terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Associações

          Interessante como funcionam nossas lembranças. Tal como uma rede assimétrica de linhas que se cruzam, se afastam, se reconectam mais adiante, num emaranhado que parece, mas não é, absolutamente caótico. Pelo contrário, organizadas qual rede clandestina que só se mostra/dá a ver quando desbaratada. 

Estava eu lendo um artigo, imersa com prazer nos seus diferentes conceitos e exposições, quando surgiu a palavra tautologia. Tive dúvidas quanto ao seu emprego numa frase e busquei um dicionário.

No tempo que separou os atos de buscá-lo e encontrá-lo, lembrei-me, sem motivo consciente algum, de uma entrevista que fiz com um homem de mais de sessenta anos para um programa de alfabetização de adultos, o qual coordenava e no qual depositava muitas expectativas. Na ocasião, ele havia falado uma palavra que sua pronúncia e  minha total ignorância dificultaram-me a compreensão. Veio-me o desejo de lembrar tal palavra, mas não conseguia. Encontrei um dicionário etimológico, não era o procurado, mas mesmo assim folhei-o: T... Tábua... Taifa... e, antes de encontrar tautologia, lembrei de repente, com luminosidade, a palavra era tafona. Era essa a palavra: tafona. Desviei-me do primeiro propósito e procurei-a com certo gosto. Gosto da lembrança? Gosto daquela experiência de outrora? Não deu tempo de responder. Meus neurônios a recuperaram, mas não existia naquelas páginas. Ela não estava lá e sua ausência trouxe-me de volta ao presente, para o termo inicial procurado. Havia tautó=o mesmo.  
Fui em busca de tautologia no dicionário da língua portuguesa, perguntando-me o que haveria de conexão entre tautologia, que eu procurava, e tafona, que se interpôs intempestiva no curso do meu pensamento. Corte na cena, introdução de novo elemento. Talvez, algo mais que um dicionário possa me explicar, mas registrei significados encontrados. Tautologia: redundância, pleonasmo. Tafona (atafona): moinho, processamento de grãos.
Muitas coisas me vieram à cabeça, registro apenas uma: o inconsciente entende de semântica,  me fez remoer e repetir momentos prazerosos, na redundância do processamento de minhas lembranças. 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Espaços de subjetivação criativa

 O ato de criar pressupõe sujeitos em sua singularidade.
Dudamel, jovem regente venezuelano de menos de 29 anos, exerce um poder insólito sobre seus músicos com uma liderança que inspira a fazer música. Não é autoritário, usa metáforas para conduzir os integrantes da orquestra. Diante de passagem ruidosa durante um ensaio, disse aos músicos que tocassem como duas crianças apaixonadas, correndo peladas por um bosque.
Dimenstein escreve sobre cursos que oferecem a oportunidade de aprender, sem provas  ou pressões de competição e, sim, pelo prazer de construir um conhecimento que dê satisfação a quem se propõe a estudar o que lhe é oferecido. São espaços que promovem, não um prazer hedonista, mas um prazer advindo do esforço de superar-se.
Em ambos os exemplos, são antevistas relações interpessoais peculiares. Nada a ver com o perigo de ser reprovado ou excluído. A invocação é o aparecimento do que o próprio sujeito pode trazer à tona. É o prazer de ultrapassar os próprios limites que é despertado. É a possibilidade de criar que é provocada.  
Num caso, a paixão pelo que é feito  e, no outro, o aceno da satisfação de abrir os horizontes do conhecimentos. Em ambos, o prazer de viver um tempo suspenso das correrias e urgências de um mundo contemporâneo. Embora, no primeiro, o foco seja a criação artística na excelência da execução musical e, no segundo, uma construção intelectual acadêmica, em ambos há a necessidade de uma atitude interna do fazer e não a pressão externa como espada a julgar o resultado. Evidentemente, o externo existe, seja o público que ouvirá a execução da partiruta, ou o local onde serão utilizados os conhecimentos interiorizados. Vive-se com o outro, seja o companheiro mais próximo, seja a sociedade mais ampla da qual se depende em alguma medida. Evidentemente, pressupõe-se um resultado, uma competência, uma materialização dos esforços que serão partilhados de alguma forma com o público. O que está em questão nos casos apresentados, no entanto, é a priorização da potencialidade do sujeito de compreender, comunicar, fazer ou produzir. Ou seja, um modo diversoo de inserção do sujeito na atualidade.
Sem dúvida, em qualquer dos dois casos, existirá em algum momento e em algum grau o temor de não dar conta da tarefa, mas como sentimento primitivo inerente à constituição do ser humano e à responsabilidade com a tarefa que cada um assumiu, mas não como caminho skinneriano do prêmio ou castigo, próprio de uma sociedade competitiva e predadora que predomina.
Enfim, a constatação da diversidade e complexidade do mundo. Simultaneamente à premência de respostas imediatas, modos de subjetivação massificada e narcísica, este mesmo mundo produz espaços de subjetivação em que a diferença, a singularidade e a criação possam se produzir.
Quem sabe, um dos tantos caminhos possíveis para relações de respeito à diferença e criação do outro, em contraponto à sociedade de massas propiciadoras de preconceitos, desrespeito e violência.