Em homenagem ao dia da mulher, uma palestrante afirmou que Frida Khalo não foi refém de coisa alguma, nem do seu corpo maltratado e fonte de dor a maior parte de sua vida.
Certo, ela rompeu padrões, chocou a sociedade, criou com suas pinturas uma estética singular. Foi a própria diferença, numa época em que a mulher fazia os primeiros movimentos coletivos para ser reconhecida em igualdade de condições no mundo de supremacia masculina. Foi transgressora e criativa. Fez de seu atribulado cotidiano uma inesgotável fonte de inspiração.
Certo, ela rompeu padrões, chocou a sociedade, criou com suas pinturas uma estética singular. Foi a própria diferença, numa época em que a mulher fazia os primeiros movimentos coletivos para ser reconhecida em igualdade de condições no mundo de supremacia masculina. Foi transgressora e criativa. Fez de seu atribulado cotidiano uma inesgotável fonte de inspiração.
Frida Khalo e outras tantas mulheres e homens, são testemunho de recusa ao já dado e estabelecido. Mas, nem ela conseguiu fugir do sofrimento e da exclusão, da impossibilidade de convivência compreensiva e respeitosa com setores da sociedade americana e mexicana da época. Valem, no entanto, suas formas de agir e de criar a partir do seu sofrimento. Ali, realmente, não foi refém, prevaleceu sua vontade de se ultrapassar e vencer seus limites.
Bela síntese do poder individual mas não individualista, porque ela sempre se colocou junto à história de seu povo. Suas raízes fizeram-na voar. Ela viveu o presente com seus antepassados. Ela projetou a memória na arte que multiplicou em sua figura transcendente à dor e à morte. O que ela fez foi recusar as amarras das urgências cotidianas.
Como se inspirar nesse exemplo? No rumoroso e condicionante cotidiano em que se vive, o que significa não ser refém? A singularidade da criação artística não é moeda corrente , embora a fruição das produções de numerosos artistas e a proliferação de escolas e oficinas de criação nas diferentes artes seja uma realidade da contemporaneidade.
Criação artística e subjetividade transgressora mostrou-se um binário pertinente. Mas parece reduzido, hoje, o espaço e tempo propícios para manifestações heróicas, estas foram se esvaziando ao longo das últimas décadas. A arte, também, foi contaminada por esse viver na transitoriedade, na provisoriedade, na precariedade das relações humanas. No entanto, ela renasce nesses formatos e se perpetua.
E nós, seres humanos, como afirmarmos nossa capacidade criativa para além das miríades de formas de subjetivação que nos querem reféns no grande centro comercial que se transformou o mundo? Como criar no mundo que nos convida a consumir, inclusive nossa memória? Memória que nos enraiza e nos permite avançar, sabendo e produzindo quem somos como sujeitos e como coletividade?
Como Frida, é preciso não temer ser quem somos. A vida é feita de diferenças e de trocas. Não é preciso ser ela, mas ter sua coragem para não sermos reféns das mesmices cegas e uniformizantes da sociedade contemporânea com máscaras de diferenças.