Eu não sou pacifista. Eu sou contra a guerra.
Gino Strada
em Entrevista a Che tempo che fa
A
origem dos sobrenomes na Itália nos contam muitas histórias. A partir do século
XIV, as camadas mais ricas da população começaram a usar sobrenome, o que foi
seguido por toda a população com o correr dos tempos. E como o fizeram?
Adotando o nome do lugar onde viviam (napolitano, lombardo), tendo o primeiro
nome de um antepassado (D’Angelo, D‘Alessi), de acordo com sua profissão (Muratori,
Ferraro) ou adotando um apelido (Franco, Gambino).
Não
sei a origem do sobrenome Strada (estrada em português), mas certamente para
Gino Strada, o verdadeiro significado tem a ver com a trajetória dele, com os
caminhos que ele percorreu nos países em guerra. É ele que dá um sentido a seu
sobrenome, porque ele levou sua humanidade a uma potência máxima, dedicou-se a
curar os que mais necessitavam, os feridos de guerra.
Gino
Strada, cuja formação era de cirurgião médico, em 1988, começou a dedicar-se à cirurgia de emergência em
feridos de guerra. Até 1994, ele trabalhou com a Cruz Vermelha, quando fundou
Emergency juntamente com sua esposa, uma associação independente e neutra
criada para levar tratamento médico e cirúrgico gratuito. Foi incansável na denúncia
de que as maiores vítimas de qualquer guerra são os civis. E foi ali que levou
seu trabalho. Infelizmente, estamos comprovando mais uma vez os horrores que a
população civil está sofrendo na Ucrânia hoje.
Gino Strada, foi
crítico da política italiana e deixou de votar nos seus últimos 30 anos. Não se
conformava com o aumento das despesas militares, com o envolvimento da OTAN e,
portanto, da Itália na guerra do Afeganistão que chamou de barbárie contra a
população e não a favor da paz. Ali mantém dois centros cirúrgicos para vítimas
da guerra e já atendeu milhares de pessoas, dentre as quais muitas crianças.
Não se conformava com a política italiana respeito à imigração, resultado das
guerras em diferentes países da África e da Ásia.
Gino Strada
morreu em 2021, mas sua organização humanitária continua.
Seu sobrenome,
Strada, tem um sentido profundo, ainda mais num mundo onde as palavras são
prostituídas e disseminadas nas redes sociais de maneira vulgar e criminosa.
Lembrar um nome que irradiou solidariedade e amor a milhões de pessoas é fazer
um contraponto para recuperar o imenso valor das palavras. Lembrar Strada é
lembrar que o mundo seria muito pior se a história não tivesse sido contemplada
com pessoas como ele. Lembrar Strada é lembrar o quanto de trabalho amoroso
continua a ser feito no meio da estupidez humana. Lembrar Strada é lembrar que
devemos escolher um caminho.
No Brasil, hoje,
vivemos um momento em que podemos construir uma nova estrada, escolher novas
palavras, escolher outros sobrenomes além daqueles que deixarão um significado
tenebroso para as próximas gerações, mas não quero enlamear a história
colocando-os aqui.
Nenhuma palavra
é neutra e todo sobrenome tem uma história. Estamos diante da possibilidade de
usar as melhores palavras e escolher os melhores sobrenomes para nos governarem,
aqueles que já mostraram serem sensíveis à dor do outro. Há uma estrada a
seguir e ela começa com um primeiro passo. Vamos dá-lo este ano no Brasil.