quarta-feira, 25 de julho de 2012

Oceano Interior


Na rugosidade superficial  a perder de vista, uma aparente quietude, mas logo abaixo o movimento de  correntes e turbilhões profundos. As lambidas das ondas na areia são o respiro de um corpo vivo que, visto à distância parece pétreo.  Superfície e bordas ocultam a grandeza do palpitar em suas entranhas e a cor de sua pele nos revela profundidades diversas. Seus movimentos lembram o permanente girar das partículas microscópicas de que ele é feito, as mesmas que constituem o mundo nas suas incontáveis formas e diferenças. Berço das primeiras manifestações da vida, nele o tempo se agita, se revolta, se acalma, jamais se imobiliza. Nele a luz se reflete incansavelmente em frações do instante que se sucede e transmite o azul, o verde, o cinza e o marrom, em tonalidades e composições surpreendentes. Seu sossego é ilusório. Se se quer paz, há que se fechar olhos e ouvidos, porque suas manifestações nunca são silenciosas e podem trazer o estrondo com que força  areia, rochedos ou cascos, ou podem trazer o rumorejar que se desprende das miríades de ondas num bordado fantasioso a se perder de vista. Um murmúrio tranquilo pode nos adormecer, mas não dá segurança, as mudanças de humor podem ser bruscas e intempestivas. É quando aceita a provocação dos ventos ou terremotos submersos e a eles se alia contra as terras que o limitam. Parece, no entanto, que o arrependimento de suas invasões surge sem demora, e ele volta a aceitar os limites que lhe são necessários e lhe dão forma. Então, as águas voltam a derramar-se do jeito anterior. Se é fingimento ou resignação, pode-se especular, mas uma certeza ele já permitiu construir: ele é um ser cheio de caprichos.  Ele é um só corpo, mas com um nome em cada lugar, como se fossem muitos e separados corpos, com suas próprias lendas.

Ao escrever sobre o oceano percebo-me a mimetizá-lo. Já me senti lambendo o chão, o corpo dolorido até a um toque na pele, eriçada em espasmos, represando sentimentos acumulados que encontram um momento para emergir sem controle e, na satisfação momentânea do desafogo, às vezes, uma mistura de arrependimento. Mas, também na glória dos afetos oferecidos e retribuídos ou não, com suas composições de contatos, de cores e de sons, que fazem a vida valer a pena. Quantas repetições destes eventos em mim e  em tanta gente ao meu redor. Quantos nomes foram atribuídos ao longo do tempo e lugares vividos. Estas reflexões surgiram das muitas tangências com a natureza, dos inumeráveis momentos de quietude nas aproximações, muitas vezes roubados à urgência do cotidiano, na conquista de um tempo desinteressado, sem pressa, como a chocar um germe de criação, tal qual uma ave sobre o ovo no ninho.

Dar-me conta disso tudo a cada instante não me pode ser roubado. Isso é fonte de energia para continuar vivendo da melhor forma num mundo que continua a desafiar-me e, muitas vezes, a  me dar medo e tristeza, mas não a colocar-me amarras.