terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Papai Noel e a Política





Alguém se lembra de quando deixou de acreditar em Papai Noel? Não se deixa de acreditar de uma hora para outra, mesmo que tendo a lembrança de um certo momento. Um dia, uma voz nos sussurra que o velhinho que nos vem visitar toda a noite de Natal é o tio, que se veste para isso e gosta de entregar os presentes que os pais compram. Quase sempre a criança que houve o segredo, já não tão segredo, não se surpreende. Ela não havia pensado nisto, mas lembra que, da última vez, o bigode havia caído e que tinha visto a mãe arrumando-lhe a barba e alcançado o gorro. Gestos estranhos suplantados pela alegria dos presentes. Assim, tantos outros registros prepararam o terreno para a verdade que todos os adultos conhecem. Quando o pedido não era atendido, desconfiava-se da bondade do Papai Noel. Explicações vinham consolar e convencer de que tudo estava certo e o velhinho tinha feito o que podia, ou era mesmo um tanto atrapalhado. O tempo trazia um sinal aqui, outro ali e, por fim, deixamos de acreditar nele. Chega de fantasia, não mais a mágica da espera, desejos realizados ou quase, dependendo da situação financeira. A vida nos mostrava seu lado real.
            Lembro disto quando, depois de muitos sinais, tendo a desacreditar da política. Sem Papai Noel todos podemos ficar, porque pouco a pouco vamos assumindo o que é preciso fazer, com os próprios esforços. Trabalho que família, amigos, escola vão construindo junto. No entanto, não vejo no horizonte uma substituição possível para a política, com seus poderes claros e obscuros. Quem poderia escorar e fortalecer os esforços para ser cidadão sem se ater a um individualismo estreito e autofágico? Quem sabe substituir os tantos “Papais Noéis” que iludem, não para manter a fantasia que alegra, mas a alienação que engana a todos. É preciso continuar perseguindo a materialização da crença na política como ciência ou arte de governar. Tarefa para um Papai Noel Político que nos deveria visitar todos os dias e não apenas no Natal, que nos fortalecesse para a caminhada no mundo. Que não presenteasse apenas alguns. Tarefa tanto mais difícil quanto um maior número de sonhos e de esperanças são sacudidos ou destruídos pela realidade que nos atinge cotidianamente.
Lembro de quantos pensadores se desiludiram e desacreditaram da possibilidade de um mundo melhor, de terem morrido com essa descrença. Lembro das palavras “É mais fácil fazer a guerra do que a paz" de Clemenceau no início do século XX. Leio-lhe um ceticismo confirmado pelos anos que o sucederam. Guerras pequenas e grandes, próximas e distantes mancham um mapa que a política poderia desenhar diferente.
Penso numa amiga que acreditou na política e está tomada pela revolta com o que acontece ao seu redor. Busquei fontes de esperança para animá-la e continuo a fazê-lo. O apelo dos que continuam lutando soa menos empoderado, uma máquina sombria parece ameaçá-los. Lembro que, apesar de tudo, nunca perdi a esperança. Preciso cada vez mais lembrar.