segunda-feira, 11 de novembro de 2013

As pontes



Vejo a ponte da janela fechada do quarto. Ela está parcialmente oculta e os reflexos das luzes do edifício em frente confundem seu traçado com outros traçados próximos. Já a vi do alto, chegando a Lisboa, uma linha branca sobre um largo braço de água azul. Do quinto andar do hotel, a visão dela é retalho entre os diferentes planos de paredes, janelas, vãos entre prédios, espaços escuros e iluminados que compõem paisagem noturna.
Última noite da viagem e percebo tudo ao meu redor com outro olhar. Ao longo do dia senti que minha passagem pela cidade estava terminando. O esmaecimento da curiosidade na chegada e um distanciamento das coisas que me circundavam, davam a medida do último passeio para despedir-me do lugar explorado durante tantos dias. Talvez, uma proteção para não sofrer com o fim da prazerosa experiência. Como foi gostoso o impacto de ver ao vivo os lugares vasculhados anteriormente na tela do computador. As ruas tornaram-se familiares como umas tantas de minha própria cidade. Um contínuo reconhecer edifícios e fachadas, esquinas e praças, monumentos e calçadas, prazer vigoroso por estar caminhando sobre as pedras que antes eram virtuais. Tocar na mão fria de Fernando Pessoa, eternizado junto às mesas de um café para aproximá-lo de quantos o queiram, mesmo daqueles que talvez nem o tenham lido. Provar uma tigelada ou uma ginjinha de Óbidos, depois de um prato de bacalhau que os portugueses importam da Noruega e que dizem saber preparar de cento e uma maneiras.
No fim, o cansaço é inevitável depois de dias e dias de andanças. Tantas informações buscadas na ânsia de uma posse rápida do lugar e das formas de movimentar-se nele mais facilmente, porque não se vai ficar muito tempo. Tantas saídas, caminhadas, visitas a lugares que identificam a cidade, comprar lembranças.
Chega o momento de uma outra energia, a do retorno. Chega o momento de atravessar uma outra ponte, a que não tem linhas definidas como as refletidas na janela do hotel, aquela que me leva alhures, aquela que o meu desejo de ir estende para onde eu quiser, uma ponte virtual na bagagem que levo pela vida afora, mas que contém também o seu reverso, o desejo de voltar
Uma realidade vivida intensamente está por terminar e sei que a realidade do cotidiano está à minha espera, me chama, me atrai. Diferentes sentimentos convivem ou se afrontam, nestes instantes que precedem o regresso, um tempo de estar aqui e ao mesmo tempo lá. Um tempo duplicado, que me mantém suspensa e difusa, até alçar voo para o destino de volta. Um tempo de não pensar, mas de sentir, para que o coração não pare, como nos avisa Pessoa. Então, haverá o retorno, mas não com os mesmos olhos e ouvidos de quando saí, porque a volta sempre me traz diferente.