sábado, 7 de agosto de 2021

A cultura nos diferencia


 

Descarto muitas  das informações diárias (já separadas das falsas notícias). Fico com aquelas que me ajudam a exorcizar a sensação de impotência. Sempre tem alguma coisa que se pode fazer sem esperar resultado, apenas por uma questão de ética, como já escrevi em outro texto, inspirada em palavras da jornalista Eliane Brum. Mesmo assim, nem sempre consigo responder à pergunta: O que posso fazer?

Então, lembro uma entrevista do Lázaro Ramos, por quem tenho uma enorme admiração e respeito: Apesar de tudo, não se pode cansar – disse ele. Antes disso, havia escrito  Na Minha Pele, um retrato do que acontece na sociedade brasileira em relação ao racismo. Em nenhum momento, há comiseração ou sentimento de derrota. Há a palavra de um homem digno que sabe o que ele e os de sua origem sofrem no país. Continua sua luta e resistência em diferentes frentes.  Procuro livrar-me do cansaço.

            Então, assisto a aulas sobre História da Arte com o André Dorigo, sua mensagem forte sobre o poder da arte para aceitar diferenças. A arte como criação de tantos estilos ao longo de toda a história da humanidade. Tantas expressões artísticas, em tantos lugares da Terra, sob as mais diversas situações. O ser humano é diferença, produz diferença, encanta na diferença. Reforça minha crença no poder da arte.

Então, participo de encontros sobre literatura com Rodrigo Barreto. O vasto e profundo conhecimento, que ele transmite com paixão, nos envolve no mundo de Machado de Assis, de Clarice Lispector e de tantos outros escritores brasileiros. A literatura como meio para compreender a produção da subjetividade. Um bom texto, uma boa história, nos faz compreender o ser humano em suas contradições. Esta é uma fonte inesgotável de elementos que contribuem para a aceitação do outro, para derrubar preconceitos. Continuo a desmascarar meus preconceitos disfarçados.

Então, ouço Guto Leite que me leva a passear dentro de uma obra para olhar as raízes entrelaçadas com outras obras e outros pensamentos. É como seguir por uma trilha onde podemos desvendar mistérios a todo momento. Um mundo de encantamento povoado por narradores de histórias com as quais podemos nos cotejar e aprender. A paixão pelo que sabe, e compartilha, é contagiante. Recupero minha crença no poder da palavra.

Então, assisto os encontros com Gustavo Czekster. Sinto-me levada pela mão para entranhar nos contos de tantos escritores, alguns conhecidos, em horas de deleite com a criação de narrativas as mais diversas. Um mundo que se mostra nas mais diferentes formas. Um mundo de criação que me distancia do arbítrio, da pequenez, do supérfluo. Confirmo minha paixão pela leitura e seu poder sobre mim.

Então, ouço Thiago Rodrigues que fala sobre a Mitologia Grega e os diferentes filósofos, sua importância e suas ramificações no pensamento contemporâneo. Os questionamentos que eles propiciam sobre os acontecimentos hodiernos, o peso que eles têm na formação de um pensamento crítico e independente, apesar das barreiras que o modo de viver consumista e alienado ergue ao redor de nós. A Filosofia há de voltar aos currículos escolares. Sabe-se porque foi retirada.

Fico por aqui, com uma amostra dos acessos on-line em período de distanciamento. Comprovei que milhares de pessoas, muitas delas jovens, fazem o mesmo. Há um mundo fervilhando com pensamentos e energias vitais que disputam palmo a palmo o território que começou a ser tomado por ondas de ódio e de destruição.  No início, a maioria parece ter sido tomada de surpresa. Pouco a pouco, as reações se fizeram presentes e continuam a se multiplicar em diferentes frentes: política, movimentos sociais, imprensa alternativa, manifestações nas ruas, denúncias internacionais. Quero acreditar que nem tudo está dado, apesar de vivermos numa montanha russa sem descanso.

O fascismo nunca deixou de existir lá fora e aqui, dissemina mentiras e ódio, demoniza a política como instrumento de representação, nega a ciência e mata a cultura. Mas os exemplos acima me fazem seguir, lembrando Pedro Serrano “O fascismo ganha, quando ele consegue fazer-nos iguais a ele”. A cultura nos diferencia, ela é que vai atuar como um poderoso antibiótico contra a infecção virulenta que acometeu o Brasil. É preciso um coquetel de medicamentos para curar o país neste momento. A cultura usa o seu.