Combinamos
de nos encontrar numa quarta-feira. Fomos para o espaço reservado a um café na
Praça XV. Lugar simpático, coberto e delimitado por um reparo de madeira e
vidro. Há muito não nos víamos e escolhemos o lugar porque ambas gostamos do
Mercado. Ao sentar, a imagem de um homem coberto por jornais e deitado na
entrada de uma porta fechada nos atingiu pesado, um primeiro estilhaço na
harmonia do momento. Já havíamos feito o pedido e, com um olhar pesaroso, esboçamos
um início de conversa. Ela expressou o desejo de ir ajudá-lo. Um gesto
abortado. Ele, um homem jovem, levantou pouco depois, com o andar enviesado e
olhar fixo à sua frente. Lembramos de trocar de lugar as nossas bolsas.
Tínhamos muito
a nos dizer, após nos abraçarmos e rirmos com a mudança na cor de nossos
cabelos. Junto a um expresso e os tradicionais pãezinhos de queijo, falamos
sobre filhos, dificuldades, viagens, amigos em comum, as lembranças foram desfilando atravessadas por risadas e descontração. Um rapaz mal vestido passou entre as
mesas e o olhamos desconfiadas. Era apenas um catador de latinhas, dissemos. A
conversa continuou e, pouco depois, um sorriso desdentado numa cara jovem se
aproxima e pede uns trocados para um café. Alcanço-lhe uma nota e repito-lhe
que é para um café, ele me responde enrolado que sim, porque ele tem HIV e não
pode tomar álcool. Próximo e arrastando um carrinho, outro jovem pergunta se
pode pegar o pedaço de pão de queijo que sobrara no prato. Ambos se afastam
devagar. Têm a aparência do estrago que lhes faz a rua, mas os traços bonitos
de quem teria a vida pela frente para ser vivida. Continuamos a trocar nossas
histórias, sem comentários sobre o que víamos.
A tarde terminava e resolvemos entrar no Mercado para algumas compras. A mistura de cheiros, o burburinho, as bancas de objetos antigos, nossas sacolas com peixe e verduras, emoldurou o passeio pelos corredores. Ficamos felizes de reafirmar aquele lugar como nosso, da nossa cidade.
Despedimo-nos agradecidas por aquela confraternização e não conversamos sobre as testemunhas de um mundo que queremos que mude. Talvez, o egoísmo de saborear a presença uma da outra tenha prevalecido. Tenho certeza, no entanto, de que para ela também ficou a marca de um borrão sobre a nossa alegria. Um borrão que saiu de uma boca desdentada e de alguns olhares desesperançados, impossível ignorar.
A tarde terminava e resolvemos entrar no Mercado para algumas compras. A mistura de cheiros, o burburinho, as bancas de objetos antigos, nossas sacolas com peixe e verduras, emoldurou o passeio pelos corredores. Ficamos felizes de reafirmar aquele lugar como nosso, da nossa cidade.
Despedimo-nos agradecidas por aquela confraternização e não conversamos sobre as testemunhas de um mundo que queremos que mude. Talvez, o egoísmo de saborear a presença uma da outra tenha prevalecido. Tenho certeza, no entanto, de que para ela também ficou a marca de um borrão sobre a nossa alegria. Um borrão que saiu de uma boca desdentada e de alguns olhares desesperançados, impossível ignorar.