quarta-feira, 20 de julho de 2016

Sem palavras

Há palavras que abarcam melhor o que pensamos. Encontrei uma delas lendo a apreciação do quadro Nossa Senhora dos palafreneiros de Caravaggio feita na época, século XVII. Obsceno. Imediatamente reconheci-a como uma palavra adequada a caracterizar não o quadro, onde o pintor representa sua própria interpretação de um versículo do Gênesis. A obscenidade estava na cabeça da cúria do Vaticano que o rejeitou. Um poder de então que me leva à obscenidade que reveste o governo atual do Brasil, com o desmonte das políticas sociais conseguidas até aqui e devolvendo à miséria muitos dos que tinham conseguido emergir dela. Logo a seguir, pensei nas matanças de jovens das periferias da cidade. Não só naqueles que morrem a todo o instante, mas naquilo em que foram transformados tantos policiais para poder matar. Depois, pensei nas fraudes de médicos que se servem da profissão para enriquecer ilegalmente, inventando necessidades de próteses e outros tais.  Depois, veio-me a lembrança da violência que continua a existir contra a mulher e do terrível silêncio a que a maioria se submete, por causa da impunidade existente. Depois, vieram-me cenas de abuso de falsos religiosos incrustados em falsas religiões a explorar a fragilidade humana para enriquecer à custa dos mais vulneráveis. Depois, vieram-me as imagens do pranto pelos assassinatos de lideranças comunitárias, sindicais, indígenas e religiosas que ousaram enfrentar o poder. Tantos depois. Em demasia. Pior ainda, a indiferença de grande parte da sociedade, como se não lhe dissesse respeito.

Então pensei que nem essa poderia abarcar o horror dessas atrocidades. Tudo isso é inominável.