sexta-feira, 6 de maio de 2022

Há uma estrada

 

Eu não sou pacifista. Eu sou contra a guerra. 

Gino Strada

 em Entrevista a Che tempo che fa

 

            A origem dos sobrenomes na Itália nos contam muitas histórias. A partir do século XIV, as camadas mais ricas da população começaram a usar sobrenome, o que foi seguido por toda a população com o correr dos tempos. E como o fizeram? Adotando o nome do lugar onde viviam (napolitano, lombardo), tendo o primeiro nome de um antepassado (D’Angelo, D‘Alessi), de acordo com sua profissão (Muratori, Ferraro) ou adotando um apelido (Franco, Gambino).

            Não sei a origem do sobrenome Strada (estrada em português), mas certamente para Gino Strada, o verdadeiro significado tem a ver com a trajetória dele, com os caminhos que ele percorreu nos países em guerra. É ele que dá um sentido a seu sobrenome, porque ele levou sua humanidade a uma potência máxima, dedicou-se a curar os que mais necessitavam, os feridos de guerra.

            Gino Strada, cuja formação era de cirurgião médico, em 1988, começou a dedicar-se à cirurgia de emergência em feridos de guerra. Até 1994, ele trabalhou com a Cruz Vermelha, quando fundou Emergency juntamente com sua esposa, uma associação independente e neutra criada para levar tratamento médico e cirúrgico gratuito. Foi incansável na denúncia de que as maiores vítimas de qualquer guerra são os civis. E foi ali que levou seu trabalho. Infelizmente, estamos comprovando mais uma vez os horrores que a população civil está sofrendo na Ucrânia hoje.

Gino Strada, foi crítico da política italiana e deixou de votar nos seus últimos 30 anos. Não se conformava com o aumento das despesas militares, com o envolvimento da OTAN e, portanto, da Itália na guerra do Afeganistão que chamou de barbárie contra a população e não a favor da paz. Ali mantém dois centros cirúrgicos para vítimas da guerra e já atendeu milhares de pessoas, dentre as quais muitas crianças. Não se conformava com a política italiana respeito à imigração, resultado das guerras em diferentes países da África e da Ásia.

Gino Strada morreu em 2021, mas sua organização humanitária continua.

Seu sobrenome, Strada, tem um sentido profundo, ainda mais num mundo onde as palavras são prostituídas e disseminadas nas redes sociais de maneira vulgar e criminosa. Lembrar um nome que irradiou solidariedade e amor a milhões de pessoas é fazer um contraponto para recuperar o imenso valor das palavras. Lembrar Strada é lembrar que o mundo seria muito pior se a história não tivesse sido contemplada com pessoas como ele. Lembrar Strada é lembrar o quanto de trabalho amoroso continua a ser feito no meio da estupidez humana. Lembrar Strada é lembrar que devemos escolher um caminho.

No Brasil, hoje, vivemos um momento em que podemos construir uma nova estrada, escolher novas palavras, escolher outros sobrenomes além daqueles que deixarão um significado tenebroso para as próximas gerações, mas não quero enlamear a história colocando-os aqui.

Nenhuma palavra é neutra e todo sobrenome tem uma história. Estamos diante da possibilidade de usar as melhores palavras e escolher os melhores sobrenomes para nos governarem, aqueles que já mostraram serem sensíveis à dor do outro. Há uma estrada a seguir e ela começa com um primeiro passo. Vamos dá-lo este ano no Brasil.