As Missões estão
ali há cerca de 300 anos, vivo no Rio Grande do Sul há 70 anos e só agora
consegui visitá-las. Mergulhar na história daquela parte do Estado, visitando
as ruínas de S. Miguel, foi uma experiência de resgate do que nunca deveríamos
esquecer. E esquecemos.
Séculos depois, o
que permanece das reduções jesuíticas pode ser fonte de inspiração para quem
não se conforma com os rumos que a sociedade tomou ao longo dos séculos. No
mínimo para lembrar que outro modo de viver foi possível próximo de nós,
baseado no trabalho solidário e na relação sustentável com a natureza.
Infelizmente, a perseguição continua feroz, como naquela época, contra os
habitantes nativos deste país. Se o modo de viver hodierno é capaz de cegar e
entorpecer os que lutam cotidianamente por sua sobrevivência, voltar àquela
história é lembrar do que é capaz o poder econômico predador sem limites para
sua expansão desde sempre.
Tradicionalmente,
os currículos escolares reproduzem a história dos vencedores. As lutas de
diferentes povos ou segmentos sociais são esquecidos, ou omitidos, ou
retorcidos intencionalmente, faz parte da lógica do poder. É o que acontece com
a história das Missões Jesuíticas, não só no nosso Estado, mas em outras partes
da América Latina. Algumas brechas surgem através de lutas individuais ou de
organizações que não sucumbem à pasteurização da história. Daí a importância do
testemunho das ruínas, no caso, do que foram as reduções jesuíticas. Um alento
é terem sido reconhecidas pela ONU como Patrimônio Cultural da Humanidade.
Graças a isto, o poder público está presente. Sente-se a ação da universidade
nas pesquisas locais, na formação de funcionários e guias de S. Miguel, os
quais se expressam com orgulho sobre a experiência jesuítica. Mesmo assim, quem
visita o local percebe que muito mais poderia ser feito para dar a visibilidade
à fantástica experiência ali realizada.
A
visitação do sítio arqueológico com seu show noturno já causa impacto no
espectador. A existência de benzedeiras que continuam a preservar rituais
daquela época, e a conservação de locais externos que faziam parte da comunidade também contribuem para a memória daquela
experiência. No entanto, um conjunto de medidas para facilitar a ida ao local e
a adoção de novos recursos tecnológicos para levar os visitantes a vivenciar a
maravilhosa experiência de organização social e econômica ali realizada, poderia
contribuir de forma mais efetiva na formação cultural do público. Hoje, a cultura
está sendo mais atacada do que incentivada no país.
Voltei ao filme A Missão com Robert de Niro e música de Ennio Morricone. Nele pude
relembrar as consequências no Novo Mundo das disputas territoriais entre
Portugal e Espanha, das disputas entre poder monárquico e poder religioso, tendo como
fundamento, como causa seminal, o fator econômico a exigir o término da
experiência jesuítica, que protegia os índios da escravização pelos
bandeirantes.
Voltei a rever a
história com Voltaire que enaltecia a experiência naquela região da América do
Sul. Voltei ao livro Sepé Tiarajú do escritor Alcy Cheuíche e comprovei mais
uma vez que a literatura é aliada da preservação da memória.
No entanto, embora
o passado tenha mostrado a possibilidade de uma maneira diversa de relação
entre indígenas, europeus e natureza, prevaleceu a obsessão exploratória e
predatória do território sul-americano. Hoje, a tragédia daquela exploração
segue com os mesmos princípios em todo o território nacional. Jamais foi
interrompida. Os indígenas brasileiros continuam
a ser exterminados, bem como a devastação acelerada de seus territórios. Permanecem
as palavras em guarani no pórtico de entrada de S. Miguel das Missões: Co yvy oguereco yara, Esta terra tem dono.
Apesar de tudo o
que aconteceu e continua acontecendo atualmente, ver diante de mim o que já
tinha visto na tela, e o que já tinha lido e ouvido há muito tempo, foi uma
conversa com a esperança que anda encolhida.