A cada texto que
leio, descubro algo que se encaixa num todo já apreendido, mas cheio de buracos.
Os buracos vão sendo preenchidos. Mas, à medida que alguns somem, outros
aparecem e o espaço de conhecimento produzido transforma-se, as cores tornam-se
mais vivas em algumas partes, caem sombras em outras, num movimento
ininterrupto que nunca se completa.
Li 1984 de
Orwell anos antes daquele premonitório. Foi um susto. Não lembro de pensar, no
entanto, quanto o que estava acontecendo naquele momento e que estaria servindo
para construir o futuro ali descrito. Então, eu punha em dúvida que o autor
quisesse falar somente das sociedades sob o jugo dos totalitarismos “comunistas” como alguns críticos escreviam. Eu
era jovem e não era militante de qualquer movimento de resistência à ditadura dos
anos sessenta e início dos setenta. Por circunstâncias familiares, na
juventude, não convivi com análises e compartilhamentos de informações
políticas no círculo de amizades no interior onde vivia.
Posteriormente,
na capital do Estado, vivi o cotidiano de jovem professora em escola pública,
onde a Moral e Cívica e o OSPB substituíram a História. Filosofia e Sociologia haviam sido excluídas.
Criticava-se, mas sabia que não devíamos falar “certas coisas”. O ufanismo da
transamazônica só fui desmascará-lo mais tarde, bem como o uso da vitória do
futebol em 1970 para dissipar as sombras do terror exercido pelo governo. Sabia
o que estávamos vivendo, mas como algo do qual, de certa forma, eu não fazia
parte. Eu não estava sendo atingida diretamente pela repressão, assim eu me
dizia na época, apesar do cerceamento de informações na escola. Eu sabia e não
sabia, não percebia o que se estava construindo, e que poderia explodir no
futuro.
Hoje, depois de ter
analisado, discutido, duvidado, questionado os diferentes tempos vividos,
encontro-me de regresso àquele temor. Mas é uma angústia por algo ainda mais
temível do que 1984 nos apontava. A cada manhã, quando leio as notícias do país.
Pergunto-me se o caminho de uma distopia não estará traçado. Lembro do nazismo, do fascismo, da última
ditadura aqui vivida. Todos esses ismos deram amplos sinais de nascimento e
crescimento. E grande parte da sociedade negou todos eles mesmo que gritando diante
de seus olhos e ouvidos.
“Sociedade do
espetáculo”, “sociedade líquida”,
“política como espetáculo”, “pós-modernidade”, “pós-verdade”, “fakenews” e outras narrativas permitem explicar e como
a subjetividade se produz nos diferentes lugares sociais. Nada, no entanto, ajuda
a suportar atos individuais que nos agridem no cotidiano.
Detenho-me no
último que testemunhei. Uma senhora da alta sociedade, tratando-se num salão de
beleza - onde entrei depois de meses - comenta exultante que irá prestigiar a
motociata do presidente junto à imprensa credenciada, no dia seguinte. Afinal,
disse, “tivemos 3 milhões de doses de vacinas ministradas no dia anterior” e,
também, “milhões já foram curados”. Este era seu mundo. Não falou de centenas
de milhares de mortos, nem de apenas pouco mais de 10% da população brasileira imunizada
com duas doses de vacina. Ponto. E seguiu a conversa com futilidades.
Aquela mulher estava
feliz. O que mais me atingiu não foi o conteúdo distorcido, foi o tom jocoso,
alegre, despreocupado de uma adolescente despreocupada que vai a uma festa com
amigos. Continuou assim, quando sussurrou que o filho não gostava que ela se
metesse “nestas coisas”, com uma expressão de alguém que faz uma arte,
desobedece, mas sem grande importância. “Nestas coisas” estaria um possível prejuízo para os negócios,
mas nada atrapalhava a leveza e descontração dela.
Infelizmente, o
comportamento desta mulher não é uma exceção. Perdi a conta de quantos já
presenciei. As notícias diárias o atestam, mas procuro não pensar nelas para
não adoecer. É o comportamento recorrente de quem acha que ter acesso a tudo, e
em excesso, é um direito natural, ou, mais do que isto, é uma questão de
mérito. Diante da miséria que atinge milhões de seres humanos no país, ver esta
mulher é enxergar nossa sociedade falida, é desesperar-se diante da tarefa de
mudá-la. É voltar às perguntas para as quais não tenho resposta, é acessar uma
dor que já se tornou insuportável e trato de silenciá-la para poder seguir.
Como tenho
continuamente feito, no entanto, depois de mais um choque, volto a lembrar
todas as vozes que se levantam contra o que está ocorrendo. Volto a me conectar
com as muitas formas de resistência que têm sido geradas pela indignação e pelo
não conformismo. Esforço-me.
Apesar de meu
esforço, os antigos temores me falam: ainda haverá tempo para compreender e
realizar o que é preciso para evitar as inúmeras antecipações que a literatura
produziu? Aquela mulher seria um dos sinais da sociedade distópica se
expandindo? Dentro de mim a dúvida agarra-se ao não.