segunda-feira, 7 de março de 2022

Palavras ajudam a não sufocar


 

“Quem cala e quem curva a cabeça

morre cada vez que o faz.

Quem fala e quem caminha com a testa erguida

 morre uma só vez”

 

Giovanni Falcone

 

Leio um artigo sobre o que está acontecendo na Ucrânia e paro com esta frase “Se ve que hay muertos que importan y otros que no”. Não consegui ir adiante. Este parágrafo ficou sozinho alguns dias, porque a tristeza vinha forte demais a cada vez que desejava continuar a escrever. E eu desistia. As palavras recusavam-se a me ajudar. Apenas imagens me vinham à mente. Imagens desordenadas, como formigas que fogem porque sua casa foi chutada por um pé furioso. Seres humanos em fuga, eritreus, nigerianos, sírios, afegãos. Barcos cheios de homens, mulheres e crianças afundando no mar. E, destacando-se deste quadro surrealista, uma figura longeva, a de um jovem soldado alemão de olhos azuis oferecendo-me um pedacinho de chocolate.

            Minha família vivia no norte da Itália, e o país era aliado da Alemanha. Os homens estavam no exército. Enquanto aliados, os alemães circulavam entre a população local estabelecendo relações as mais diversas e contraditórias, porque a sobrevivência estava em jogo. Havia um jovem soldado alemão que minha mãe dizia gostar muito de mim, bebê de poucos meses, ele contava que tinha saudades de sua mãe, de seus pais e de seus irmãos menores, tinham uma loja de tecidos numa pequena cidade do interior, a guerra logo terminaria e ele mandaria um cartão postal de lá, ele me oferecia o chocolate de sua ração, minha mãe precisava explicar-lhe que eu não podia comê-lo, ele sorria. Não lembro de minha mãe contar como conseguiam se entender com línguas tão diversas. Com o tempo, entendi que os laços humanos oferecem formas universais de entendimento. A unidade à qual o soldado pertencia começou a se retirar quando a Itália decretou o armistício. Meu pai e os outros homens do lugar começaram a ser caçados por terem deposto as armas.  Soldados alemães tornaram-se forças de ocupação, invadiam as casas apontando um fuzil, fazendo varredura na retirada. O jovem alemão não estava entre eles. Nunca mais foi visto. No entanto, a imagem desenhada pelas palavras de minha mãe, e pelo afeto que ela sentia por ele, ficaram marcados em mim para sempre. A voz de minha mãe contando que era um jovem como os jovens italianos que estavam em outras terras e, talvez, contassem suas histórias para alguma família, húngara, polonesa, ucraniana ou russa.

Eu não gostava de doces quando era  criança, a única exceção era um sanduíche de chocolate de merenda na escola, que não me era dado sempre. Imagino que devia ser caro, vivíamos os primeiros anos pós-guerra , reconstruía-se  o país e os alemães caíram no rol dos seres ferozes com rostos duros retratados em cenas de tantos filmes. Junto com estas imagens, eu lembro de olhos azuis do jovem soldado que vinha à nossa casa, embora eu  ainda nem tivesse os meus abertos no colo de minha mãe. E sua mão com um pedacinho de chocolate.

            Passaram-se quase oitenta nos desde então, formou-se a ONU e a UE com o propósito expresso de preservar a paz alcançada. Se as atrocidades da primeira grande guerra não foram suficientes para aprender, com a segunda, os povos tiveram nova chance de sentir que a guerra só traz sofrimento e destruição. A Europa tornou-se unida e em paz.

            Eis que acontece a invasão da Ucrânia. Tantas guerras sucederam no mundo e continuam, mas os meios de comunicação quase não falam mais nelas. Milhões de mortos aqui e acolá deixaram de ser notícia. Agora é na Europa. Agora é de novo às portas de casa. Agora é diferente.

            Vi o retrato de diversos jovens soldados que estão na guerra na tela do televisor, pouco antes do momento de escrever. Não sei se estão vivos ou mortos. Não sei se são russos ou ucranianos. Importa? Poderiam ser meus filhos, sobrinhos ou netos. Ou filhos, sobrinhos ou netos de qualquer família. São jovens como milhões de outros que foram mandados para batalhas que nunca são suas.

            Vejo olhos azuis distantes. Tenho um grito represado na garganta. Ainda busco palavras que são minha ajuda para não sufocar.