sábado, 10 de novembro de 2012

Onde estão as crianças?



            Andamos eu e ele pelas calçadas do bairro.
Sentado no carrinho, atento às máquinas velozes que correm pela rua, ele aponta para uma e para outra. Grita-lhes sílabas, cujo sentido mostra sinais na excitação do olhar e dos gestos. Deste mundo em movimento, os ônibus merecem sua atenção maior e o fazem agitar o bracinho em repetidos acenos de adeus, enquanto se vão e desaparecem. Há momentos em que paramos à espera, até um deles apontar lá na esquina, atrás do ondular de formas e tamanhos que o precedem. Estes veículos todos lhe oferecem vislumbres de um mundo por desvendar.
Os passarinhos, outra fonte de encanto. Um e outro pousam nas nesgas de grama dos canteiros das calçadas. Nestes momentos, ele procura libertar-se das tiras que o mantém seguro. Retiro-o, coloco-o no chão e ele corre para tocá-los, mas eles lhe escapam invariavelmente. Então, estanca e, mudo, acompanha com o olhar as trajetórias riscadas no ar até as árvores ou beiradas dos edifícios. Em raros momentos de quietude, convido-o a ouvir os gorjeios escondidos no entrelaçado de ramos acima de nós. Pego-o no colo e num abraço doce, com as cabeças encostadas à escuta,  algumas vezes, fragmentos de música nos alcançam e premiam a espera. Instantes mágicos no turbilhão da cidade grande.
Outros personagens passam por nós nessas incursões. São os cachorros levados a passear, de diferentes cores e tamanhos. Alguns são maiores que ele próprio, mas ele não se assusta, olha-os a todos com o brilho da curiosidade. Numa das sacadas de um edifício, às vezes, vemos e ouvimos um cachorrinho a latir sem parar e ele aponta na sua direção, balbuciando o que me sugere perguntas. Invento respostas. Repete o gesto, mesmo quando o animalzinho não está. Sinal de uma memória já produzida.
Novos encontros e descobertas em toda andança. Plantas, alguma flor colorida, uma pedra, folhas caídas, inventário renovado a cada passeio. Às vezes, um portão de garagem que se abre como uma caverna, para entrada e saída de um veículo. Olhares carinhosos, palavras gentis e sorrisos lhe são endereçados.
No entanto, uma ausência nos faz companhia.  Raros foram os encontros com outras crianças. Várias janelas de edifícios ostentam redes de proteção. É um bairro residencial com prédios antigos e, muitos, sem infraestrutura de lazer. Mas, as calçadas estão vazias de sua presença. Muitas perguntas concentradas numa: onde estarão elas?