domingo, 31 de julho de 2011

Entrelaçamento de tempos e lugares


Eles se foram. 
Como Cazuza cantou, o tempo não para. Este não parar colore de irrealidade a sequência de acontecimentos e lembranças que se revisita aos saltos. O pensamento não é linear e ali reside sua beleza e sua criatividade. Repasso o dia em que me telefonaram e disseram: daqui a dois anos vamos te visitar. Essa antecedência povoou o tempo de expectativas e sentimentos diversos, culminância de um convite feito tantas vezes, concretização da esperança de ser aceito, oportunidade de retribuição do carinho recebido quando eu e meus filhos, e amigos nos acompanharam na ida à cidade e a sua casa. O que estava tão longe foi se aproximando até poder ser tocado. Enfim, revê-los, chegando ao aeroporto e poder abraçá-los  como ocorreu comigo mais de dez anos antes.
                Muitas foram as vezes em que antecipei sua chegada e de como seria. Igualmente, antecipei que a alegria de tê-los terminaria. Antecipei imagens e sentimentos. No entanto, nada se igualou ao realmente acontecido, ao contato, aos sorrisos, aos gestos, à proximidade compartilhada.
Com eles vivi quinze dias intensos, o primeiro almoço, feito com especial atenção. As risadas que se seguiram, dias depois, quando soube que um deles odiava sopa e eu havia feito uma receita única de creme de ervilhas, servido na chegada e na janta.
A descoberta, aos poucos, de suas preferências e a expulsão da sopa do cardápio. O oferecimento dos pratos típicos daqui. A apresentação a nossas castanhas do Pará e caju. O encanto com a goiabada, por eles denominada “marmellata di goiaba”, o sabor diferente das bananas e do mamão formosa. Levá-los a conhecer nossos restaurantes com bufê abundante, saboroso e possibilidade de repetir à vontade. A surpresa e incredulidade diante da contínua oferta de carnes, as mais variadas, em churrascarias e galeterias, enquanto houvesse o desejo de comê-las, coisas inimagináveis no lugar de onde vieram.
A recepção e congraçamento com meus filhos, noras, genro e netos, amigos, numa rede de expectativas e descobertas do modo de vida daqui, tão longe.
O centro histórico de Porto Alegre com belezas que se igualam a outros centros de sua própria terra, o bric da Redenção, mesmo sem o costumeiro e esplendoroso sol.
O passeio turístico pela zona sul da cidade, mostrando outras paisagens urbano-rurais desconhecidas até por mim. A visão da cidade de longe e do alto, numa mistura de concentração de prédios, o rio Guaíba costeando e a moldura dos morros.
As visitas à Serra Gaúcha, num dia de chuva que literalmente nublou a paisagem do Vale dos Vinhedos e que não foi vista no seu esplendor. Noutro dia ensolarado, a subida pela BR-116 até Caxias e no interior dela, permitindo uma vista do alto  de um morro, restaurante atendido pela terceira geração de famílias de imigrantes italianos. O depoimento de que aquela paisagem lembrava a Umbria.
O Beira-Rio foi visto de fora, mas foi assistida uma partida no estádio do Grêmio.
Faltaram muitas visitas, no entanto, ficou a promessa de “isto fica para a próxima vez”, uma longa lista. Pode haver sempre uma próxima vez e desejos a realizar, encanto que nos move e continua a nos unir.
Tudo isso refere-se a parentes que vieram de Nervesa dela Battaglia / Provincia di Treviso, lugar onde nasci. Desde a primeira vez que para lá retornei, convidava-os a conhecer a terra que acolheu minha família na década de 1950 e aquela em que vivo com a família que constituí.
Enfim, realizou-se um tempo de estreitamento de laços, realização de sonhos, compartilhamento de afetos, há tanto esperado, no extremo sul deste “meu atual” país.