terça-feira, 20 de setembro de 2011

Neblina

Neblina, sempre neblina.
A neblina está presente na cena final de Deuses e Homens, na peça Histórias de Amor Líquido, em acidente com centenas de carros em estrada de São Paulo.
A neblina mascara, reveste, esconde ou sugere. Uma certa neblina envolve o cotidiano, em situações de não saber ou quase saber.  Ela serviria de manto protetor e, ao mesmo tempo, dissimulador da incapacidade de um seguir confiante e seguro? Ignorância ou ocultamento da ignorância. Nebulosidade.
         Guerra pela independência de uma nação, uma história contemporânea e engavetamento de automóveis. Excessos e impossibilidades conectados na luta pelo poder, na fluidez dos contatos humanos e nas tragédias urbanas.  Três tempos/lugares diversos e, no entanto, o mesmo esfumaçar da visão.  Três atos, replicados indefinidamente antes e depois deles. Na repetição, a diferença em cada contexto.
         Sempre fica algo oculto, impossível de alcançar, como se uma neblina eterna negasse a porta para a resposta final. A neblina mostra-se como negação de, enfim, um chegar lá. Ao mesmo tempo – há sempre um “ao mesmo tempo” – ela poderia transformar-se em impulso para seguir adiante, para a busca, para a possibilidade.
         Paisagens, nas quais a neblina emoldura, preenche espaços, delineia planos, contrasta níveis são um convite a pressupor e a criar. O mesmo motor oculto que gesta rios etéreos de fantasias e sonhos. Aí, ela convida à ultrapassagem, não ao recuo ou à estagnação da dominação, do isolamento e da restrição .
         Se a neblina perturba, mas, também, encanta, o seu poder não estaria nela própria, mas nos toques e imersões que o homem se permite nela. Então, a potência do acontecer estaria na relação entre neblina e homem, não numa ou noutro.
         Neblina, nunca só neblina.




sábado, 3 de setembro de 2011

Uma questão de pertencimento


Escolas atacadas por vandalismos, igrejas com portas cerradas, monumentos públicos depredados ou roubados, telefones coletivos inutilizados, prédios pichados, sinalização viária desfigurada, lixo nas calçadas escarafunchado.
Estaríamos nos tornando piores? Seriam as minorias marginalizadas o “mal” que ataca a parte mais beneficiada da cidade? Faltariam leis, ou modificações nas que existem? Haveria uma incompetência do Estado para gerenciar os diferentes segmentos sociais?
E a lista de  “pequenas” irresponsabilidades em apenas um micro espaço urbano: um condomínio? A não seleção de lixo, o cigarro jogado  pela janela, cachorros que latem insistentemente dentro do apartamento, o banho demorado, porque a conta de água é dividida.
Em todos os casos, percebe-se a não preocupação com o que provoco com minhas ações. Ou seja, vale o que eu quero fazer. Um individualismo em que o outro só existe na dimensão daquilo que pode me ser útil. Eu não preciso ser-lhe igualmente benéfico . Não há reciprocidade, porque não me vejo parte do seu mundo. Numa situação, eu depredo; na outra, eu ignoro. 
A par de todas as explicações já veiculadas sobre o comportamento humano, pode-se destacar uma razão. Os que depredam não se sentem parte da escola, da igreja, da cidade, e, portanto, não precisam zelar por elas. Num condomínio, há também os que dizem o mesmo. Em outras palavras, só se interessam pelo seu nicho e por aquilo que, eventualmente, os possa incomodar.
Um exemplo de ação coletiva de maiores proporções, a última revolta em Londres, é vista como crime pelas autoridades, mas diferentemente por muitos, dentre os quais uma assistente social que lá trabalha. Segundo ela “Se você não se sente parte de um país, por que cuidar dele?” Isso nos remete à questão de que lá é o caso de uma juventude não totalmente empobrecida, mas na situação de que não lhe é permitido o consumo de produtos que se tornam fetiche numa sociedade bombardeada por propaganda destes produtos, uma sociedade que diz o tempo todo que você vale pelo que compra.
Respeitadas as diferenças, são todas questões de não pertencimento construídas numa sociedade de consumo globalizada. O mecanismo é a construção do individualismo, porque coopta pela ideia de ter, de possuir coisas, mas exclui, porque não cumpre a promessa para todos. Realiza o não pertencimento para muitos
Felizmente, um mapa de forças vivas, que se atraem e se repelem, está em contínua produção. Assim, ao mesmo tempo, um sem número de “contra ações” criticam o modelo de sociedade, defendem outras formas de viver e conviver, propiciam relações de aproximação e de solidariedade, movimentam grupos ao redor da criatividade artística. Tudo isso oferece a chance de compreender o lugar que cada um ocupa no mundo, bem como os mecanismos que o produzem.
Talvez, o mundo não seja nem pior, nem melhor, mas muito mais complexo e a tarefa de compreendê-lo, e a ele pertencer, mais complicada.