sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Descobrindo o silêncio



Para que serve a literatura? Interrogação vinda de vozes díspares. Desta vez eu a pesquei ao terminar o livro A ponta do silêncio de Valesca de Assis. O livro é uma resposta à pergunta.
Um livro denso. As palavras pesam um peso necessário para compreender o silêncio que precisa ser agarrado pela ponta e descoberto para que haja a redenção de quem não tem palavras para a sua dor.
Um livro que dói. Não podemos deixar de nos identificar em algum momento com a personagem principal, no desvelamento de seus silêncios. Talvez, não tenhamos vivido situações com a gravidade das quais ela enfrentou. Silenciar, no entanto, é um exercício que as mulheres têm exercitado continuamente ao longo da história. Levantar a pesada coberta que esconde esta contenção é um ato corajoso nem sempre possível. Por isso, contar a história de alguém ajuda a olhar e a escutar as múltiplas histórias. Olhar e escutar o que está mais distante é um dos caminhos para fazer o mesmo com o mais próximo. Ajuda a compreender. Ajuda a encorajar-se.
A forma como as frases contam pouco a pouco o que foi vivido dentro da história prendeu-me, mesmo depois de ter terminado a leitura. Foi como descobrir  bilhetes recolhidos de uma mesma vida e de outras, interligadas. Continuei a lembrar passagens por vários dias. Os interstícios entre um afazer e outro traziam de volta trechos do livro. Com eles vinham as dores, as esperanças e as limitações de seres humanos. Revivi as emoções que o livro transmitiu o tempo todo.

Por tudo isso e por algo mais que, talvez, nem consiga acessar, encantei-me com a leitura. O encanto que reafirma o poder da literatura tal como é oferecida em A ponta do silêncio.