Tenho percebido
um profundo cansaço nas pessoas em
relação ao noticiário político. Há, no entanto, graduações neste cansaço.
Algumas não querem sequer ouvir a última notícia, fazem uma careta, dizem “não
ouvi”, “deixa pra lá” e trocam de assunto. Neste caso é comum desenterrar uma
piada ou uma banalidade e seguir falando como se, ignorar o que sucede, fosse
fazer desaparecer a realidade.
Há
momentos, porém, em que a recusa é feita com uma indiferença tal como se o
assunto nada tivesse a lhe dizer, as preocupações são outras e a sua realização
se dá pelas próprias atividades. Para estas pessoas a política é algo que não
lhes diz respeito, pairam acima de qualquer contenda.
Em
outras ocasiões, constatei que conhecidos, outrora envolvidos com a política
partidária, hoje, assumiram uma religião ou uma filosofia que substitui a
necessidade de intervenção social por um processo de mudança individual sem a
qual, e antes da qual, não haverá mudança coletiva. A política como hoje se apresenta deixou lhe
interessar.
Outra
situação é a raiva demonstrada por alguns ao se considerarem traídos pelo
partido em que apostaram todas as fichas. Aqui é a desilusão que fala e a frase
mais ouvida é “são todos iguais, não adianta”. Sem o rigor de uma pesquisa, foi
possível constatar que muitos destes votaram em quem eles julgam o opositor de
quem os desiludiu, não por julgá-lo o melhor. Outros votaram em branco nas
últimas eleições, por não terem um candidato que os satisfizesse.
Todas, situações
de desesperança.
Mas há uma
espécie de raiva particular, a dos que sempre fizeram oposição ao governo do
país que assumiu em 2002, cujas políticas sociais abominam, mas que são apenas
a ponta do iceberg de seu rechaço. Esta parte da população não se mostrava,
agora escancara o que pensa, adora os noticiários da televisão – concentrada
nas mãos de poucos grupos econômicos e determinantes do que deve ser veiculado,
usando a notícia para beneficiar interesses particulares – e julga que ali está
a verdade dos fatos. Muitas vezes a resposta a algum questionamento foi “Deu na
Globo”, conferido àquele canal o estatuto de certeza e idoneidade.
A
descrença e o cansaço foram passos para a grande maioria deixar-se cooptar pela
palavra crise, caracterizando-a como brasileira e única, ampliando-a, colorindo-a
com as conveniências do momento, mesmo aquela parte que se beneficia do
momento, mesmo aquela outra parte que não foi atingida de forma significativa e
seu modo de vida continue o mesmo.
Tudo
isso faz imaginar um tecido social esgarçado, a perda de pontos de referência conhecidos
sem os quais não é possível entender o que se passa, sem demonizar ou
santificar quem quer que seja. O medo é alimentado, para além das causas reais,
e a paralisia que lhe é decorrente impede de pensar.
Este
é um período difícil e complexo em que as esperanças de um mundo melhor se
desvaneceram. Por isso, oportuna é a colocação de Vladimir Safatle ao analisar as consequências da perda de utopias: “Precisamos de uma reflexão política
fundada na capacidade de se abrir à contingência e ao desamparo que sua
ocorrência nos traz”. E, a partir disso, pensar o tempo atual de outra forma
para encontrar o que ele aponta: “as condições para modificações profundas já
estão no presente”.
Quem
sabe, um caminho para alimentar as ideias de Safatle seja a recusa ao ódio, à
intolerância, à insensatez e às fontes que os geram (um modo de vida
exacerbadamente individualista onde tudo é descartável), concentrando energias nas
vozes que apontam o desejo de viver um mundo em que todos têm direito à
dignidade. Tudo isto com a contribuição coerente de atitudes e não apenas de pensamentos.