sexta-feira, 1 de julho de 2022

A morte dos vaga-lumes

 

                Imagino que a maioria da minha geração tenha brincado com vaga-lumes. Eu tenho lembranças gostosas, era mágico ver as fagulhas que aqueles pequenos minúsculos seres emitiam no escuro da noite. Corríamos atrás deles até cansar e atender ao chamado para voltar para casa. Hoje, a maior parte da população vive em cidades onde algum tipo de iluminação sempre existe. A própria vegetação deixou lugar a prédios de todo o tipo e tamanho. Os vaga-lumes sumiram. Mesmo longe das cidades eles já pouco aparecem.

                Nestes tempos de tantos sobressaltos e tragédias, volto seguidamente às palavras de Pier Paolo Pasolini, falecido em 1975. Dentre tantos escritos, um deles é muito conhecido por denunciar a morte dos vaga-lumes. Um outro tipo de vaga-lumes. A denúncia está ligada à análise da sociedade italiana na qual o modelo capitalista acabou com as carências no pós- guerra, trouxe ganhos inimagináveis de bem estar material, mas  está cobrando um alto preço. Ele mostra como a sociedade italiana havia sido presa de um novo fascismo, o aprisionamento das ideias e o corte de suas raízes culturais.

                Segundo Pasolini, o poder não precisaria mais de tanques nas ruas para dominar uma sociedade, porque as mentes dos sujeitos estariam sendo domesticadas através do consumo e de seus valores embutidos de ilusões, o que teria provocado o distanciamento do espírito e da cultura popular, de suas memórias. Estariam sendo apagadas as luzes da identidade popular pelo excesso de luminosidade sobre o engodo da oferta de infindáveis novidades de consumo.

                Um paralelo com sociedade brasileira de hoje, infestada de discursos rasos, cuja base é apenas a opinião individual, sem argumentos, sem o mínimo conhecimento, tornando fúteis as afirmações emitidas com a segurança de quem sequer tem um resquício de dúvida ou de interrogação, nos conecta com o pessimismo de Pasolini.

Uma realidade, tanto lá como aqui e no mundo todo, construída aos poucos, como doença invisível e silenciosa até ela escapar a qualquer controle. Uma realidade construída em relações competitivas, em valores de posses de bens materiais, na ilusão do consumo e do descarte ininterrupto, na crença da felicidade através do acesso a uma juventude perene, num modo de viver em ilhas (condomínio, centro comercial, clube, transporte particular). Que subjetividades pode-se esperar numa sociedade onde a aposta é obter bem estar físico como fim último a qualquer custo e, para isso, a necessidade de realizá-lo em bolhas?

Desta forma, os cidadãos afastam-se dos verdadeiros problemas de organização da produção do campo e da cidade. As questões são tratadas com superficialidade e as informações desconexas são aceitas como verdades. As verdadeiras razões, denunciadas por lideranças engajadas na defesa de outro modo de viver e de se relacionar com a natureza, os nossos vaga-lumes, são vistos como ameaças. Quem está no poder de grandes conglomerados econômicos e financeiros defende a qualquer custo a ordem estabelecida. Isto porque poucos ganham muito à custa da maioria da população, e esta realidade, mascarada de todas as maneiras, precisa continuar, as origens precisam ser ocultadas. As denúncias que as desnudam nas entranhas do poder são os lampejos que iluminam para um novo caminho. É preciso eliminá-los.    

Pasolini dizia ainda na década de 1970 que estes lampejos estavam desaparecendo. Infelizmente, mesmo sem os tanques na rua, continuamos a ver o assassinato de lideranças do campo e da cidade no nosso país. Continuamos a ver o apagamento dos vagalumes que brilham na nossa noite escura. A lista é muito longa, mais do que poderíamos sequer imaginar.

Quero fazer eco às muitas vozes que se pronunciaram no mundo inteiro diante do assassinato dos dois defensores dos indígenas e da Amazônia. Quero fazer às muitas vozes que começaram a enxergar quem são os responsáveis por essa barbárie. Quero fazer eco às vozes de quantos nunca deixaram de lançar luz sobre o horror que vive o país, porque uma grande parte de sua população, talvez a maior, não merece o que tem sofrido nos últimos anos.

Os vaga-lumes que se dispersaram não cessaram sua procriação e a sua volta precisa nos unir num novo caminho. Os vaga-lumes assassinados merecem não ser esquecidos. Os desafios são enormes.