quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Para quem é este livro?


 

Ninguém segura quem percebe e rompe as barreiras da exclusão,

quem venceu a fome e tornou a maior estigma social

em sua principal identidade.

 

Alexsandro Cardoso

 

Acabei de ler o livro. Demorei, eu o li devagar, porque me fez pensar muito.

Pensei em colocar aqui alguns dos trechos, mas desisti. Vale ler sua narrativa, em seu jeito próprio, nas suas reafirmações sobre o próprio processo para chegar a compreender o lugar que ocupa na sociedade. Uma história de enormes limitações e enormes entraves para conquistar um lugar melhor para si e para os outros.

Vou escrever apenas sobre uns poucos pontos.

O Alexsandro produziu sua visão de mundo através de trajetória individual, mas repete incansavelmente que conseguiu o que conseguiu graças ao coletivo e não a mérito pessoal. Agradece muitas vezes os companheiros de luta. A partir disso, afirma que nossas ações devam ser ancoradas no tripé solidariedade, empatia e amor. Narra inúmeras situações desde sua infância  para comprovar sua afirmação.

Ele mostra através de diferentes momentos vividos como os seus conhecimentos eram fundamentais para compreender os conhecimentos veiculados na escola e na universidade. Com suas próprias palavras e raciocínios mostrou a conexão entre teoria e prática. Não esquece quanto a escola é importante para as classes menos favorecidas da sociedade, dando-lhe lugar de primazia para poder ter um trabalho melhor e para encontrar oportunidades melhores no convívio em sociedade. Mas alertou para a necessidade de pensar coletivamente sem o qual estudar não valeria nada.

Contou várias passagens de sua história, de sua família e de sua comunidade. A narrativa reafirma muitas vezes a importância do núcleo familiar e do estudo para  constituir-se como sujeito que é atualmente. Então ele convida os leitores a lutar e a encontrar forças para estudar e se sacrificar para vencer os desafios que a vida de miséria lhes oferece cada minuto da vida. Ele, no entanto, repete ao longo de sua narrativa que ele é uma exceção dentro do sistema em que vive. A regra para a maioria é a derrota.

A experiência da fome que ele conta é terrível. Embora não desconheça a miséria que existe no mundo e no país. Embora tenha lido muitas histórias sobre situações onde seres humanos foram privados de algo tão básico como ter um mínimo de comida, o depoimento de Alexsandro foi devastador. Ele criança falou da fome, da dor física por passar fome, da incompreensão do que estava acontecendo com ele por causa da fome. Não há palavras que possam descrever a indignação com este quadro que, infelizmente, não consegue mudar a organização social para que isso não possa mais acontecer. Para quem nunca passou fome como a maioria dos que vão ler este livro, muitas perguntas vão surgir acompanhadas de indignação. Uma sacudida para fazer mais alguma coisa, além do que já se faz.

E, por último, perguntei-me ao longo da leitura, para quem Alexsandro estaria escrevendo este livro. Claro que há um público que o compra. No entanto, quantos deveriam ler esta história não têm dinheiro para comprar um livro, mesmo que tenham vontade. Disso todos nós sabemos. A resposta veio no final da narrativa.

Após este período de pandemia, espero encontrar o Alexsandro e poder abraçá-lo. Por enquanto desejo que a sua história seja compartilhada por muita gente. Ela é um grito de inconformidade com a miséria existente e um convite à reflexão. E também à ação.  Ela é, igualmente, um abraço solidário e amoroso do meio de tantas injustiças.

 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Quem perdeu conhece


Hoje é véspera de 7 de setembro. Dia de apreensão. Em apreensão estamos vivendo há alguns anos,  porque o governo perverso que se apossou do país não desiste de provocar e fazer crueldades.

Hoje, no entanto, eu não quero ceder à chantagem da turma do mal que mais dia, menos dia, cairá no lixo da história. Nem quero pensar nos estragos já feitos. Nem quero perder energia em me angustiar com tudo o que tem acontecido diuturnamente, ou no que poderá acontecer amanhã. Não chamarei más energias, como costumamos dizer entre nós, os amigos mais próximos.

Quero, sim,  relembrar algumas das letras que fazem a alegria de quem as ouve. Quero mergulhar nas palavras que falam de tudo o que de melhor existe no ser humano.  São muitas as canções que falam da alegria de viver, do querer bem, do estar junto do outro, da esperança de um novo dia. É nisto que quero mergulhar. De tudo o que já ouvi, pincei apenas alguns versos, uma pequena amostra da beleza criada, mas suficiente para embalar nosso desejo de que o mundo seja um berço amoroso, não precisa ser esplêndido.

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver /Quero a primeira estrela que vier /Para enfeitar a noite do meu bem. Caminhando contra o vento /Sem lenço e sem documento. Apesar de você /Amanhã há de ser /Outro dia. Se mi guardi con gli occhi dell'amore /Non ci lasceremo più. A paz invadiu o meu coração /De repente, me encheu de paz. Vedi caro amico cosa si deve inventare /Per poter riderci sopra /Per continuare a sperare.

De qualquer maneira, aconteça o que acontecer (que a maldade encontre obstáculos, que prevaleça a razão e a justiça), continuemos a defender as artes, a ciência, a filosofia, para seguir adiante e avançar para um mundo melhor.

                Por isto deixei para o final os versos de uma música que os brasileiros que viveram na ditadura, perderam alguém próximo naquele tempo, ou se solidarizaram com quem perdeu conhece, ouviu e cantou em algum momento:

A esperança equilibrista

Sabe que o show de todo artista

            Tem que continuar.