O navio saiu de
Gênova e fez algumas paradas antes do desembarque no porto de Santos onde meu
pai estaria nos esperando. Ele havia emigrado meses antes. Os passageiros costumavam aproveitar e descer
para visitar o local onde o navio atracava. Não lembro de muita coisa destas
paradas, mas, sim, da penúltima no Rio de Janeiro. Ouço minha mãe dizer algo
como: “Cheguei até aqui com dois filhos (eu e meu irmão), não quero que me
aconteça nada, não vou descer, tem muitos negros aqui.” Foi meu primeiro
registro da existência destas pessoas diferentes de nós. E a relação com o
medo. Nunca soube, nem nunca conversamos a respeito disto, do motivo ou motivos
de seus temores.
Em Caxias do Sul
há poucos meses, como fazia na pequena cidade de onde eu tinha vindo, saí para
brincar na rua, então com muito pouco movimento. Eu, curiosa e ainda sem ter
começado a ir para a escola, acostumada a brincar no pátio existente nos fundos
da casa onde nasci, agora, andava nas vizinhanças pela calçada. Seguia os
conselhos de minha mãe, ficava por perto, afinal, estávamos numa terra ainda
estranha. Procurava alguma pedrinha ou folha, olhava as casas muito diversas
das que eu conhecia, saltitava nos retângulos de pedra sem pisar nas linhas que
as delimitavam – mais tarde aprenderia o jogo de bidra ou amarelinha –, vivia num
mundo despreocupado. Era um tempo feliz. Num daqueles saltos, concentrada no
cálculo para o próximo pulo, torci um pé ao tentar me equilibrar. Ao erguer os
olhos, paralisei por uns instantes, depois girei sobre mim e voltei correndo
para dentro de casa, ignorando a dor e gritando por minha mãe. Ofegante,
consegui dizer que tinha visto um homem muito escuro, preto, os olhos grandes,
vermelhos.
Esta cena me
acompanha até hoje. Foi meu primeiro contato com um negro. Na Itália daquela
época não havia negros, ao menos onde eu vivia. Não lembro o que minha mãe me
disse, imagino que nada esclarecedor, mas esta lembrança sempre vem junto àquele
fato ocorrido na viagem.
Em minha formação
escolar e universitária, nada conservo de muito significativo com relação à
questão racial. Especialmente na formação superior, muitos intelectuais foram
banidos. E muitas obras também. Era a época da ditadura. Numa sociedade
predominantemente branca com origens europeias, a superioridade sobre o povo
negro era uma questão dada. Eu me sentia italiana no meio de uma sociedade de
descendentes de italianos que se diziam também italianos. Nas décadas de
1950/1960 havia poucos sobrenomes na cidade que não fossem italianos. Tínhamos
a influência cultural dos meios de comunicação, principalmente a televisão, com
todos os seus estereótipos. Então, fui formando uma crença de superioridade não
só sobre o povo negro, mais por omissão (pouco estudamos e os escravos negros e
mesmo sobre os índios nativos da região) do que por afirmação. Os preconceitos foram
sendo interiorizados silenciosamente. Foram se tornando uma questão muitos anos
mais tarde, quando já professora em outra cidade.
Lembro que me
surpreendi quando um colega chamou a atenção sobre nosso racismo em afirmações
do tipo “negrinho educado”, “apesar de negro, ele é...” e várias outras opiniões
que emitíamos cotidianamente sem questionar. Aos poucos, fomos encarando também
os preconceitos a outras etnias, a grupos minoritários e com diferenças daquilo
que aceitávamos como o “normal” e o “certo”. O caminho para a construção de
novos conceitos, e da coerência entre o discurso e a prática, foi longo e
continua a exigir minha atenção.
A lembrança
desta parte de minha história vem num momento em que estão emergindo no país
reações de intolerância e de ódio numa intensidade assustadora. Conceitos
privados de qualquer embasamento racional nos suscitam incredulidade e assombro.
Felizmente, são veiculadas inumeráveis análises e teorias, mas que chegam
àqueles que têm olhos e ouvidos para pensar sobre os outros e sobre si mesmos. No
entanto, grande parte da população reage imune ao discurso da ciência e da
razão e mostra uma identidade amorfa, sem raízes com a sua terra e sem orgulho
por sua história, facilmente cooptada por discursos ilusórios e modelos
aberrantes.
Diferentemente
da época em que cheguei aqui e da época em que me formei como professora no
interior, os silêncios estão sendo preenchidos há muito tempo. Talvez, a
balbúrdia de muitas vozes de hoje possa até confundir, mas é no confronto entre
elas que deverá surgir outro mundo. E torço para que vençam aquelas que gritam
por um mundo onde seja reconhecida a história dos indígenas que aqui existiam,
e seu contínuo extermínio; a dos negros escravizados e depois abandonados na
sua dita libertação. E que as outras vozes parem de se espelhar apenas nos
europeus, recebidos por uma terra generosa e nem sempre respeitada. E, mais
hodiernamente, parem de mimetizar os americanos no norte. Encarar a história da
formação do país cujas belezas culturais e tudo o que conseguimos produzir são
resultado da potência da miscigenação é o caminho contra a ignorância e o
enfrentamento de privilégios.
No entanto, é
preciso continuar, continuar, continuar a gritar tudo isso, porque no meio de
tantas vozes há a tentativa cíclica de instaurar novos silêncios.