Há palavras que
abarcam melhor o que pensamos. Encontrei uma delas lendo a apreciação do quadro
Nossa Senhora dos palafreneiros de Caravaggio feita na época, século XVII. Obsceno.
Imediatamente reconheci-a como uma palavra adequada a caracterizar não o
quadro, onde o pintor representa sua própria interpretação de um versículo do
Gênesis. A obscenidade estava na cabeça da cúria do Vaticano que o rejeitou. Um
poder de então que me leva à obscenidade que reveste o governo atual do Brasil,
com o desmonte das políticas sociais conseguidas até aqui e devolvendo à
miséria muitos dos que tinham conseguido emergir dela. Logo a seguir, pensei
nas matanças de jovens das periferias da cidade. Não só naqueles que morrem a
todo o instante, mas naquilo em que foram transformados tantos policiais para
poder matar. Depois, pensei nas fraudes de médicos que se servem da profissão
para enriquecer ilegalmente, inventando necessidades de próteses e outros tais. Depois, veio-me a lembrança da violência que
continua a existir contra a mulher e do terrível silêncio a que a maioria se
submete, por causa da impunidade existente. Depois, vieram-me cenas de abuso de
falsos religiosos incrustados em falsas religiões a explorar a fragilidade humana
para enriquecer à custa dos mais vulneráveis. Depois, vieram-me as imagens do
pranto pelos assassinatos de lideranças comunitárias, sindicais, indígenas e
religiosas que ousaram enfrentar o poder. Tantos depois. Em demasia. Pior
ainda, a indiferença de grande parte da sociedade, como se não lhe dissesse
respeito.
Então pensei que
nem essa poderia abarcar o horror dessas atrocidades. Tudo isso é inominável.