Nas
cidades a vida é mais pequena
Que
aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Escondem
o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos
pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E
tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
Alberto
Caeiro
Estes
versos ressoam todos os dias na cidade que cresce desordenadamente. Um mantra
que faz eco em todo edifício que sobe maior que o outro que lhe é vizinho. E
são muitos os que sobem assim, disputando luz e visão do céu que se encolhe
para os que continuam vivendo nos andares de baixo. Já não há outeiros para
construir a própria casa. Há andares sobrepostos cada vez em maior número, em
prédios que brotam como cogumelos depois da chuva, uma chuva perene de ganância
insana. No lugar dos outeiros, os andares superiores que só estão ali graças
aos debaixo. Repete-se a pirâmide, poucos estão lá em cima. Mas a
natureza é perdida para todos.
As gerações que
virão são esquecidas, o hoje ignora o amanhã, o interesse de alguns prevalece.
Cada vez mais o homem se apequena e entristece como o personagem que Caeiro
invoca noutra poesia, tendo sido apartado do campo, andava pela cidade triste como esmagar flores em livros/ e pôr
plantas em jarros...
São janelas que
se veem de nossas janelas e paredes lindeiras a nossas paredes, num espelhar a mesma
caixa em que nos encerramos ordenadamente e reproduzida ad infinitum. Os limites com os campos, com as matas são cada vez
mais longínquos, quase oásis ou miragens deles. Plantam-se palmeirinhas e grama
em canteiros reduzidos a disfarçar o tanto de cimento que aumenta a temperatura
dos já quentes verões. Ilusão de um verde que se vai reduzindo de forma
sorrateira.
O ver torna-se
domesticado e só se prolonga no traçado das vias que se entopem de veículos. Num
exemplo recente, a ampliação de uma avenida, exigiu que dezenas de árvores
fossem ceifadas. Mais um tanto de verde se foi. Ele que enfeitava o olhar,
suavizava o calor e lhe sorvia o ar impuro para devolvê-lo digerido. Nem estes
benefícios foram suficientes e um punhado de desrazões alimentou a lei e a
força que serrou troncos ainda na noite fria para driblar protestos. Nem a
defesa de uns poucos jovens que lá dormiam o impediu.
Para alargar o
olhar, resta-nos o deslocamento para a orla do rio. Esta também ameaçada por
ideias fantasiosas e projetos megalômanos. Perdemos os outeiros, esperamos
manter as margens.