quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Novamente, recusa ao ódio



Tenho percebido um profundo cansaço nas pessoas  em relação ao noticiário político. Há, no entanto, graduações neste cansaço. Algumas não querem sequer ouvir a última notícia, fazem uma careta, dizem “não ouvi”, “deixa pra lá” e trocam de assunto. Neste caso é comum desenterrar uma piada ou uma banalidade e seguir falando como se, ignorar o que sucede, fosse fazer desaparecer a realidade.
            Há momentos, porém, em que a recusa é feita com uma indiferença tal como se o assunto nada tivesse a lhe dizer, as preocupações são outras e a sua realização se dá pelas próprias atividades. Para estas pessoas a política é algo que não lhes diz respeito, pairam acima de qualquer contenda.
            Em outras ocasiões, constatei que conhecidos, outrora envolvidos com a política partidária, hoje, assumiram uma religião ou uma filosofia que substitui a necessidade de intervenção social por um processo de mudança individual sem a qual, e antes da qual, não haverá mudança coletiva.  A política como hoje se apresenta deixou lhe interessar.
            Outra situação é a raiva demonstrada por alguns ao se considerarem traídos pelo partido em que apostaram todas as fichas. Aqui é a desilusão que fala e a frase mais ouvida é “são todos iguais, não adianta”. Sem o rigor de uma pesquisa, foi possível constatar que muitos destes votaram em quem eles julgam o opositor de quem os desiludiu, não por julgá-lo o melhor. Outros votaram em branco nas últimas eleições, por não terem um candidato que os satisfizesse.
Todas, situações de desesperança.
Mas há uma espécie de raiva particular, a dos que sempre fizeram oposição ao governo do país que assumiu em 2002, cujas políticas sociais abominam, mas que são apenas a ponta do iceberg de seu rechaço. Esta parte da população não se mostrava, agora escancara o que pensa, adora os noticiários da televisão – concentrada nas mãos de poucos grupos econômicos e determinantes do que deve ser veiculado, usando a notícia para beneficiar interesses particulares – e julga que ali está a verdade dos fatos. Muitas vezes a resposta a algum questionamento foi “Deu na Globo”, conferido àquele canal o estatuto de certeza e idoneidade.
            A descrença e o cansaço foram passos para a grande maioria deixar-se cooptar pela palavra crise, caracterizando-a como brasileira e única, ampliando-a, colorindo-a com as conveniências do momento, mesmo aquela parte que se beneficia do momento, mesmo aquela outra parte que não foi atingida de forma significativa e seu modo de vida continue o mesmo.

            Tudo isso faz imaginar um tecido social esgarçado, a perda de pontos de referência conhecidos sem os quais não é possível entender o que se passa, sem demonizar ou santificar quem quer que seja. O medo é alimentado, para além das causas reais, e a paralisia que lhe é decorrente impede de pensar.

              Este é um período difícil e complexo em que as esperanças de um mundo melhor se desvaneceram. Por isso, oportuna é a colocação de Vladimir Safatle ao analisar as consequências da perda de utopias: “Precisamos de uma reflexão política fundada na capacidade de se abrir à contingência e ao desamparo que sua ocorrência nos traz”. E, a partir disso, pensar o tempo atual de outra forma para encontrar o que ele aponta: “as condições para modificações profundas já estão no presente”.

            Quem sabe, um caminho para alimentar as ideias de Safatle seja a recusa ao ódio, à intolerância, à insensatez e às fontes que os geram (um modo de vida exacerbadamente individualista onde tudo é descartável), concentrando energias nas vozes que apontam o desejo de viver um mundo em que todos têm direito à dignidade. Tudo isto com a contribuição coerente de atitudes e não apenas  de pensamentos.