Imagino
que a maioria da minha geração tenha brincado com vaga-lumes. Eu tenho
lembranças gostosas, era mágico ver as fagulhas que aqueles pequenos minúsculos
seres emitiam no escuro da noite. Corríamos atrás deles até cansar e atender ao
chamado para voltar para casa. Hoje, a maior parte da população vive em cidades
onde algum tipo de iluminação sempre existe. A própria vegetação deixou lugar a
prédios de todo o tipo e tamanho. Os vaga-lumes sumiram. Mesmo longe das
cidades eles já pouco aparecem.
Nestes
tempos de tantos sobressaltos e tragédias, volto seguidamente às palavras de
Pier Paolo Pasolini, falecido em 1975. Dentre tantos escritos, um deles é muito
conhecido por denunciar a morte dos vaga-lumes. Um outro tipo de vaga-lumes. A
denúncia está ligada à análise da sociedade italiana na qual o modelo
capitalista acabou com as carências no pós- guerra, trouxe ganhos inimagináveis
de bem estar material, mas está cobrando
um alto preço. Ele mostra como a sociedade italiana havia sido presa de um novo
fascismo, o aprisionamento das ideias e o corte de suas raízes culturais.
Segundo
Pasolini, o poder não precisaria mais de tanques nas ruas para dominar uma
sociedade, porque as mentes dos sujeitos estariam sendo domesticadas através do
consumo e de seus valores embutidos de ilusões, o que teria provocado o distanciamento
do espírito e da cultura popular, de suas memórias. Estariam sendo apagadas as
luzes da identidade popular pelo excesso de luminosidade sobre o engodo da
oferta de infindáveis novidades de consumo.
Um
paralelo com sociedade brasileira de hoje, infestada de discursos rasos, cuja
base é apenas a opinião individual, sem argumentos, sem o mínimo conhecimento,
tornando fúteis as afirmações emitidas com a segurança de quem sequer tem um
resquício de dúvida ou de interrogação, nos conecta com o pessimismo de
Pasolini.
Uma realidade, tanto lá como aqui
e no mundo todo, construída aos poucos, como doença invisível e silenciosa até
ela escapar a qualquer controle. Uma realidade construída em relações
competitivas, em valores de posses de bens materiais, na ilusão do consumo e do
descarte ininterrupto, na crença da felicidade através do acesso a uma
juventude perene, num modo de viver em ilhas (condomínio, centro comercial,
clube, transporte particular). Que subjetividades pode-se esperar numa
sociedade onde a aposta é obter bem estar físico como fim último a qualquer
custo e, para isso, a necessidade de realizá-lo em bolhas?
Desta forma, os cidadãos
afastam-se dos verdadeiros problemas de organização da produção do campo e da
cidade. As questões são tratadas com superficialidade e as informações
desconexas são aceitas como verdades. As verdadeiras razões, denunciadas por
lideranças engajadas na defesa de outro modo de viver e de se relacionar com a
natureza, os nossos vaga-lumes, são vistos como ameaças. Quem está no poder de
grandes conglomerados econômicos e financeiros defende a qualquer custo a ordem
estabelecida. Isto porque poucos ganham muito à custa da maioria da população, e
esta realidade, mascarada de todas as maneiras, precisa continuar, as origens
precisam ser ocultadas. As denúncias que as desnudam nas entranhas do poder são
os lampejos que iluminam para um novo caminho. É preciso eliminá-los.
Pasolini dizia ainda na década de
1970 que estes lampejos estavam desaparecendo. Infelizmente, mesmo sem os
tanques na rua, continuamos a ver o assassinato de lideranças do campo e da
cidade no nosso país. Continuamos a ver o apagamento dos vagalumes que brilham
na nossa noite escura. A lista é muito longa, mais do que poderíamos sequer
imaginar.
Quero fazer eco às muitas vozes
que se pronunciaram no mundo inteiro diante do assassinato dos dois defensores
dos indígenas e da Amazônia. Quero fazer às muitas vozes que começaram a
enxergar quem são os responsáveis por essa barbárie. Quero fazer eco às vozes
de quantos nunca deixaram de lançar luz sobre o horror que vive o país, porque uma
grande parte de sua população, talvez a maior, não merece o que tem sofrido nos
últimos anos.
Os vaga-lumes que se dispersaram não
cessaram sua procriação e a sua volta precisa nos unir num novo caminho. Os
vaga-lumes assassinados merecem não ser esquecidos. Os desafios são enormes.