Onde estão as ideias? Não há futuro. Grita a
personagem da peça. E o desenrolar do texto de ESTREMEÇO da Cia. Stravaganza nos
provoca a pensar o mundo em que vivemos. Há perguntas, não há respostas, há
que se buscá-las dentro de cada um de
nós. Mas, nós não somos corpúsculos que dançam soltos no ar, fazemos parte
deste mundo, nas suas tantas frações que estão conectadas, quer saibamos disso
ou não. E o problema é quando não se sabe ou não se quer saber.
As lágrimas
correram mais de uma vez ao ver o filme de Maria de Medeiros REPARE BEM. O poder e a
crueldade de torturadores, alguns ainda hoje a desafiar a justiça com seu
silêncio ou reafirmação do que fizeram. A dor e a impotência de pessoas
submetidas pela força, bem como a busca para a superação de sua condição
desfilaram durante quase duas horas. Pensei que sabia o que foi a ditadura de
64, mas percebi meu equívoco, muito ainda tenho a responsabilidade de saber. Algumas
pessoas, que ainda estão vivas, sofreram o que nenhum ser humano merece sofrer,
e foram divididas no mundo, mas continuam convivendo com seu passado e procurando
até hoje superar os traumas. Uma luta contínua e que não acabou. O pedido de
perdão feito pelo Estado Brasileiro é um bálsamo e faz com que a luta daqueles
que pereceram não tenha sido em vão, tenha valido a pena, como afirmou a filha
de um preso político – que não chegou a conhecê-lo – torturado e morto nas
dependências do sistema repressor. Na
saída do cinema, a troca de algumas palavras emocionadas com alguém que também
foi preso e torturado e, da plateia, reviveu os horrores passados.
“Aqueles meninos
estavam à toa na vida, entediados,
frustrados por serem repetentes, acovardados diante da segunda-feira...” Leio essas palavras de Nilson Souza sobre o
incêndio de uma escola por ex-alunos, que são entremeadas com a música de Chico
Buarque “Ah, se alguém, em algum momento pretérito, os tivessem chamado para ver a banda passar, cantando coisas de
amor.” E declara sua dúvida sobre se teriam feito o que fizeram com sua
escola. Um pensamento que foge da simples acusação e penalidade. Seres humanos
jovens com seu futuro barrado e que lembram tantos em mesma situação.
Ideias e futuro,
lhes sinto o cheiro e lhes vejo as cores, no lusco-fusco do caminho de viver com
o outro.