Amanheço imaginando o que sucederá de
novo. Novo no sentido de pior, no sentido de me roubarem mais alguma coisa, no
sentido de me terem prendido em nova arapuca, tendo conseguido me livrar da
última no dia anterior. Ou melhor, sentindo os efeitos de viver numa nova.
Ainda, sendo ameaçado com outra pior.
Ontem, foi o
preço feijão, uma questão de safra. Com o tomate, a mesma coisa. O da farinha, nem
explicaram. O dos ovos, deve ter sido o estresse das galinhas. Aumento de
impostos, da gasolina, do gás, já nem procuram explicar mais. Viram que a
população reclama cada vez menos e se arranja como pode. Importar-se em dizer o
que está realmente acontecendo, nunca se preocuparam.
O que retrata melhor
o que está acontecendo no país, especialmente desde o golpe de 2014, é o
exemplo das barras de chocolate. Há quem nem se lembre mais que um dia pesavam
200g. A mudança deve ter sido calculada à sombra do funcionamento da memória do
cidadão. Ela passou a diminuir sutilmente para 180g, depois foi para 160g,
140g. Fazia algum tempo que não comprava chocolate em barra. Na semana passada,
quando peguei uma, duvidei do peso do que tinha nas mãos. Consultei as informações
e, ali estava escrito 92g. Achei até graça
do número preciso, 92, não 95 ou 90. O preço, no entanto, não pode ter sido
diminuído, pois custava mais de cinco reais. Quem faz contas nessa hora? A
experiência avisa de todas as pequenas e grandes artimanhas sofridas para
ludibriar o consumidor. Cresci e me criei na descrença, mas existiam órgãos
reguladores, inspeções e de proteção ao consumidor. De vez em quando uma
denúncia ocupava espaço na mídia. Confesso minha ignorância quanto a sua
existência hoje.
Então
me dei conta que nem me surpreendi tanto. Tem sido uma rotina tirarem-me alguma
coisa e mentirem de que o tenham feito. Uma coisa, no entanto, mudou. O ritmo
com que o cidadão tem sido desrespeitado nos últimos cinco anos. O Brasil está
indo ladeira abaixo é uma metáfora banal.
Mas,
afinal, quem precisa de chocolate?