Acordei de um
sonho que fugiu sem que lhe alcançasse o rastro. Madrugada ainda, permaneci
estendida prestando atenção ao que sentia. Na quietude da cidade, o quarto era
sossego, mas meu corpo acusava um alvoroço, solicitava atenção. Não conseguia
mais dormir, mas não queria levantar, uma sensação que acabei definindo como
saudade acabou se impondo. De quê? De algo ao qual queria retornar, mas não
identificava. No esforço de concentrar-me, acabou saltando uma lasca do sonho no
qual eu buscava um documento, meu registro de professor, aquele que me dava
direito a lecionar as disciplinas ali escritas, havia a assinatura do
funcionário do MEC, minha foto, data, um lugar conquistado, orgulho de minha
identificação, informações de um lugar
que eu ocupava, resultado de anos de estudos, de certificação das instituições
onde eu havia passado anos de minha vida. Eram as décadas de 1970 e 1980. Apesar de todos os
retrocessos, começávamos a recuperar perdas anteriores e nos organizávamos nas
escolas; os sindicatos de escolas públicas e privadas eram símbolo de luta, as
quais deveriam se dar no local de trabalho como em qualquer ramo; em greve,
atuávamos junto aos nossos alunos, embora fôssemos para a rua na necessidade de
tornar visível o movimento. Havia uma formação para cada disciplina, não era
questão que alguém ocupasse o lugar que não fosse o professor específico. O
registro de professor acabou relegado, mas os concursos legitimavam a entrada
dos profissionais na rede estadual e municipal e, apesar de um tempo de medos, os
mesmos que nos impulsionavam a ir adiante, e a certeza de nossa importância e
reconhecimento.
Desde o tempo da ditadura a desvalorização da
profissão com o aviltamento dos salários e descaso com a escola pública acenavam
para tempos piores, mas não imaginávamos que chegaríamos ao descalabro atual. Apesar
de tudo, não imaginávamos o que está ocorrendo agora.
Conquistas pisoteadas, projetos sem consistência estão sendo levados adiante,
o ministro da educação recebe um ator pornô com um programa de educação, e
veicula-se a proposta de que qualquer pessoa com “notório saber” poderá ser
professor. O MEC despreza todo um
conhecimento que envolve o que seja o ato de educar e desmantela o que existe.
Nenhuma narrativa fantástica daria conta do que está acontecendo com a educação
no Brasil. O ato pedagógico é completamente ignorado e as últimas propostas
mostram um conceito rasteiro de ensinar que faria enrubescer qualquer cidadão
minimamente comprometido com as gerações que vão para a escola. A escola
particular também ficará mais pobre, apesar de seus mecanismos de ir além da
lei, mas é a pública que se ressentirá em demasia.
O Congresso
Nacional já mostrou a que veio. Se há ainda alguma esperança, ela está nos
atuais movimentos contra a MP 746 e PEC 241, através das ocupações estudantis
que tomaram a dianteira em todo o país e têm o apoio de amplos setores da
sociedade.
