sexta-feira, 20 de março de 2015

Vitoriosa



Estava morrendo.
Estava?
A esperança que nela havia
Guiei-a até mim.
Cuidei-a, dei-lhe de beber.

Ofereceu-se vitoriosa.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Nem tudo é preto ou branco

Nem tudo é branco ou preto, há o cinza, existem os tons de cinza e por aí vai. Quando penso nas pessoas, tudo se complica. Os mais recentes episódios envolvendo as manifestações contra o Governo Federal e a Presidenta, a coisa complica mais ainda. Estavam compartilhando o mesmo espaço exigências por democracia, contra a “ditadura” do PT, usando as mais ofensivas expressões por escrito, algumas tão chulas que trariam constrangimento a qualquer um com um mínimo de educação. Ao mesmo tempo, exigiam uma intervenção militar (não é ditadura?) pelo grau de corrupção existente, esquecendo a corrupção sistêmica e focando apenas num partido e na Presidenta. Gestos, comportamentos, palavras de ordem e cartazes que demonstravam desconhecimento de história do país e do mundo, bem como da própria língua materna e mau uso da língua inglesa, além do uso inapropriado e grave neste contexto. Foi ignorada a corrupção existente em outros partidos e segmentos da sociedade, foram vomitados xingamentos que seriam graves se apenas verbalizados em espaço privado, mas escritos e gritados durante as passeatas, envolvendo jovens e crianças, fizeram horrorizar qualquer pessoa com um mínimo de bom senso. Este foi o tom geral amplamente divulgado. Tudo em nome da liberdade de expressão e contra a “ditadura” do atual Governo Federal.
Este quadro tem uma quantidade de detalhes que fazem chorar de tristeza.
Intrigou-me especialmente um. Vi um amigo, generoso, inteligente, companheiro, defendendo o fim dos ptralhas, dos pmdbtralhas, dos psdbtralhas e pptralhas (antiga arena), sem nada afirmativo, só ódio (ele diz indignação), sem defesa de qualquer bandeira. O mais grave é que ele conhece muito bem história, ele sabe o perigo de um vazio que não permanece, algo irá ocupar-lhe o lugar e para pior, muito pior. Ele não, estava muito satisfeito no seu protesto contra a corrupção. Todos com um mínimo de conhecimento estão assustados com este discurso de terra arrasada, sem propostas, sem projetos, sem perspectivas, só o desejo de destruição daquilo que julgam ou gostariam que fossem os únicos corruptos existentes, os únicos responsáveis pelos problemas atuais. E como ele, outros cerraram fileiras com quantos foram para as ruas com estas certezas. Vejo um cinza entre o que estas pessoas são e o que elas defendem que foge à compreensão.
De qualquer forma, o foco foi contra Dilma e PT. Fica a questão: para que serve, quando é enorme a quantidade de fatos e conhecimentos implicados para compreender o que está acontecendo no país? Descartados pela maioria dos que foram às ruas.
Como disse um articulista lúcido, esta e outras manifestações insanas, impedem que se discutam os reais problemas existentes neste governo (sabe-se que os há e que precisam ser superados) e se transfiram energias para defendê-lo e evitar que se percam as conquistas que ele propiciou (que não são poucas e, sim, o começo para pensar um país melhor). Impedem que se discuta uma reforma política que evite a repetição de erros, que melhore a composição do Congresso. Impedem que seja discutida com a nação reforma política defendida pelo presidente da Câmara (ele próprio será investigado no processo Lava Jato) e que mantém contribuições das empresas para as campanhas, origem do caixa 2. Nada disto apareceu na manifestação.
Depois de ter mergulhado na lama espalhada pela manifestação do dia 15/03, vou ficar no aguardo de devires e acontecimentos na concepção deleuzeana destas palavras. Muitas previsões falham, quando se trata do ser humano, alguma aprendizagem há de acontecer.