sexta-feira, 29 de abril de 2011

Instantes únicos


Ele é um bebê que nasceu numa noite de muitos nascimentos, como em outras noites longínquas dos meus próprios filhos e outras mais recentes, de meus outros netos. Eu e os outros avós ficamos no hospital para vê-lo logo, nos seus primeiros momentos fora da proteção materna. Ali, o tempo  reduziu-se àquela espera, e o espaço  concentrou-se naquela sala como se fosse o instante inicial que antecedeu a formação do universo, nada mais interessava fora daquilo.
Quando ele apareceu na pequena sala envidraçada, no berço padronizado e com seu pai ao lado, tudo em volta sumiu e a luz se mostrou focada apenas neles, sem sons, somente gestos mediados pela parede de vidro que nos separava e, ao mesmo tempo, nos permitia a comunicação dos olhares, sorrisos e mímicas. A grande comunicação, naquele transcurso, foi a do coração que se expandia  para fazer-nos únicos e ligados num só bater acelerado.
O bebê nu e com apenas um pedacinho do cordão umbilical, já destacado do ninho em que foi gerado, o pai ao lado, curvado sobre ele, com roupa verde claro, própria para ambientes assépticos de hospital, a acariciá-lo e a falar-lhe ternamente, num retrato amoroso da acolhida do seu primeiro filho. O pai começando a partilhar a tarefa que tinha cabido à mãe nos nove meses precedentes, ou, como se diz agora, quarenta semanas.
A roda da vida tinha dado a primeira grande volta, ele tinha começado o seu caminho aqui fora. Responsabilidades redobradas de seus pais, possibilidades lançadas para formar a si mesmo no tempo por vir.
Ele nasceu e eu esqueci todas as notícias que acenam para um mundo hostil. Neste esquecimento, eu também renasci  junto à renovação do desejo de continuar a fazer qualquer coisa para que o mundo seja melhor para ele e para todas as crianças que nasceram no mesmo instante que ele, antes dele e que continuam nascendo.
A diferença neste nascimento é que ele é sempre único, como o é cada manifestação da vida. Vida que seria diferente em todo o planeta, se o nascimento de cada criança estivesse presente nas decisões dos adultos, em casa e nos diferentes espaços de poder.


terça-feira, 12 de abril de 2011

De novo, refém

             Como não sentir-se refém ao ler e ouvir os jornais e telejornais?

            Golpeou-me fundo como a todos os que tomaram conhecimento do horror que foi a morte dos adolescentes e do rapaz que os matou numa escola do Rio de Janeiro.  Sequer dá tempo de pensar sobre as pequenas tragédias cotidianas que circulam por perto. Ainda no rescaldo deste espectro, outro semelhante realiza-se num país europeu. Pensamentos  dissonantes de  dor, impotência e desesperança se cruzam e entrelaçam com argumentos frágeis e desejos de retorno da esperança de uma sociedade que mostre estar evoluindo, buscando um jeito diferente e mais amoroso de se relacionar.

            Sem trégua, o rádio noticia de manhã cedo que a tragédia de Fukushima ainda não acabou, acena para o pior já conhecido há vinte e cinco anos.  Como se fosse em outro mundo,  em diferentes pontos da África, facções diversas matam-se em nome da democracia. Outras nações, agora, apoiam os inimigos daqueles que foram seus amigos até há pouco. Invocam-se para isso a necessidade de restabelecer a lei, proteger civis, não interesses econômicos e os poços de petróleo dos quais o ocidente precisa e todos sabem. Como mantra nega-se repetidamente o óbvio.

            Por aqui, denuncia-se corrupção nas obras aceleradas com vistas à Copa 2014. No ano passado havia-se evitado a ação governamental que premiava a sanha da construção civil no Morro de Santa Teresa, mas não há como alegrar-se. Ainda é pouco em vista do que pode ocorrer com o solo urbano.

            Sobra-me o aceno de um reconhecido escritor norte-americano para quem não são só os estados, mas também as sociedades ditam novas narrativas no mundo contemporaneo. Para ele as populações também exercem a diplomacia através da sua cultura e poder de persuasão. Espero que ele tenha razão, para que as crianças de hoje tenham outros desafios a superar e não se sintam reféns dos erros das gerações adultas que construiram o mundo em que nasceram.

            No entanto, não vejo este caminho ser desenhado sem a intensificação de relações solidárias e a busca de formas coletivas de conviver e viver nas numerosas capilaridades sociais. O problema do outro é também meu. Isto pode ser feito agora.