sábado, 7 de janeiro de 2023

Tempo de "devir"


A vitória de Lula assemelha-se a um conto de fadas. Um final feliz. Os bruxos maus foram expulsos.

Muitos me dirão calma lá, o governo recém começou, o país está sem dinheiro, o patrimônio público foi depredado, as instituições foram exauridas, há milhões que torcem para que dê errado, o mercado espera a sua vez para dar o bote, o congresso não é confiável, há tudo para ser reconstruído. A própria “esquerda” critica algumas escolhas para os ministérios. Dizem que é por ser, ela mesma, muito crítica. A lista de temores e obstáculos é muito grande. Os bruxos não morreram, estão à solta.

Continuo a sentir uma leveza que não sentia há anos.

Contrariamente àquilo que suportei – eu e milhões de brasileiros – desde o golpe contra a Dilma, o dia amanhece sem sustos. Fomos Sísifos, empurrando um saco de notícias ruins, de maldades cometidas pelo governo que se foi, de seguidores fanáticos replicando crueldades, de ameaças visíveis e mascaradas. Não quero falar dos horrores já barrados. Agora não. Li várias pessoas terem o mesmo sentimento.

Continuo a me encontrar saboreando uma paz há muito esquecida.

O ápice do terror instalado no país quatro anos atrás deu-se no processo da eleição. Tudo o que podiam fazer os antigos inquilinos da Alvorada colocaram em prática para ganhar as eleições. Utilizaram a máquina do governo a pressionar, a chantagear e a comprar votos. Tudo bem documentado pela imprensa. E perderam. Ainda assim, alguns setores que votaram no Lula, acharam que deveríamos ter ganhado no primeiro turno, que a diferença foi pequena, que merecíamos mais. Tudo foi analisado. Foi comprovado que a vitória foi grandiosa, inequívoca e estrondosa. A resistência e a luta por justiça e por um país melhor foram gigantes.

Continuo a me alimentar do que significa ter ganhado essas eleições para o país e para o mundo.

Preciso da paz, da serenidade, da crença que vale a pena lutar, da alegria de milhões de brasileiros irradiada com a posse de Lula e com os rituais que nos mandaram a mensagem de um país vivo e de um governo que lutará para reconstruir o que destruíram.

Continuo a me envolver nas imagens e discursos de algumas mulheres e de alguns homens escolhidos para dirigir os Ministérios.

A poucos dias de governo, e os analistas “do nosso lado” já apontaram a necessidade de demitir ministros. Mas não quero me envolver nesta discussão. Estou feliz porque meus netos compartilharam de minha alegria e vão poder falar destes momentos históricos, quando eu já não estiver. Eles terão vivido um tempo que lhe valerá para as futuras lutas que hão de viver e exigirão sua posição.

A trégua que me concedo é necessária para manter minha saúde psíquica e física. Preciso delas para acompanhar e apoiar o governo nos próximos quatro anos. Para apostar num tempo de “devir” novos sentidos e subjetividades a favor da vida.