sábado, 13 de agosto de 2011

Rastros


           Eles não se foram, engano meu.

Eu os encontro à toda hora, nos livros presenteados e que deixei sobre a escrivaninha à espera de serem lidos; nos edredons de pena  para enfrentar um frio que não chegou e continuam sobre as camas à espera de serem postos ao sol; nos lírios recebidos no dia da partida e que foram desabrochando aos poucos até não mais resistirem  e renderem-se ao tempo.
Começo a ler Fiabe e leggende del Montello como retorno a um lugar da infância, mas que o ultrapassa e me é misterioso, recuperando informações valiosas e, ao mesmo tempo, ignoradas, pintando o lugar de meu nascimento com novos significados. 
O tempo continua chuvoso, os edredons aguardam o tempo melhorar. Não tem pressa.
Os lírios enfeitaram a sala durante quinze dias e, todas as manhãs, me levaram às emoções de um tempo recém vivido, alongando-o mais um pouquinho. Agora, são vasos num canto da área de serviço, hastes cortadas à espera de novo florescer no próximo ano.
Ainda, há os brincos que me enfeitam quando saio à noite e as aquarelas com as quatro portas de Cittadella que pretendo conhecer in locus.
      Todos, recortes vistos pelos olhos da face a compor um mosaico que vai sendo construído na volta à rotina. Recortes ajustados e colados pelas etéreas junções de gestos, olhares, cuidados, pensamentos e emoções, vistos com os olhos do sentir na pele o contato do afeto e da convivência.
            Faltam as fotos que ainda não foram enviadas, mas os rostos tecem um espaço virtual que acompanha meu circular pela casa e pela cidade, como estar on-line todo o tempo.
          Como, então, dizer que alguém se foi, quando deixou tanto no ar a nos envolver?