feliz porque meus
netos compartilharam de minha alegria e vão poder falar destes momentos
históricos, quando eu já não estiver. Eles terão vivido um tempo que lhe valerá
para as futuras lutas que hão de viver e exigirão sua posição.
A trégua que me
concedo é necessária para manter minha saúde psíquica e física. Preciso delas
para acompanhar e apoiar o governo nos próximos quatro anos. Para apostar num
tempo de “devir” novos sentidos e subjetividades a favor da vida.