segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Esta terra tem dono

 

           

As Missões estão ali há cerca de 300 anos, vivo no Rio Grande do Sul há 70 anos e só agora consegui visitá-las. Mergulhar na história daquela parte do Estado, visitando as ruínas de S. Miguel, foi uma experiência de resgate do que nunca deveríamos esquecer. E esquecemos.

Séculos depois, o que permanece das reduções jesuíticas pode ser fonte de inspiração para quem não se conforma com os rumos que a sociedade tomou ao longo dos séculos. No mínimo para lembrar que outro modo de viver foi possível próximo de nós, baseado no trabalho solidário e na relação sustentável com a natureza. Infelizmente, a perseguição continua feroz, como naquela época, contra os habitantes nativos deste país. Se o modo de viver hodierno é capaz de cegar e entorpecer os que lutam cotidianamente por sua sobrevivência, voltar àquela história é lembrar do que é capaz o poder econômico predador sem limites para sua expansão desde sempre.

Tradicionalmente, os currículos escolares reproduzem a história dos vencedores. As lutas de diferentes povos ou segmentos sociais são esquecidos, ou omitidos, ou retorcidos intencionalmente, faz parte da lógica do poder. É o que acontece com a história das Missões Jesuíticas, não só no nosso Estado, mas em outras partes da América Latina. Algumas brechas surgem através de lutas individuais ou de organizações que não sucumbem à pasteurização da história. Daí a importância do testemunho das ruínas, no caso, do que foram as reduções jesuíticas. Um alento é terem sido reconhecidas pela ONU como Patrimônio Cultural da Humanidade. Graças a isto, o poder público está presente. Sente-se a ação da universidade nas pesquisas locais, na formação de funcionários e guias de S. Miguel, os quais se expressam com orgulho sobre a experiência jesuítica. Mesmo assim, quem visita o local percebe que muito mais poderia ser feito para dar a visibilidade à fantástica experiência ali realizada.

                A visitação do sítio arqueológico com seu show noturno já causa impacto no espectador. A existência de benzedeiras que continuam a preservar rituais daquela época, e a conservação de locais externos que faziam parte da comunidade  também contribuem para a memória daquela experiência. No entanto, um conjunto de medidas para facilitar a ida ao local e a adoção de novos recursos tecnológicos para levar os visitantes a vivenciar a maravilhosa experiência de organização social e econômica ali realizada, poderia contribuir de forma mais efetiva na formação cultural do público. Hoje, a cultura está sendo mais atacada do que incentivada no país.

            Voltei ao filme A Missão com Robert de Niro e música de Ennio Morricone. Nele pude relembrar as consequências no Novo Mundo das disputas territoriais entre Portugal e Espanha, das disputas entre  poder monárquico e poder religioso, tendo como fundamento, como causa seminal, o fator econômico a exigir o término da experiência jesuítica, que protegia os índios da escravização pelos bandeirantes.

Voltei a rever a história com Voltaire que enaltecia a experiência naquela região da América do Sul. Voltei ao livro Sepé Tiarajú do escritor Alcy Cheuíche e comprovei mais uma vez que a literatura é aliada da preservação da memória.

No entanto, embora o passado tenha mostrado a possibilidade de uma maneira diversa de relação entre indígenas, europeus e natureza, prevaleceu a obsessão exploratória e predatória do território sul-americano. Hoje, a tragédia daquela exploração segue com os mesmos princípios em todo o território nacional. Jamais foi interrompida.  Os indígenas brasileiros continuam a ser exterminados, bem como a devastação acelerada de seus territórios. Permanecem as palavras em guarani no pórtico de entrada de S. Miguel das Missões: Co yvy oguereco yara, Esta terra tem dono.

Apesar de tudo o que aconteceu e continua acontecendo atualmente, ver diante de mim o que já tinha visto na tela, e o que já tinha lido e ouvido há muito tempo, foi uma conversa com a esperança que anda encolhida.