Cresci
vendo filmes e seriados de guerra onde o mocinho era o soldado heroico
americano contra o perverso alemão. Nasci no final da segunda guerra no norte
da Itália, e minhas recordações vêm das histórias ouvidas em casa depois do
conflito ter acabado. Volta e meia conto algumas passagens que ainda agora me
emocionam, embora tenham passado décadas. O que conto, no entanto, nem chega
perto das atrocidades que outras famílias de italianos sofreram e que eu só vim
a conhecer muito tempo depois quando já tendo emigrado para a América, como eu
dizia. Só vim a saber que o país seria o Brasil ao chegar aqui.
Cresci ouvindo de meus pais que
não devíamos nos meter em política, porque éramos estrangeiros. Fiz meus
estudos em colégio de irmãs, porque eles queriam o melhor para mim. A morte de
meu pai ocorreu precoce, e eu precisei começar a trabalhar muito cedo. Trabalho
e escola deixavam-me pouco tempo para qualquer outra atividade, menos ainda
para me inteirar da política e de outras partes da história que eu conhecia.
Foi já adulta, que vim a entender que o mocinho, que ajudara a libertar a
Europa do nazismo, nem tão mocinho era.
Estas lembranças voltam muito
vivas nestes dias em que vejo nos noticiários europeus a tensão entre o
Ocidente e a Rússia. Muitas análises foram publicadas sobre a origem do
conflito, não é sobre elas que quero me referir. É sobre o efeito que tudo o
que está acontecendo reverbera em mim, porque nasci no meio de uma guerra e
minha família esteve dentro dela. Apesar de muito pequena, a sirene avisando bombardeamento
próximo ficou gravado na memória, tanto que, com nove ou dez anos e já vivendo em
outro país, eu não suportava o ruído dos aviões da Esquadrilha da Fumaça ao se
apresentar em alguma comemoração. Eu me fechava no quarto tapando os ouvidos.
Meu pai foi militar e
desmobilizou, atendendo às ordens do armistício decretado em 1943. Ele e outros
militares esconderam-se dos nazistas que os procuravam para levá-los presos na
sua retirada para a Alemanha. Minha mãe tinha-me no colo e enfrentou
metralhadora, negando-se a dizer o paradeiro do marido. Meus pais viram trens
cheios de prisioneiros que passavam em direção aos campos de concentração
alemães. Ao longo dos anos vi cenas semelhantes em filmes e, muitas vezes, acelerei
a projeção por não aguentar. Ficaram marcas que não se apagarão nunca. Meu pai
resolveu emigrar por vários motivos. Lembro de conversas entre os adultos, e
guardo que o motivo decisivo foi o medo de outra guerra. Foi quando ocorreu o
conflito na Coréia, 1949. Longe de onde morávamos, mas corria a desconfiança de
outra guerra mundial. Guerra nunca mais.
Nos últimos 70 anos a Europa se
reorganizou e manteve suas fronteiras em paz. Mas a história comprova que ela
esteve e está envolvida de alguma maneira com guerras mais ou menos próximas. A
cultura da guerra nunca se desfez. Com ou sem guerra fria a disputa entre
potências continua e a morte de milhões e milhões de soldados e civis sempre
fica na conta de efeito necessário ou colateral. É a cultura da morte que está
associada a um modo de vida autofágico baseado na competição e no consumismo.
Isto tem nome. Modo de produção capitalista, a morte e a destruição fazem parte
de sua natureza. Tantos já o disseram.
Enquanto isso ocorre e desperta
tantas tristezas, leio mais uma tragédia.
Em Barreiros, zona rural de Pernambuco, foi assassinado intencionalmente um
menino dentro da casa invadida por homens encapuzados à procura do pai, líder
comunitário. Não li até o momento de escrever este texto sobre grandes
manifestações de indignação. Talvez, porque crimes semelhantes estejam ocorrendo
frequentemente? Os residentes pedem investigação e justiça. O que acontecerá? A
vida segue como se esta interminável guerra não ocorresse por aqui.
A cultura da indiferença ou da
impotência faz com que a invasão de uma casa simples de trabalhadores rurais
seja esquecida. A morte de um menino só envolve os direitos de algumas famílias
que ocupam há anos uma fazenda. Estão à espera de seus direitos num interior
perdido do país. Tomara que o sacrifício daquela criança consiga mexer nos
bastidores do poder e que ela não tenha sido em vão.
A possibilidade de guerra com a
Rússia ocupa grandes espaços na mídia mundial, há interesses econômicos enormes
por trás. Há grandes grupos empresariais que poderiam ser atingidos. Então, são
necessários milhares de soldados frente a frente para morrer. Tomara que os
jogos de poder via diplomacia sejam mais fortes.
Não há palavras que justifiquem
estas situações-limite. A humanidade está levianamente brincando com a morte.
Sempre o fez, mas parece estarmos no limite do não retorno. Precisamos
continuar indignados para acalentar o sonho de uma sociedade melhor. É a
indiferença que mata nossos sonhos.
Penso muitas vezes sobre o que
diriam meus pais. Eles que fugiram da guerra e vieram para um país que lhe
disseram ser pacífico.