“Quem
cala e quem curva a cabeça
morre
cada vez que o faz.
Quem
fala e quem caminha com a testa erguida
morre uma só vez”
Giovanni
Falcone
Leio um artigo
sobre o que está acontecendo na Ucrânia e paro com esta frase “Se ve que hay
muertos que importan y otros que no”. Não consegui ir adiante. Este parágrafo
ficou sozinho alguns dias, porque a tristeza vinha forte demais a cada vez que
desejava continuar a escrever. E eu desistia. As palavras recusavam-se a me
ajudar. Apenas imagens me vinham à mente. Imagens desordenadas, como formigas
que fogem porque sua casa foi chutada por um pé furioso. Seres humanos em fuga,
eritreus, nigerianos, sírios, afegãos. Barcos cheios de homens, mulheres e
crianças afundando no mar. E, destacando-se deste quadro surrealista, uma
figura longeva, a de um jovem soldado alemão de olhos azuis oferecendo-me um
pedacinho de chocolate.
Minha
família vivia no norte da Itália, e o país era aliado da Alemanha. Os homens
estavam no exército. Enquanto aliados, os alemães circulavam entre a população
local estabelecendo relações as mais diversas e contraditórias, porque a
sobrevivência estava em jogo. Havia um jovem soldado alemão que minha mãe dizia
gostar muito de mim, bebê de poucos meses, ele contava que tinha saudades de
sua mãe, de seus pais e de seus irmãos menores, tinham uma loja de tecidos numa
pequena cidade do interior, a guerra logo terminaria e ele mandaria um cartão
postal de lá, ele me oferecia o chocolate de sua ração, minha mãe precisava
explicar-lhe que eu não podia comê-lo, ele sorria. Não lembro de minha mãe contar
como conseguiam se entender com línguas tão diversas. Com o tempo, entendi que
os laços humanos oferecem formas universais de entendimento. A unidade à qual o
soldado pertencia começou a se retirar quando a Itália decretou o armistício. Meu
pai e os outros homens do lugar começaram a ser caçados por terem deposto as
armas. Soldados alemães tornaram-se
forças de ocupação, invadiam as casas apontando um fuzil, fazendo varredura na
retirada. O jovem alemão não estava entre eles. Nunca mais foi visto. No
entanto, a imagem desenhada pelas palavras de minha mãe, e pelo afeto que ela
sentia por ele, ficaram marcados em mim para sempre. A voz de minha mãe
contando que era um jovem como os jovens italianos que estavam em outras terras
e, talvez, contassem suas histórias para alguma família, húngara, polonesa, ucraniana
ou russa.
Eu não gostava de
doces quando era criança, a única
exceção era um sanduíche de chocolate de merenda na escola, que não me era dado
sempre. Imagino que devia ser caro, vivíamos os primeiros anos pós-guerra ,
reconstruía-se o país e os alemães caíram
no rol dos seres ferozes com rostos duros retratados em cenas de tantos filmes.
Junto com estas imagens, eu lembro de olhos azuis do jovem soldado que vinha à
nossa casa, embora eu ainda nem tivesse os
meus abertos no colo de minha mãe. E sua mão com um pedacinho de chocolate.
Passaram-se
quase oitenta nos desde então, formou-se a ONU e a UE com o propósito expresso
de preservar a paz alcançada. Se as atrocidades da primeira grande guerra não
foram suficientes para aprender, com a segunda, os povos tiveram nova chance de
sentir que a guerra só traz sofrimento e destruição. A Europa tornou-se unida e
em paz.
Eis
que acontece a invasão da Ucrânia. Tantas guerras sucederam no mundo e
continuam, mas os meios de comunicação quase não falam mais nelas. Milhões de
mortos aqui e acolá deixaram de ser notícia. Agora é na Europa. Agora é de novo
às portas de casa. Agora é diferente.
Vi
o retrato de diversos jovens soldados que estão na guerra na tela do televisor,
pouco antes do momento de escrever. Não sei se estão vivos ou mortos. Não sei
se são russos ou ucranianos. Importa? Poderiam ser meus filhos, sobrinhos ou
netos. Ou filhos, sobrinhos ou netos de qualquer família. São jovens como
milhões de outros que foram mandados para batalhas que nunca são suas.
Vejo
olhos azuis distantes. Tenho um grito represado na garganta. Ainda busco
palavras que são minha ajuda para não sufocar.