segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Proteção para nossas crianças

 

 

Tanta coisa ruim acontecendo e, no meio disso, uma brisa de alegria. Como soprar sobre um joelho esfolado e sentir alívio. Mas é muito mais do que isto e seu significado também muito mais profundo.

            Refiro-me à foto na unidade de saúde Santa Marta onde uma menina está recebendo sua primeira dose de vacina. Uma sala cheia de balões coloridos como numa festa de aniversário. Imagem que me fez pensar sobre os cuidados daquelas profissionais em receber da melhor forma as crianças de 5 a 11 anos. Talvez, algumas delas, principalmente as menores, cheguem com medo, agulha sente dá uma sensação de receio, no mínimo. As enfermeiras conhecem seu trabalho e seu público. Elas sabem da importância da vacina nestes tempos em que a pandemia custa a ceder e se espalha mais rapidamente entre os não vacinados com consequências mais graves.

            A foto chegou até mim como uma lufada de esperança empurrando a tristeza de saber que o presidente do país faz o possível e o impossível para atrapalhar a imunização da população brasileira desde as primeiras notícias do aparecimento do vírus covid19. Agora age contra a vacinação das crianças. Ele vai continuar a cometer crimes até o fim, mas estão crescendo as manifestações contrárias. Não só crescendo, como se fazendo ver e ouvir. O SUS cumpriu o seu papel de proteger a população apesar de todos os ataques sofridos por quem deveria cumprir a constituição e fortalecê-lo.

A foto representa uma ponta de uma sociedade viva, resistente e batalhadora. E as crianças, contentes em poder recuperar espaços e companhias de amigos em segurança.

Infelizmente, a ignorância e a maldade, que se unem ao dirigente maior do país, atuam contra, espalhando fakenews sobre a vacinação e produzindo medo, principalmente onde as informações corretas baseadas na ciência não chegam. Por isso há mães e pais que relutam em proteger seus filhos. A grande arma da ignorância é o medo.

Felizmente, parte da mídia oficial rendeu-se à opção de esclarecer a população, associando-se à mídia independente que vem buscando romper bolhas de desinformação e má fé desde os primeiros instante.

Ondas de desmascaramento vêm chegando cada vez mais fortes e contínuas. Vamos torcer para que elas cheguem rápido a cada vez mais pessoas, e nossas crianças possam ser protegidas com urgência.

           

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Justicia gendarussa

 

Ontem foi um dia especial. A inauguração de um grande painel num edifício da cidade tem uma história belíssima e merece ser comemorada e festejada. Para muitos pode ser apenas uma extravagância de artistas ou de quem não se preocupa com coisas mais importantes. No entanto, a pintura é e será o testemunho de histórias que se entrelaçaram desde muito tempo atrás. Histórias de gente que comungou e comunga de um mesmo desejo de harmonia com a natureza e com a humanidade. Num tempo medido em séculos uma plantinha foi se reproduzindo e oferecendo seus benefícios, enquanto gerações de humanos nasciam e morriam.

Ano 2022, uma tarde quente de janeiro, a pintura de um exemplar de justicia gendarussa na parede do prédio do Daer na av. Borges de Medeiros é oferecido oficialmente a Porto Alegre. Justicia é em homenagem a  Sir James Justice, botânico, horticultor e jardineiro escocês (1698-1763), membro da Real Sociedade de Londres para o Avanço da Ciência. É considerado o pai da horticultura escocesa do séc. XVIII. Gendarussa vem dos idiomas malaio e javanês, e pode ser traduzido como o perfume de um doce vento que sopra e traz algo semelhante a aromas silvestres, aromas da floresta ou à fragrância amadeirada. “Para aqueles que acreditam no seu poder, o nome Justicia gendarussa vai além do latim botânico: seu uso significa que as entidades e orixás farão valer a justiça e, sobre aqueles que professam sua fé, a proteção chegará suavemente, assim como o perfume de um doce vento que sopra...”*

Por isso esta planta também é chamada de quebra-demanda, ela cresce em qualquer lugar, nem o cimento a impede de aparecer.

                Esta imagem é resultado de pesquisa e planejamento de anos. A pintura envolveu não só os dois artistas: a suíça Mona Caron e o paulistano Mauro Neri, mas também outros 30 artistas locais. É fruto de um trabalho colaborativo, onde o processo de criação desenvolveu-se tendo em vista a justiça social e a preservação da natureza. A modelo é Beatriz Gonçalves Pereira.

            Em meio a tantos desmandos, tanta crueldade por parte de quem nos governa, tanta gente alienada que não quer ver o que realmente está acontecendo, tantas leis sociais e ambientais transformadas para atender a interesses particulares, esta grande pintura vem nos chamar para a continuidade da resistência. Quando muitos de nós, que estamos atentos ao que acontece ao redor e nos entristecemos, e nos desalentamos, e cansamos, e quase desistimos, chega esta obra de arte que envolveu silenciosamente tanta gente.

            A mensagem está ali, nos olhando e nos convidando a ter fé. Há muita gente que nunca desistiu, que faz o que lhe diz o coração, que sabe o que deve fazer para que possamos ser mais fortes que a maldade solta por aí. Através da arte, foi colocada em movimento uma energia vinda do que há de melhor no ser humano de várias partes do mundo.

            A quebra-demanda e a mulher estão ali para nos lembrar todos os momentos do dia que Porto Alegre está viva, apesar de tudo.

 

 *Fonte: http://www.unirio.br/ccbs/ibio/herbariohuni/justicia-gendarussa-burm-f

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Imagens e movimentos

 

        

Praias do Nordeste, voo de pássaros do Centro-Oeste, matas ainda preservadas, sítios históricos, algumas imagens que me relembram quanto é lindo o Brasil. Leio, junto a estas imagens, a declaração otimista de representante do setor de turismo no país: as viagens internas estão crescendo. Saldo positivo da pandemia, expressão de contabilidade egoísta, digo. Impedidos de viajar para o exterior, os brasileiros movem-se por aqui mesmo. De qualquer forma, é muito bom que os brasileiros viajem pelo próprio país. Mas há milhões de brasileiros que não conseguem se mover além do entorno onde moram, não só pela pandemia, mas porque estão desempregados e sem nenhuma perspectiva diferente de vida. Tudo isso agravado por políticas de descaso do governo, quando não intencionalmente destrutivas.

Recentemente, depois de um longo tempo de reclusão, arrisquei-me a visitar a orla do rio Guaíba. Sim, rio, não lago. Caminhar nos passeios que serpenteiam sobre as águas, ouvindo o marulhar das minúsculas ondulações, vendo o encrespar da água mais distante enquanto a superfície recebe um risco branco de um barco veloz, uma delícia. Poder se movimentar, sair de casa, estar próximo da natureza é suprimir uma falta comum em cidades grandes. Poder caminhar, correr, andar de bicicleta junto a ar puro e imagens bonitas só pode fazer bem, todos merecem usufruí-lo. O Guaíba e seu entorno oferecem uma paisagem especial em qualquer momento do dia, sem falar no seu famoso por do sol. Se eu fosse turista, registraria este espaço em muitas fotografias para mostrar aos meus amigos. Como fiz inúmeras vezes no exterior. Oxalá todos pudessem desfrutar da beleza deste lugar.

Normalmente não me chama a atenção a cor da pele das pessoas, porque sou branca e vivo numa sociedade predominantemente branca. Naquele dia, no entanto, dei-me conta disso, porque um casal e duas meninas negras chegaram de bicicleta, e pararam perto de um dos quiosques. Comecei a prestar atenção no restante das pessoas que circulavam. Mulheres e homens brancos (alguns de pele morena que, talvez, se considerassem negros), jovens e adultos, crianças, vestidos com roupas esportivas, alguns de forma adequada para o esporte que praticavam, ou exercícios nos aparelhos ali existentes. Quase todos respeitando a necessidade de máscara. Quase todos brancos. Muitos, usufruindo sucos, água de coco, petiscos, em mesas devidamente distanciadas umas das outras. Um quadro harmonioso inserido num recorte privilegiado de natureza.

Nas proximidades, um sem número de carros estacionados. Poucos ônibus circulando. Em domingos e feriados, a frota é reduzida. Então relembrei o quanto o transporte público é fundamental para quem depende quase que exclusivamente dele. Esta população vive principalmente na periferia, na zona norte ou leste da cidade. É onde vamos encontrar maior concentração de população negra. Então a orla do Guaíba é um lugar distante para os que moram longe e são pobres, negros ou brancos, mesmo que não exista uma tabuleta impedindo de acessá-la. Para estas pessoas, viajar para o exterior ou para o interior do país, sequer deva ser uma questão. E nem falo nos restaurantes caros ali existentes. A orla do Guaíba deveria ser uma boa alternativa. Refiro-me apenas às margens que permitem usufruir da beleza que, por si só, faz bem.

Movimentar-se, ver outras paisagens, entrar em contato com outras pessoas, dar-se conta de novos modos de ser, de falar, de viver, de se relacionar. Uma rica forma de nos levar a pensar além do que é vivido, de expandir-se, de ser mais. Sem esquecer o quanto é difícil para muitos o simples fato de sobreviver, é duro ver o quanto pode ser cruel uma sociedade onde grande parte de sua população não consegue passear, movimentar-se pelo simples desejo de ver outros lugares, nem mesmo dentro de sua cidade. Para a população que mesmo andar de ônibus é difícil, muitos espaços lhe são negados desde sempre. Uma negação que não está escrita, um muro imaterial que isola os que têm dos que não têm.

Repensar a mobilidade urbana é repensar o próprio modo de vida que levamos enquanto sociedade, é mexer com privilégios e reordená-la sob o princípio da equidade. É resgatar a indignação pela extrema diferença entre as classes sociais. Utopia? Sim, para que ela nos indique caminhos.