quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Vozes submersas


Vozes submarinas que vem à tona através das bandeiras, feitas outras bandeiras com recortes delas, costuradas  por  mãos anônimas.
Combinações, contradições, contravenções, subversões, todos territórios da arte que não quer fronteiras, como não o querem as vozes que são represadas em frascos com rótulos de centro, de bairro, de periferia, de marginal.
Composições que são o olheiro do mundo, o periscópio à cata do inimigo lindeiro, fronteiriço, do lado de lá.
Obras que levam a rupturas do já conhecido. Corredores de diferentes conexões, pensamentos, avanços e recuos. Desvelos de sucessivas ocultações, resultado da marcha cotidiana do mesmo passo, da mesma cooptação.
Movimento, desacomodação pelo captar de um eu que se repete na diferença entre bandeiras, entre nações, entre territórios, entre imposições a povos silenciados.
Fragmentos transformados em costuras de poderes desmascarados, expressos em novos símbolos a gritar, em rachaduras para emersões de novas forças.
Desmascaramento do poder dos símbolos e produção de novos territórios com fronteiras móveis e flexíveis,  que convidem à participação e à partilha. Não ao isolamento e à disputa. Derrubada de cercas, de moirões, de traçados imaginários que impedem  a circulação de ideias e sentimentos para congregar o ser humano num mesmo círculo.
Não somente o isolamento do espaço e tempo de um estúdio, mas partilha do caminho na produção da obra.
Caminhos para estranhar e perguntar sobre os laços, finos e implacáveis, a que cada um é preso no viver cotidiano, onde marcas, compras, automatismos são instituídos no vazio de um não pensar, não reivindicar, não criar.
Convite para substituição do concordar, disciplinar, seguir. Convite a parar, surpreender-se, emocionar-se e ver o duplo, triplo ou quádruplo como outras potências.
Atração para outras virtualidades de mundo. Portas para outras formas de estar no mundo.
Recusa contra a estagnação. Há outra porta, janela, entrada e saída para o acontecimento cotidiano, para a imaginação, para alcançar o outro. Quebra de correntes que imobilizam num mesmo modo de pensar.
Não importa a classificação, se arte conceitual ou moderna, se instalação ou obra, se melhor ou pior que em outros períodos. São sucessivos e ininterruptos convites para ultrapassar as mil sutilezas que nos aprisionam na mesmice travestida na ilusão de mudança. É convite à curiosidade e à descoberta.
Esses são os territórios sem fronteiras atravessados por Sandras, Brunas, Zíngaros, Marias, Marcelos, Jessicas e Joãos, mediadores que acompanham e conversam com quem se dispõe a andar pelos armazéns do cais do porto, pelo Santander, pelo MARGS, pela Casa M e pela cidade não vista.