segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Lagartixas





            Relembrar os mortos, um dos primeiros movimentos que fiz ao voltar.
No cemitério bem cuidado, acompanhando minha prima na sua visita usual, lagartixas surgiam e desapareciam, talvez fosse o espírito dos enterrados ali, pensei. Poderia ser também o movimento das memórias que se oferecem e, se não colhidas rapidamente, se fundem com a luz da consciência e somem.
A seguir, voltei à casa onde nasci. Triste, vi só os muros externos, seu interior havia desmoronado. A cada retorno ao país, fui visitá-la, mas só fiquei na sua frente com o desejo de entrar e a intenção, jamais materializada, de procurar os donos e pedir para fazê-lo. Agora, só restaram as frestas nas janelas para testemunhar sua degradação. Calculei que a sala, única peça visível, era mais ampla e com pé direito mais alto do que havia permanecido na memória. Como eu teria gostado de vasculhar cada canto.
Volto à frase de Moravia “Il Desiderio è preferibile all’appagamento del desiderio stesso”. Permanecerei para sempre com o desejo de rever a distribuição dos quartos no primeiro andar, a escada para os quais conduzia, a porta que comunicava a moradia à oficina de meu pai ou a coifa acima do fogão à lenha que sustentava as grandes meias à espera da Befana, no dia de Reis. No entanto, abandono o pensamento de Moravia, preferiria realizar este meu movimento sempre truncado, e lamento minha indecisão de buscar os meios para penetrar neste mundo que há poucos anos existia à minha espera. Parei sempre na porta fechada e lacrada, como lembro de ter feito em outras situações ao longo da vida. Indecisão que encaro como traição a mim mesma, porque relegada ao esquecimento, obstáculo não suplantado. Mais uma vez, o que podia ter feito não fiz. Não há mais tempo.
            De todos os ângulos possíveis vejo a casa que desmorona, a morte lenta de um lugar que abrigou muitos sonhos e temores, as vidas que por ali passaram, umas se foram para o além mar, outras se foram cumprindo o ciclo da vida.
            A casa onde se nasce e se cresce é como um templo. Às vezes ultrajado, pode ser refeito e ter outros habitantes, sempre templo. Lamentável é seu abandono, sem lagartixas a lampejar lembranças do que foi vivido.
            É tempo de agarrar recordações no espaço externo que se foi transformando, mas continua a testemunhar memórias.