Alguém se lembra
de quando deixou de acreditar em Papai Noel? Não se deixa de acreditar de uma
hora para outra, mesmo que tendo a lembrança de um certo momento. Um dia, uma voz
nos sussurra que o velhinho que nos vem visitar toda a noite de Natal é o tio,
que se veste para isso e gosta de entregar os presentes que os pais compram.
Quase sempre a criança que houve o segredo, já não tão segredo, não se
surpreende. Ela não havia pensado nisto, mas lembra que, da última vez, o
bigode havia caído e que tinha visto a mãe arrumando-lhe a barba e alcançado o
gorro. Gestos estranhos suplantados pela alegria dos presentes. Assim, tantos
outros registros prepararam o terreno para a verdade que todos os adultos
conhecem. Quando o pedido não era atendido, desconfiava-se da bondade do Papai
Noel. Explicações vinham consolar e convencer de que tudo estava certo e o
velhinho tinha feito o que podia, ou era mesmo um tanto atrapalhado. O tempo
trazia um sinal aqui, outro ali e, por fim, deixamos de acreditar nele. Chega
de fantasia, não mais a mágica da espera, desejos realizados ou quase,
dependendo da situação financeira. A vida nos mostrava seu lado real.
Lembro
disto quando, depois de muitos sinais, tendo a desacreditar da política. Sem
Papai Noel todos podemos ficar, porque pouco a pouco vamos assumindo o que é
preciso fazer, com os próprios esforços. Trabalho que família, amigos, escola vão
construindo junto. No entanto, não vejo no horizonte uma substituição possível
para a política, com seus poderes claros e obscuros. Quem poderia escorar e
fortalecer os esforços para ser cidadão sem se ater a um individualismo
estreito e autofágico? Quem sabe substituir os tantos “Papais Noéis” que
iludem, não para manter a fantasia que alegra, mas a alienação que engana a
todos. É preciso continuar perseguindo a materialização da crença na política
como ciência ou arte de governar. Tarefa para um Papai Noel Político que nos
deveria visitar todos os dias e não apenas no Natal, que nos fortalecesse para
a caminhada no mundo. Que não presenteasse apenas alguns. Tarefa tanto mais
difícil quanto um maior número de sonhos e de esperanças são sacudidos ou
destruídos pela realidade que nos atinge cotidianamente.
Lembro de quantos pensadores se
desiludiram e desacreditaram da possibilidade de um mundo melhor, de terem
morrido com essa descrença. Lembro das palavras “É mais fácil fazer a guerra do
que a paz" de Clemenceau no início do século XX. Leio-lhe um ceticismo
confirmado pelos anos que o sucederam. Guerras pequenas e grandes, próximas e
distantes mancham um mapa que a política poderia desenhar diferente.
Penso numa amiga que acreditou na
política e está tomada pela revolta com o que acontece ao seu redor. Busquei
fontes de esperança para animá-la e continuo a fazê-lo. O apelo dos que
continuam lutando soa menos empoderado, uma máquina sombria parece ameaçá-los.
Lembro que, apesar de tudo, nunca perdi a esperança. Preciso cada vez mais
lembrar.