Nem tudo é
branco ou preto, há o cinza, existem os tons de cinza e por aí vai. Quando
penso nas pessoas, tudo se complica. Os mais recentes episódios envolvendo as
manifestações contra o Governo Federal e a Presidenta, a coisa complica mais
ainda. Estavam compartilhando o mesmo espaço exigências por democracia, contra
a “ditadura” do PT, usando as mais ofensivas expressões por escrito, algumas
tão chulas que trariam constrangimento a qualquer um com um mínimo de educação.
Ao mesmo tempo, exigiam uma intervenção militar (não é ditadura?) pelo grau de
corrupção existente, esquecendo a corrupção sistêmica e focando apenas num
partido e na Presidenta. Gestos, comportamentos, palavras de ordem e cartazes
que demonstravam desconhecimento de história do país e do mundo, bem como da
própria língua materna e mau uso da língua inglesa, além do uso inapropriado e
grave neste contexto. Foi ignorada a corrupção existente em outros partidos e
segmentos da sociedade, foram vomitados xingamentos que seriam graves se apenas
verbalizados em espaço privado, mas escritos e gritados durante as passeatas,
envolvendo jovens e crianças, fizeram horrorizar qualquer pessoa com um mínimo
de bom senso. Este foi o tom geral amplamente divulgado. Tudo em nome da
liberdade de expressão e contra a “ditadura” do atual Governo Federal.
Este quadro tem
uma quantidade de detalhes que fazem chorar de tristeza.
Intrigou-me
especialmente um. Vi um amigo, generoso, inteligente, companheiro, defendendo o
fim dos ptralhas, dos pmdbtralhas, dos psdbtralhas e pptralhas (antiga arena),
sem nada afirmativo, só ódio (ele diz indignação), sem defesa de qualquer
bandeira. O mais grave é que ele conhece muito bem história, ele sabe o perigo
de um vazio que não permanece, algo irá ocupar-lhe o lugar e para pior, muito
pior. Ele não, estava muito satisfeito no seu protesto contra a corrupção. Todos
com um mínimo de conhecimento estão assustados com este discurso de terra
arrasada, sem propostas, sem projetos, sem perspectivas, só o desejo de
destruição daquilo que julgam ou gostariam que fossem os únicos corruptos
existentes, os únicos responsáveis pelos problemas atuais. E como ele, outros
cerraram fileiras com quantos foram para as ruas com estas certezas. Vejo um
cinza entre o que estas pessoas são e o que elas defendem que foge à compreensão.
De qualquer
forma, o foco foi contra Dilma e PT. Fica a questão: para que serve, quando é
enorme a quantidade de fatos e conhecimentos implicados para compreender o que
está acontecendo no país? Descartados pela maioria dos que foram às ruas.
Como disse um
articulista lúcido, esta e outras manifestações insanas, impedem que se
discutam os reais problemas existentes neste governo (sabe-se que os há e que
precisam ser superados) e se transfiram energias para defendê-lo e evitar que
se percam as conquistas que ele propiciou (que não são poucas e, sim, o começo
para pensar um país melhor). Impedem que se discuta uma reforma política que
evite a repetição de erros, que melhore a composição do Congresso. Impedem que seja
discutida com a nação reforma política defendida pelo presidente da Câmara (ele próprio
será investigado no processo Lava Jato) e que mantém contribuições das empresas
para as campanhas, origem do caixa 2. Nada disto apareceu na manifestação.
Depois de ter
mergulhado na lama espalhada pela manifestação do dia 15/03, vou ficar no
aguardo de devires e acontecimentos na concepção deleuzeana destas palavras. Muitas
previsões falham, quando se trata do ser humano, alguma aprendizagem há de
acontecer.