Tu vais embora à tardinha e eu vou pondo no lugar o que tiraste para fazer tua cabana e outras brincadeiras imaginadas por tua cabecinha. Sigo os vestígios de tuas andanças pelo apartamento, alguns eu deixo para prolongar tua permanência comigo.
Tua cabecinha é uma máquina de brinquedos que não pára. A gente se distrai uns segundos e tu apareces com a sacola dos prendedores de roupa, o banquinho para sentares à mesinha, um jogo da caixa que é só tua e que abres todos os fins de semana. Abres e fechas portas de armários. Já não pedes, porque sabes o lugar daquilo que te interessa. Vais buscar. Amo esta desenvoltura de quem sabe que a casa também é sua.
Tu te vais quando finda o dia, mas continuas aqui nos sinais de tuas criações de menina e no encanto que me proporcionam e me mantém ligada à vida que está em ti.
Tu te vais e eu vou descansar, porque teu ritmo está diametralmente oposto ao meu. Fico pensando que essas diferenças se acentuam inexoravelmente dia a dia. Consola-me que são vagarosas e dão algum tempo.
Tu te vais e eu fico pensando no que tu estarias pensando nas tuas invenções. E são sempre variadas. E sempre surgem outras.
Tu te foste e, desta vez, deixaste as pulseiras que enfeitaram teus braços, tornozelos e pernas, enquanto vias um desenho na televisão e nos intervalos de outros brinquedos. Com elas montaste um só círculo, segurando a ponta dos puxadores das cortinas da sala. Janela aberta e o vento a balançar tua criação. Fiquei curiosa sobre o que pensaste ao fazê-lo. Já nao estás para te perguntar.
Sempre essa palavra “pensar”. Como será o pensamento de alguém com menos de cinco anos? Talvez, já nem lembres mais do que fizeste. Tirei uma foto, memória de instantes felizes de minha vida contigo, mais do que memória de um teu brinquedo.
Quando voltares, no próximo domingo, vou te mostrar. Pressinto que uma semana é um tempo longo para ti. Tantas coisas te acontecem e incorporas! Eu já ando mais devagar e a rapidez me incomoda. Estou curiosa para ver como se falarão a minha e a tua memória...