Ninguém
segura quem percebe e rompe as barreiras da exclusão,
quem
venceu a fome e tornou a maior estigma social
em
sua principal identidade.
Alexsandro
Cardoso
Acabei
de ler o livro. Demorei, eu o li devagar, porque me fez pensar muito.
Pensei
em colocar aqui alguns dos trechos, mas desisti. Vale ler sua narrativa, em seu
jeito próprio, nas suas reafirmações sobre o próprio processo para chegar a compreender
o lugar que ocupa na sociedade. Uma história de enormes limitações e enormes
entraves para conquistar um lugar melhor para si e para os outros.
Vou
escrever apenas sobre uns poucos pontos.
O
Alexsandro produziu sua visão de mundo através de trajetória individual, mas
repete incansavelmente que conseguiu o que conseguiu graças ao coletivo e não a
mérito pessoal. Agradece muitas vezes os companheiros de luta. A partir disso,
afirma que nossas ações devam ser ancoradas no tripé solidariedade, empatia e
amor. Narra inúmeras situações desde sua infância para comprovar sua afirmação.
Ele
mostra através de diferentes momentos vividos como os seus conhecimentos eram
fundamentais para compreender os conhecimentos veiculados na escola e na
universidade. Com suas próprias palavras e raciocínios mostrou a conexão entre
teoria e prática. Não esquece quanto a escola é importante para as classes
menos favorecidas da sociedade, dando-lhe lugar de primazia para poder ter um
trabalho melhor e para encontrar oportunidades melhores no convívio em
sociedade. Mas alertou para a necessidade de pensar coletivamente sem o qual
estudar não valeria nada.
Contou
várias passagens de sua história, de sua família e de sua comunidade. A
narrativa reafirma muitas vezes a importância do núcleo familiar e do estudo
para constituir-se como sujeito que é
atualmente. Então ele convida os leitores a lutar e a encontrar forças para
estudar e se sacrificar para vencer os desafios que a vida de miséria lhes
oferece cada minuto da vida. Ele, no entanto, repete ao longo de sua narrativa
que ele é uma exceção dentro do sistema em que vive. A regra para a maioria é a
derrota.
A
experiência da fome que ele conta é terrível. Embora não desconheça a miséria
que existe no mundo e no país. Embora tenha lido muitas histórias sobre
situações onde seres humanos foram privados de algo tão básico como ter um
mínimo de comida, o depoimento de Alexsandro foi devastador. Ele criança falou
da fome, da dor física por passar fome, da incompreensão do que estava
acontecendo com ele por causa da fome. Não há palavras que possam descrever a
indignação com este quadro que, infelizmente, não consegue mudar a organização
social para que isso não possa mais acontecer. Para quem nunca passou fome como
a maioria dos que vão ler este livro, muitas perguntas vão surgir acompanhadas
de indignação. Uma sacudida para fazer mais alguma coisa, além do que já se
faz.
E,
por último, perguntei-me ao longo da leitura, para quem Alexsandro estaria
escrevendo este livro. Claro que há um público que o compra. No entanto,
quantos deveriam ler esta história não têm dinheiro para comprar um livro,
mesmo que tenham vontade. Disso todos nós sabemos. A resposta veio no final da
narrativa.
Após
este período de pandemia, espero encontrar o Alexsandro e poder abraçá-lo. Por
enquanto desejo que a sua história seja compartilhada por muita gente. Ela é um
grito de inconformidade com a miséria existente e um convite à reflexão. E
também à ação. Ela é, igualmente, um
abraço solidário e amoroso do meio de tantas injustiças.