sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Palavras de Nico


 

O ministro do Meio-Ambiente reunido em Fernando de Noronha com o Ministro do Turismo e empresários num restaurante. O que poderá ser? Diante do que tem acontecido no país, só podemos temer por mais medidas que permitam a destruição do que ainda existe de natureza preservada.

As outras notícias sobre a destruição da Amazônia, o Pantanal incendiado, o fim de direitos civis, um novo escândalo envolvendo integrantes do atual governo do país, decisões arbitrárias da justiça, arquivamento de processos que deveriam ir adiante, abertura de novos processos contra quem se opõe aos horrores que estão acontecendo, tudo isto é prato renovado todo o dia. Pior ainda, denúncias sobre os horrores praticados pelo sistema judiciário através da Lava Jato são feitas no país há mais de um ano e nada acontece contra quem os praticou. Mas é preciso continuar a denunciar. É preciso saber que a palavra contra as injustiças continue a ser dita.

            Tudo isso, enquanto continua ativa uma vertente das mais dolorosas do que acontece no país: a repressão a grupos de pessoas em situação das mais vulneráveis. Um destes grupos é dos que não conseguem ter uma moradia digna, não conseguem pagar um aluguel, não conseguem estar no conforto da proteção de um teto. São milhões em diferentes cidades. Só por escrever esta situação sinto-me num mundo irreal e impossível de aceitar. Mas existe e está mais ou menos próximo de qualquer um de nós. E sua palavra não é ouvida.

No outro dia, assisti um vídeo onde um candidato falava de sua primeira experiência ao morar numa ocupação junto a dezenas de famílias sem moradia. Uma manhã bem cedo, sem aviso, sem ordem de despejo, foram abalroados pelas “forças da ordem” do Estado. Falar em truculência é redundância. Quem ainda estava em casa conseguiu a duras penas salvar alguns pertences. Quem já tinha saído para o trabalho, perdeu tudo. Homens, mulheres, crianças e velhos tratados como lixo. Bombas, cassetetes, máquinas para destruir o que encontrasse pela frente, em poucos minutos o terreno foi desocupado e a propriedade particular preservada. Uma propriedade sem qualquer proveito há muitos anos e de um dono que devia cifras enormes em impostos. A palavra dele foi ouvida.

O fato narrado não é algo isolado, é coisa triste que faz parte de nossa história. O que pensar diante da indiferença de tantos? Diante da incapacidade de barrar crueldades contra pessoas? Diante do crescente sentimento de que caminhamos cada vez mais para um individualismo corrosivo, cada um cuidando do que é seu? Mil perguntas surgem sobre o que mais poderá acontecer. Poucas respostas sobre a capacidade da sociedade de reverter este caminho neste momento.

A constatação de “perderam o pudor” afirmada por Chico Buarque e “a verdade não interessa, é assustador” dito por Wagner Moura reforçam o que vemos acontecer ao nosso redor. Se dois artistas chegam a essas conclusões, eles que são capazes de produzir obras que ajudam a elevar nossa capacidade de compreender o mundo, sentimos ainda mais o peso da brutalidade exercida em nome do Estado.

Então, é mais necessário do que nunca resistir com a forma de que se é capaz. A palavra continua necessária e é através dela que muitos continuam a lutar, inclusive os dois maravilhosos artistas. Apesar de tudo, ou por causa de tudo o que está acontecendo.

Igualmente, vêm em nosso auxílio as palavras de Nico Nicolaiewsky com sua voz inesquecível: só cai quem voa.