domingo, 20 de junho de 2021

Nossas papoulas

 

 

Recebo o vídeo com o depoimento de um agricultor. Não planta mais a terra que cultivou por dezenas de anos no interior do Estado. É um remanescente da região que foi sendo tomada aos poucos pela monocultura de eucaliptos para a celulose. O país é um grande exportador de celulose. A terra, que aquele agricultor ama e não quis abandonar, foi esgotada, sacrificada, exaurida de seus nutrientes, não pode mais ser cultivada.

Essa realidade é a de qualquer região que tenha trocado seus diversos cultivos pela monocultura de eucaliptos. Depois de esgotada, vão-se também os eucaliptos. Resta o nada. Há anos foi denunciado processo de desertificação no interior com o desmatamento acelerado.

Leio sobre o próximo acordo entre EU e Mercosul, ao qual o Brasil pertence, e que resultará em venda no país de mais agrotóxicos proibidos na Europa. Ainda consigo ficar estupefata diante do crime contra a população brasileira. Nem todos poderão se mudar para Miami.

            Uma forma de resistência a tudo isto está no cultivo de orgânicos liderado pelo MST e por pequenos agricultores. À margem das monoculturas direcionadas mais ao mercado externo, conseguem sobreviver apesar dos ataques sofridos desde sempre.

            Há poucas semanas, incursões de aviões despejando nuvens de agrotóxicos sobre um assentamento do MST no interior do Estado mostraram a que ponto está chegando  a ousadia dos ataques. Atingiram diretamente plantios, pessoas e animais. Um crime contra a vida sem nenhum disfarce, porque quem o pratica aposta na impunidade. É provocar doenças que matam. É assassinato programado. O mal está feito, mas torço para que o processo na justiça resulte em medidas de proteção eficiente para quem manda produtos saudáveis para a mesa do cidadão. Torço por justiça, apesar de saber que essas ousadias sentem-se autorizadas pelos horrores praticados pelo próprio presidente do país que continua sua cruzada genocida sem que ninguém o detenha.

Por um lado, exaurimos a terra. Por outro, a envenenamos. E, ainda, lideranças que fazem frente a tudo isso são assassinadas com frequência. Esta é uma história antiga que se atualiza sempre.

Apesar de tudo, no dia do trabalhador houve entrega de produtos orgânicos do MST para quem tem fome em várias cidades. Fome que recrudesceu em tempos de pandemia. Imagens de distribuição de alimentos deram uma mensagem forte de que os agricultores, além de não se renderem, ajudam quem mais precisa.

Isto me faz lembrar uma afirmação ouvida numa viagem ao interior da Itália. “Onde existem papoulas não há agrotóxicos”. Pude ver muitos campos de trigo enfeitados de corolas vermelhas. Alguns eram uniformemente amarelos. As cores estavam denunciando que a terra estava sendo tratada de forma, no mínimo, diferente.

Aqui, nossas papoulas são os assentados e pequenos agricultores. Minha gratidão a eles manifesta-se em ter presente sua história e contá-la para que não seja esquecida, comprar seus produtos e em me aliar às suas lutas por justiça. Tenho amigos entre eles e me comovo com sua capacidade de trabalho que acompanho há cerca de trinta anos.

O trabalho na terra, cuidando para que não seja contaminada, para que permaneça fonte de alimentos orgânicos é um dos bastiões para salvar, não só o país, mas o planeta, da voracidade autodestrutiva de quem só vê o lucro diante de seu nariz. Este argumento deve ser suficiente para que procuremos saber onde estão “nossas papoulas” e os alimentos saudáveis. Além de ser em nosso benefício, as gerações futuras agradecerão.

terça-feira, 8 de junho de 2021

O começo é este


 

Inacreditável, obsceno, intolerável são algumas das palavras que me ocorrem ao ler a notícia acerca da publicação da foto da filha de cinco anos de Manuela D’Ávila nas redes sociais. O sentimento de horror foi tão forte que precisei afastar-me do acontecido por alguns dias para poder escrever.

            Manuela é uma figura pública, dedicada à política desde jovem, fez sua opção por um partido, foi eleita para diversos cargos e possui grande quantidade de eleitores que a acompanham. Tudo isso é passível de discutir, aceitar, elogiar ou criticar. Tudo isso pode ser feito de forma ética. Não tem sido assim, infelizmente. Para falar apenas sobre a última eleição à Prefeitura de Porto Alegre, sofreu ataques e baixarias misturados a mentiras tão estapafúrdias e aviltantes que só a ignorância mais absoluta e a maldade mais inimaginável poderiam produzir. E saltou dos adversários, especialmente de quem venceu a eleição.

Manuela, no entanto, é mulher e mãe antes de tudo. Ela já sofreu ataques mesquinhos também na sua vida privada. E graves. E com mentiras também. A mentira parece ser o nutriente fundamental desta fatia da população que só sabe se manifestar com ódio. Já se viu que para esta gente a palavra limite não existe. Mas o último ataque ultrapassou toda e qualquer noção de civilidade. É a barbárie em sua potência devastadora. E a origem partiu de outra mulher, de outra mãe. Mulher e mãe que se pressupõe tenha boas condições de vida, acesso a informações,  e pertencente ao mesmo grupo de mães da escola da filha de Manuela.

A pergunta que grita é POR QUÊ? Como pode uma mulher nestas condições valer-se da proximidade que uma escola infantil propicia e e iniciar a distribuição de uma foto nas redes sociais? E repeti-la. Que sentimentos estão por trás disto? Raiva? Com que propósito? A mulher que usou desta artimanha previu a onda de ataques que mãe e filha sofreriam? Se não previu, ela tem que ter suas condições cognitivas e psíquicas avaliadas. Se, sim, confirma uma maldade que não dá para ignorar. De qualquer modo, deve ser responsabilizada pelos seus atos e sofrer as medidas legais existentes.

Nem vou entrar no que aconteceu nas redes sociais por pudor.

Importa-me o que Manuela D’Ávila escreveu para esta mãe. As palavras e sentimentos expressos confirmam sua superioridade moral e ética. Sem despejar rancor, deseja que não aconteça o mesmo com o filho dela e que frequenta a mesma escola infantil. As palavras de Manuela refletem sua longa caminhada na denúncia da violência política de gênero no Brasil e em defesa do amor e da liberdade. Sem falar no seu protagonismo enquanto vereadora, deputada estadual e deputada federal, quero destacar os dois últimos livros: Sempre Foi sobre Nós (organizado por ela)  e Por Que Lutamos? de sua autoria. Os textos nos levam a refletir sobre nossa inserção social, nossas responsabilidades e apontam caminhos para a construção de uma sociedade em que haja respeito ao outro para que possam florescer os sentimentos mais dignos. Caminho difícil em função de tantas experiências e tantas histórias denunciadas. Ali não há lugar para agressões ou ódio. Ali há denúncia e a opção por outro caminho.

Manuela D’Ávila me representa e agradeço por ela não desistir. Como eu, há incontáveis mulheres junto a ela, mesmo que, às vezes, suas vozes sejam um sussurro e venham de lugares distantes. O desejo de um mundo melhor prevalecerá, enquanto mulheres como Manuela e tantas outras se aliarem nas mesmas lutas e se empoderarem solidariamente para penetrar em todo o tecido social.

Como mulher e como mãe, também uno-me à Manuela no desejo de que aquela mãe reflita sobre o mal que ela causou. Tomara. O começo é este.