Relembrar
os mortos, um dos primeiros movimentos que fiz ao voltar.
No cemitério bem
cuidado, acompanhando minha prima na sua visita usual, lagartixas surgiam e
desapareciam, talvez fosse o espírito dos enterrados ali, pensei. Poderia ser
também o movimento das memórias que se oferecem e, se não colhidas rapidamente,
se fundem com a luz da consciência e somem.
A seguir, voltei
à casa onde nasci. Triste, vi só os muros externos, seu interior havia desmoronado.
A cada retorno ao país, fui visitá-la, mas só fiquei na sua frente com o desejo
de entrar e a intenção, jamais materializada, de procurar os donos e pedir para
fazê-lo. Agora, só restaram as frestas nas janelas para testemunhar sua
degradação. Calculei que a sala, única peça visível, era mais ampla e com pé
direito mais alto do que havia permanecido na memória. Como eu teria gostado de
vasculhar cada canto.
Volto à frase de
Moravia “Il Desiderio è preferibile all’appagamento del desiderio stesso”.
Permanecerei para sempre com o desejo de rever a distribuição dos quartos no
primeiro andar, a escada para os quais conduzia, a porta que comunicava a
moradia à oficina de meu pai ou a coifa acima do fogão à lenha que sustentava
as grandes meias à espera da Befana, no dia de Reis. No entanto, abandono o
pensamento de Moravia, preferiria realizar este meu movimento sempre truncado,
e lamento minha indecisão de buscar os meios para penetrar neste mundo que há
poucos anos existia à minha espera. Parei sempre na porta fechada e lacrada,
como lembro de ter feito em outras situações ao longo da vida. Indecisão que
encaro como traição a mim mesma, porque relegada ao esquecimento, obstáculo não
suplantado. Mais uma vez, o que podia ter feito não fiz. Não há mais tempo.
De
todos os ângulos possíveis vejo a casa que desmorona, a morte lenta de um lugar
que abrigou muitos sonhos e temores, as vidas que por ali passaram, umas se
foram para o além mar, outras se foram cumprindo o ciclo da vida.
A
casa onde se nasce e se cresce é como um templo. Às vezes ultrajado, pode ser
refeito e ter outros habitantes, sempre templo. Lamentável é seu abandono, sem
lagartixas a lampejar lembranças do que foi vivido.
É
tempo de agarrar recordações no espaço externo que se foi transformando, mas
continua a testemunhar memórias.