sexta-feira, 26 de março de 2021

Chega de silêncios

 

O navio saiu de Gênova e fez algumas paradas antes do desembarque no porto de Santos onde meu pai estaria nos esperando. Ele havia emigrado meses antes.  Os passageiros costumavam aproveitar e descer para visitar o local onde o navio atracava. Não lembro de muita coisa destas paradas, mas, sim, da penúltima no Rio de Janeiro. Ouço minha mãe dizer algo como: “Cheguei até aqui com dois filhos (eu e meu irmão), não quero que me aconteça nada, não vou descer, tem muitos negros aqui.” Foi meu primeiro registro da existência destas pessoas diferentes de nós. E a relação com o medo. Nunca soube, nem nunca conversamos a respeito disto, do motivo ou motivos de seus temores.

Em Caxias do Sul há poucos meses, como fazia na pequena cidade de onde eu tinha vindo, saí para brincar na rua, então com muito pouco movimento. Eu, curiosa e ainda sem ter começado a ir para a escola, acostumada a brincar no pátio existente nos fundos da casa onde nasci, agora, andava nas vizinhanças pela calçada. Seguia os conselhos de minha mãe, ficava por perto, afinal, estávamos numa terra ainda estranha. Procurava alguma pedrinha ou folha, olhava as casas muito diversas das que eu conhecia, saltitava nos retângulos de pedra sem pisar nas linhas que as delimitavam – mais tarde aprenderia o jogo de bidra ou amarelinha –, vivia num mundo despreocupado. Era um tempo feliz. Num daqueles saltos, concentrada no cálculo para o próximo pulo, torci um pé ao tentar me equilibrar. Ao erguer os olhos, paralisei por uns instantes, depois girei sobre mim e voltei correndo para dentro de casa, ignorando a dor e gritando por minha mãe. Ofegante, consegui dizer que tinha visto um homem muito escuro, preto, os olhos grandes, vermelhos.

Esta cena me acompanha até hoje. Foi meu primeiro contato com um negro. Na Itália daquela época não havia negros, ao menos onde eu vivia. Não lembro o que minha mãe me disse, imagino que nada esclarecedor, mas esta lembrança sempre vem junto àquele fato ocorrido na viagem.

Em minha formação escolar e universitária, nada conservo de muito significativo com relação à questão racial. Especialmente na formação superior, muitos intelectuais foram banidos. E muitas obras também. Era a época da ditadura. Numa sociedade predominantemente branca com origens europeias, a superioridade sobre o povo negro era uma questão dada. Eu me sentia italiana no meio de uma sociedade de descendentes de italianos que se diziam também italianos. Nas décadas de 1950/1960 havia poucos sobrenomes na cidade que não fossem italianos. Tínhamos a influência cultural dos meios de comunicação, principalmente a televisão, com todos os seus estereótipos. Então, fui formando uma crença de superioridade não só sobre o povo negro, mais por omissão (pouco estudamos e os escravos negros e mesmo sobre os índios nativos da região) do que por afirmação. Os preconceitos foram sendo interiorizados silenciosamente. Foram se tornando uma questão muitos anos mais tarde, quando já professora em outra cidade.

Lembro que me surpreendi quando um colega chamou a atenção sobre nosso racismo em afirmações do tipo “negrinho educado”, “apesar de negro, ele é...” e várias outras opiniões que emitíamos cotidianamente sem questionar. Aos poucos, fomos encarando também os preconceitos a outras etnias, a grupos minoritários e com diferenças daquilo que aceitávamos como o “normal” e o “certo”. O caminho para a construção de novos conceitos, e da coerência entre o discurso e a prática, foi longo e continua a exigir minha atenção.

A lembrança desta parte de minha história vem num momento em que estão emergindo no país reações de intolerância e de ódio numa intensidade assustadora. Conceitos privados de qualquer embasamento racional nos suscitam incredulidade e assombro. Felizmente, são veiculadas inumeráveis análises e teorias, mas que chegam àqueles que têm olhos e ouvidos para pensar sobre os outros e sobre si mesmos. No entanto, grande parte da população reage imune ao discurso da ciência e da razão e mostra uma identidade amorfa, sem raízes com a sua terra e sem orgulho por sua história, facilmente cooptada por discursos ilusórios e modelos aberrantes.

Diferentemente da época em que cheguei aqui e da época em que me formei como professora no interior, os silêncios estão sendo preenchidos há muito tempo. Talvez, a balbúrdia de muitas vozes de hoje possa até confundir, mas é no confronto entre elas que deverá surgir outro mundo. E torço para que vençam aquelas que gritam por um mundo onde seja reconhecida a história dos indígenas que aqui existiam, e seu contínuo extermínio; a dos negros escravizados e depois abandonados na sua dita libertação. E que as outras vozes parem de se espelhar apenas nos europeus, recebidos por uma terra generosa e nem sempre respeitada. E, mais hodiernamente, parem de mimetizar os americanos no norte. Encarar a história da formação do país cujas belezas culturais e tudo o que conseguimos produzir são resultado da potência da miscigenação é o caminho contra a ignorância e o enfrentamento de privilégios.

No entanto, é preciso continuar, continuar, continuar a gritar tudo isso, porque no meio de tantas vozes há a tentativa cíclica de instaurar novos silêncios.

 

 

sábado, 6 de março de 2021

Guiado por um poeta


Desde muito longe no tempo, a leitura tem sido um refúgio para serenar-me, ou, ao menos, para ter um tempo de suspensão das inquietudes que me atormentavam. Ela continua a ser a companheira que não me deixa desesperar.

Li todos os gibis da época de minha infância. Não eram muitas as publicações, conhecia-as todas, ao menos aquelas que chegavam ao interior onde morava. As histórias dos personagens da Disney povoaram minha cabeça e alimentaram meu desejo de outros lugares. As aventuras de Fantasma, Roy Rogers, Rin tin tin, Mandrake, Rocky Lane, Superman, Tarzan e vários outros foram minha literatura constante. Claro, posteriores e paralelas às fábulas tradicionais. A minha preferida era a de Branca de Neve. Talvez tenha sido porque foi o primeiro filme colorido que assisti, ao qual se seguiu o primeiro álbum de figurinhas. Até hoje revejo mentalmente algumas cenas e, embora com um olhar atualizado e crítico, ainda gosto delas. Até meus netos sabem de minha preferência, e serviu sempre de cumplicidade entre nós. Três deles já estão crescidos, então, este vínculo é  lembrado mais com a neta de quatro anos. Seus olhos brilham quando conta qual história a avó mais gosta.

Depois, na adolescência, vieram os romances nas fotonovelas: Capricho, Noturno, Você. Vivi muitas histórias de amor naquelas esperadas revistas semanais e nos romances ditos cor de rosa. Eram os primeiros anos da televisão, ainda sem as telenovelas nacionais. Existiam as radionovelas no começo da noite, antes da janta.

            Agradeço à diversidade de leituras pelo gosto por permanecer horas a fio concentrada em milhares de palavras que me levaram a tantos e diversos mundos. Agradeço também às leituras desde criança, que foram um tempo preparatório para a descoberta dos clássicos. Assim, até hoje, viajo aos lugares mais distantes pela mão de muitos e maravilhosos escritores, apesar da pandemia. Ou melhor, apesar dela. Ou, ainda, também por causa dela.

            Reafirmo que foi pelos degraus dos primeiros textos simples, que fiquei presa à necessidade de ler e de escrever. Eles me viciaram no sabor de um livro ao me aventurar no meio de suas páginas. Aventura não significava apenas prazer e leveza, muitas vezes, os temas foram pesados e doloridos. De qualquer forma, o mundo foi me invadindo em sua complexidade e com as suas diferenças. Tenho certeza de que isso contribui substancialmente para que não me detenha diante de uma informação sem cotejá-la com outras informações, sem que o conhecimento adquirido ao longo da vida venha em auxílio para meu próprio juízo.

            É claro que o conhecimento não depende apenas da leitura da palavra. Existem as condições de vida e uma leitura de mundo que a precede. Elas se entrelaçam. Por isso, a angústia me chega toda vez que vejo disseminadas tantas idiotices, tantos rancores, tantas distorções e milhões de frases desconexas e preconceituosas nas redes sociais. Ininterruptamente. Elas mostram a inexistência de uma trajetória de busca de conhecimento acumulado pela humanidade que nos é dado pelos livros, pelo estudo, sejam eles em papel ou, hoje, num suporte virtual. Sejam eles científicos ou literários. Porque a leitura conduz necessariamente a trocas e à expansão do que somos. E, com esta expansão, teremos boas chances de separar o joio do trigo, de ter ferramentas para derrubar barreiras de preconceito e de injustiça.

            Então, se não houvesse fome no país, a cesta básica poderia incluir um livro. Se os fabricantes de armas passassem a produzir livros e se fosse obrigatória uma livraria junto a cada farmácia. Se à educação fosse reservado lugar fundamental de verdade, com bibliotecas cheias de livros. Teorias diversas, pontos de vista diversos, histórias diversas, temas diversos. Com certeza não estaríamos na situação atual.

Estamos na travessia de um inferno. Quem pode procure a companhia de um bom livro, enquanto une esperanças e esforços na luta para salvar o que não foi ainda destruído no país. Hoje, tornou-se mais urgente ainda salvar vidas.

Dante foi guiado pelo poeta Virgílio para chegar ao paraíso. Deixemos nos levar por tantos e maravilhosos escritores que podem nos ajudar a resistir.