quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Pesadelo

Acordei de um sonho que fugiu sem que lhe alcançasse o rastro. Madrugada ainda, permaneci estendida prestando atenção ao que sentia. Na quietude da cidade, o quarto era sossego, mas meu corpo acusava um alvoroço, solicitava atenção. Não conseguia mais dormir, mas não queria levantar, uma sensação que acabei definindo como saudade acabou se impondo. De quê? De algo ao qual queria retornar, mas não identificava. No esforço de concentrar-me, acabou saltando uma lasca do sonho no qual eu buscava um documento, meu registro de professor, aquele que me dava direito a lecionar as disciplinas ali escritas, havia a assinatura do funcionário do MEC, minha foto, data, um lugar conquistado, orgulho de minha identificação,  informações de um lugar que eu ocupava, resultado de anos de estudos, de certificação das instituições onde eu havia passado anos de minha vida. Eram as  décadas de 1970 e 1980. Apesar de todos os retrocessos, começávamos a recuperar perdas anteriores e nos organizávamos nas escolas; os sindicatos de escolas públicas e privadas eram símbolo de luta, as quais deveriam se dar no local de trabalho como em qualquer ramo; em greve, atuávamos junto aos nossos alunos, embora fôssemos para a rua na necessidade de tornar visível o movimento. Havia uma formação para cada disciplina, não era questão que alguém ocupasse o lugar que não fosse o professor específico. O registro de professor acabou relegado, mas os concursos legitimavam a entrada dos profissionais na rede estadual e municipal e, apesar de um tempo de medos, os mesmos que nos impulsionavam a ir adiante, e a certeza de nossa importância e reconhecimento.
 Desde o tempo da ditadura a desvalorização da profissão com o aviltamento dos salários e descaso com a escola pública acenavam para tempos piores, mas não imaginávamos que chegaríamos ao descalabro atual. Apesar de tudo, não imaginávamos o que está ocorrendo agora.
Conquistas pisoteadas, projetos sem consistência estão sendo levados adiante, o ministro da educação recebe um ator pornô com um programa de educação, e veicula-se a proposta de que qualquer pessoa com “notório saber” poderá ser professor. O  MEC despreza todo um conhecimento que envolve o que seja o ato de educar e desmantela o que existe. Nenhuma narrativa fantástica daria conta do que está acontecendo com a educação no Brasil. O ato pedagógico é completamente ignorado e as últimas propostas mostram um conceito rasteiro de ensinar que faria enrubescer qualquer cidadão minimamente comprometido com as gerações que vão para a escola. A escola particular também ficará mais pobre, apesar de seus mecanismos de ir além da lei, mas é a pública que se ressentirá em demasia.

O Congresso Nacional já mostrou a que veio. Se há ainda alguma esperança, ela está nos atuais movimentos contra a MP 746 e PEC 241, através das ocupações estudantis que tomaram a dianteira em todo o país e têm o apoio de amplos setores da sociedade.