Neblina, sempre neblina.
A neblina está presente na cena final de Deuses e Homens, na peça Histórias de Amor Líquido, em acidente com centenas de carros em estrada de São Paulo.
A neblina mascara, reveste, esconde ou sugere. Uma certa neblina envolve o cotidiano, em situações de não saber ou quase saber. Ela serviria de manto protetor e, ao mesmo tempo, dissimulador da incapacidade de um seguir confiante e seguro? Ignorância ou ocultamento da ignorância. Nebulosidade.
Guerra pela independência de uma nação, uma história contemporânea e engavetamento de automóveis. Excessos e impossibilidades conectados na luta pelo poder, na fluidez dos contatos humanos e nas tragédias urbanas. Três tempos/lugares diversos e, no entanto, o mesmo esfumaçar da visão. Três atos, replicados indefinidamente antes e depois deles. Na repetição, a diferença em cada contexto.
Sempre fica algo oculto, impossível de alcançar, como se uma neblina eterna negasse a porta para a resposta final. A neblina mostra-se como negação de, enfim, um chegar lá. Ao mesmo tempo – há sempre um “ao mesmo tempo” – ela poderia transformar-se em impulso para seguir adiante, para a busca, para a possibilidade.
Paisagens, nas quais a neblina emoldura, preenche espaços, delineia planos, contrasta níveis são um convite a pressupor e a criar. O mesmo motor oculto que gesta rios etéreos de fantasias e sonhos. Aí, ela convida à ultrapassagem, não ao recuo ou à estagnação da dominação, do isolamento e da restrição .
Se a neblina perturba, mas, também, encanta, o seu poder não estaria nela própria, mas nos toques e imersões que o homem se permite nela. Então, a potência do acontecer estaria na relação entre neblina e homem, não numa ou noutro.
Neblina, nunca só neblina.