segunda-feira, 24 de maio de 2021

Fazer sem acreditar, o caminho deve sempre recomeçar

 

 

Neste período de distanciamento (ao menos para quem se sente responsável por si e pelos outros), algumas palavras chegam com mais potência e se reproduzem, e se espalham como marolas na beira de um lago, como agitação das folhas nos galhos sobre as árvores no desvario do vento, como ecos entre montanhas. Em incontáveis momentos qualquer um de nós pôde comprovar que a palavra é movimento, é força, é fonte de impulsos contra a estagnação e o desânimo. Infelizmente, há também quem a prostitua.

Em diferentes situações dos últimos anos, bem antes da pandemia, quando começaram a arrastar o país para o atraso e o negacionismo com a deposição da presidenta eleita democraticamente, meu coração  quis se desfazer e não mais pulsar como na poesia de Eugenio Montale em 1919. Mas, também, como na poesia: E sentes então, / mesmo se te repetem que podes / parar em meio do caminho ou em alto mar, / que não há pausa para nós, / mas estrada, ainda estrada, e que o caminho deve sempre recomeçar.*

Então volto a pensar que os infortúnios são companheiros na longa ou curta passagem pela vida de todos nós. Cada um tem sua própria medida de resistência diante deles, seu próprio tempo de elaboração. Os efeitos também são únicos como cada sujeito é único, porque não há uma vida sequer igual à outra. A vida é diferença e produz-se na diferença.

Lembro também do antídoto ao esmorecimento, a busca da similitude no outro, a dos amigos que vibram nas mesmas alegrias e sofrem as mesmas tristezas. O convívio com quem confiamos e podemos falar de nossos temores e angústias é suporte fundamental para pensar, repensar, construir alternativas, encontrar pontos de apoio como numa escalada que damos por impossível. De novo o poder da palavra, seja ela escrita, ou dita, ou sussurrada. Ela é ar puro que limpa nossos pulmões das desistências.

Os amigos que nos socorrem nem sempre são as pessoas que conhecemos e convivemos há mais ou menos tempo. Às vezes é o poeta cujos versos sorvemos com ânsia, como escrito acima. Outras vezes é um jornalista que está em linha de frente, onde nós não podemos estar, mesmo que tivéssemos vontade de estar. Muitas leituras tiveram a força de me impedir da desistência e fui agradecida por isso como se agradece a um amigo próximo. São todos amigos do mundo em defesa da vida.

Sei que continuam a existir outras e muitas narrativas que permitem não soçobrar. Felizmente. É imprescindível que assim seja. Agora, quero destacar um pequeno trecho de Eliane Brum, mulher e jornalista que admiro muito e, através dela, quero homenagear todos aqueles que continuam a usar sua palavra para que o país volte ao caminho da construção de uma sociedade mais igualitária: Talvez tenha chegado o momento de compreender que, diante de tal conjuntura, é preciso fazer o muito mais difícil: criar/lutar mesmo sem esperança. Teremos que enfrentar os conflitos mesmo quando sabemos que vamos perder. Ou lutar mesmo quando já está perdido. Fazer sem acreditar. Fazer como imperativo ético.** Isto foi escrito em 2015 e houve momentos em que hoje é mais necessário, se é que se pode afirmar um mais.

Muita coisa tem acontecido nos últimos meses. Sem querer iludir-me, talvez possamos escrever que o enfrentamento que se dá no país hoje fez alterar a correlação de forças e fez nascer uma tímida e frágil esperança. De qualquer forma, é preciso continuar a fazer mesmo sem acreditar, porque o caminho deve sempre recomeçar.

 

* E senti allora,

se pure ti ripetono che puoi

fermarti a mezza via o in alto mare,

che non c’è sosta per noi,

mas strada, ancora strada,

 

e che il cammino è sempre da ricominciare.

 

Trecho de A galla – Eugenio Montale in Poesie Scelte (poesia escrita em 1919)

 

** Eliane Brum em El País, dezembro de 2015 e citado por ela no livro Brasil Construtor de Ruínas em 2019

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Titubeio

 

E enquanto marchavas com a alma nos ombros

Viste um homem no fundo da vala

Que tinha o teu mesmo, idêntico, humor

Mas a farda de uma outra cor

 

Fabrizio De Andrè

(Letra completa ao final do texto)

 

            Esta música de De Andrè emociona-me toda vez que a ouço, como se fosse a primeira. É um lamento e uma homenagem ao soldado que tomba, símbolo dos milhões que foram sacrificados e continuarão a sê-lo em inaceitáveis e odiosas guerras.

            Faz-me pensar na morte em sua infinidade de manifestações, principalmente nos dias de hoje. O soldado titubeou, porque, mesmo na guerra viu outro homem como ele, embora a farda fosse do inimigo. Este instante, em que sua humanidade impediu-o de disparar, custou-lhe a vida. Mas ganhou não ver o olhar de um homem que morre por suas mãos. Não há titubeios nos que decidem as guerras e seus fornecedores de armas.

            A imagem de seu repouso sob a terra onde cresceram papoulas vermelhas faz pensar em gratidão da natureza. Não sei se esta foi a intenção do autor. Não importa. Importa os sentimentos que ela transmite. Sentimentos que não são de rancor ou de vingança porque o outro executou a ordem recebida. Sentimento de tristeza por uma jovem vida interrompida, tristeza de quem o esperava de volta, tristeza pela inutilidade daquela guerra. De qualquer guerra. Gratidão por não se render ao embrutecimento do ato de matar o outro, mesmo que lhe custe a própria vida.

            Hoje, impera um sentimento de banalização da vida. Há uma potência de morte tão generalizada no país – embora com núcleos de concentração em vários espaços do planeta –, que faz questionar as crenças sobre tudo o que se aprendeu até agora sobre o gênero humano.

            As imagens de mortes que poderiam ser evitadas são continuamente veiculadas contaminam e emporcalham o olhar. E o coração. Não há titubeio, não há dúvida, não há pesar, há apenas o desejo de morte por parte de quem nos governa.

Imagens e notícias em tempo real nos colocam a todo o momento numa realidade que se está tornando cada vez mais insuportável. Se é que existem graus de insuportabilidade. E, no entanto, acabamos apagando-as, mesmo que temporariamente para alguns. E continuamos a comer, a fazer exercícios na academia, a dormir, a acordar e a repetir a rotina diária. Afinal, para que nascemos e vivemos? Cuidamos dos nossos filhos e netos. Agradecemos poder fazê-lo. E os filhos e netos dos que não podem ser cuidados? E os filhos e netos que são assassinados nas periferias porque nasceram ali e não noutro lugar? A impotência diante desta realidade acaba gerando um isolamento dolorido, extenuante, autopunitivo, mas aceito para poder sobreviver. As mentes são exigidas a justificar as próprias escolhas, a buscar sentido para o que ocorre, a encontrar motivos para os fatos jogados na cara a todo o momento. Estas exigências comparecem nas doenças do corpo impotente para fazer outra coisa, seguir outro caminho, ser capaz de interferir, mudar os rumos. Um corpo impotente adoece.

            A impotência recebe um contínuo adubo no conhecimento das crueldades dos que governam nosso país, e dos que continuam a apoiá-los, cujo resultado são centenas de milhares de mortos durante a pandemia. Muitas delas evitáveis, se a equipe do (des)governo tivesse tomado medidas adequadas a tempo. E não o fizeram por opção, não por desconhecimento. São mortes que cobram um preço impagável enquanto sociedade composta por boa parte de apoiadores insanos, boa parte de indiferentes, boa parte de omissos e uma parte que se contrapõe, mas com algumas vozes que querem a primazia de seu modo de ver e combater a situação e não encontram uma forma de se unir. Juntas, seriam uma força poderosa.

            É uma pena que aqui exista o titubeio em reconhecer que o desejo de morte do outro é o real inimigo comum. Tomara que o egocentrismo murche e aqueles que veem e sofrem a dor do outro se unam o mais rápido possível. Não queremos campos de flores a nos lembrar mortes inúteis. Enquanto isso, repetiremos à exaustão. Basta de genocídio.

           

A Guerra De Piero – Fabrizio De Andrè

 

Dormes sepultado em um campo de trigo

Não é a rosa, não é a tulipa

Que te velam da sombra dos fossos

Mas são mil papoulas vermelhas

 

Ao longo das margens do meu rio

Quero que desçam os peixes prateados

E não mais os cadáveres dos soldados

Levados pelos braços da corrente

 

Assim dizias e era inverno

E como os outros, na direção do inferno

Tu vais triste como quem deve

E o vento te cospe, na face, a neve

 

Para Piero! Para agora!

Deixa que o vento passe um pouco por você

Dos mortos em batalha, te levas a voz

Quem deu a vida ganhou em troca uma cruz

 

Mas você não o ouviu e o tempo passava

Com as estações a passo de Java

Até que chegaste a atravessar a fronteira

Em um belo dia de primavera

 

E enquanto marchavas com a alma nos ombros

Viste um homem no fundo da vala

Que tinha o teu mesmo, idêntico, humor

Mas a farda de uma outra cor

 

Dispara-lhe Piero! Dispara-lhe agora!

E depois de atingi-lo, dispara-lhe novamente!

Até que tu não o vejas, exausto

Cair na terra a cobrir o seu próprio sangue

 

E se dispara-lhe na fronte ou no coração

Possuirá apenas o tempo para morrer

Mas restará, para mim, o tempo para ver

Ver os olhos de um homem que morre

 

E enquanto lhe dedica esta atenção

Aquele volta-se, te vê e tem medo

E abraçado à artilharia

Não te retribui a cortesia

 

Caíste por terra sem um só lamento

E te dás conta em um só momento

Que o tempo não te havia bastado

Para pedir perdão por cada pecado

 

Caíste por terra sem um só lamento

E te dás conta em um só momento

Que a tua vida terminava aquele dia

E não haveria retorno

 

Ninetta minha, morrer em Maio (na primavera)

Requer tanta, coragem demais

Ninetta bela, direto para o inferno

Haveria preferido partir no inverno

 

E enquanto o trigo te estava a ouvir

Com as mãos apertavas um fuzil

Dentro da boca apertavas palavras

Geladas de mais para derreterem-se ao Sol

 

Dormes sepultado em um campo de trigo

Não é a rosa, não é a tulipa

Que te velam da sombra dos fossos

Mas são mil papoulas vermelhas